Quem assiste a The Shards sem conhecer o livro de Bret Easton Ellis tem bons motivos para ficar confuso sobre o que é verdade. O protagonista se chama Bret Easton Ellis, estuda na mesma escola em que o escritor estudou, vive em Los Angeles durante sua adolescência e começa a descobrir a sexualidade enquanto sonha em se tornar escritor. Ao mesmo tempo, seus amigos parecem estar na mira de um serial killer chamado Trawler e uma seita conhecida como Riders of the Afterlife aterroriza a cidade. É autobiografia, true crime ou invenção? A resposta mais adequada talvez seja: Bret Easton Ellis gostaria muito que não soubéssemos exatamente onde separar uma coisa da outra.
The Shards, publicado como romance em 2023 depois de ter surgido em capítulos narrados pelo próprio Ellis em seu podcast, é normalmente definido como autoficção. Não por acaso. Durante a publicação original, Ellis chegou a apresentar a história como “99%” autobiográfica, afirmando que as pessoas e os acontecimentos eram reais. Depois, porém, passou a brincar de maneira muito mais evidente com essa afirmação. Ao contar que uma antiga colega de escola havia entrado em contato depois do lançamento do livro, por exemplo, respondeu a ela esperando que tivesse gostado de sua versão ficcional daquele último ano juntos.
É exatamente nessa contradição que mora o jogo.

O que há de verdadeiro em The Shards?
Bret Easton Ellis realmente cresceu em Los Angeles, frequentou a exclusiva Buckley School e viveu naquele ambiente privilegiado que aparece tanto no livro quanto na série. O jovem cercado por dinheiro, carros, drogas, festas, pais ausentes e uma espécie de anestesia emocional também remete diretamente ao universo que poucos anos depois ele transformaria em Less Than Zero, publicado quando tinha apenas 21 anos. O livro de estreia seria escrito durante a faculdade, mas a matéria-prima daquela Los Angeles adolescente evidentemente já estava lá.
Também há algo profundamente autobiográfico na descoberta da sexualidade e na sensação de Bret de viver duas vidas simultâneas. Na série, Igby Rigney interpreta um adolescente que mantém uma namorada e desempenha o papel social esperado enquanto esconde seus relacionamentos e desejos por outros garotos. Independentemente de cada encontro ou personagem ter existido exatamente daquela maneira, essa duplicidade pertence à memória que Ellis escolheu reconstruir.
O detalhe mais engenhoso é que o Bret adulto também existe dentro dessa narrativa. Não estamos simplesmente vendo a adolescência do autor: estamos vendo a versão que o escritor decidiu criar décadas depois sobre a própria adolescência. Memória, desejo, culpa, fantasia e ficção já chegaram misturados.
E aí entram o Trawler e a seita.
O Trawler existiu de verdade?
Não. O serial killer conhecido como The Trawler é uma criação ficcional de The Shards. Não existe um assassino real com essa identidade escondido na biografia de Bret Easton Ellis. O próprio material sobre a origem da série distingue a juventude real do escritor da trama inventada do assassino que passa a perseguir adolescentes em Los Angeles.
Isso não significa que o medo que cerca o personagem seja completamente desconectado da realidade. Ellis está recriando uma Los Angeles ainda marcada pela memória dos crimes da Família Manson e pela presença constante de histórias sobre assassinos em série na Califórnia. O Trawler funciona perfeitamente dentro daquele imaginário, justamente porque parece alguém que poderia ter existido. Mas seu método, seus crimes e sua relação com os personagens pertencem ao thriller. A associação feita por alguns leitores com assassinos reais é interpretação, não origem confirmada por Ellis.
E talvez seja por isso que funciona tão bem. Ellis coloca uma ameaça inventada dentro de uma lembrança extremamente específica e reconhecível de sua própria vida. Depois pede que a gente descubra em qual das duas acreditar.

E os Riders of the Afterlife? A seita existiu?
Aqui a resposta também é não. Os Riders of the Afterlife fazem parte da construção ficcional de The Shards e são apresentados deliberadamente como uma espécie de culto pós-Manson, com símbolos satânicos, invasões, violência e sacrifícios de animais. Críticas ao livro e à série frequentemente os descrevem justamente como “Manson-esque”: a referência cultural é verdadeira; aquela organização específica não é.
E Ryan Murphy parece ter percebido imediatamente o potencial dessa parte da história.
Nos primeiros episódios da adaptação, os Riders ganham presença bem maior e informações mais concretas do que tinham neste ponto do livro. A série desenvolve a organização, seus rituais e até sua liderança mais rapidamente, ao mesmo tempo em que aproxima seus crimes dos atribuídos ao Trawler. É uma mudança relevante porque torna algo que no romance funcionava também como ruído para a paranoia de Bret em um mistério muito mais tradicional de televisão.
E é aí que The Shards se torna uma combinação curiosamente perfeita entre Ellis e Murphy. O escritor construiu uma história na qual não podemos confiar completamente nem no narrador, nem na memória e muito menos na fronteira entre autobiografia e invenção. Murphy pega essa ambiguidade e transforma parte dela em espetáculo: mais sexo, mais horror, mais seita, mais suspeitos e, naturalmente, mais beleza visual.
Então, The Shards é baseado em uma história real?
Sim e não, que é exatamente como Bret Easton Ellis prefere.
A escola é real. Los Angeles é real. O escritor adolescente é real. Parte das amizades, experiências, desejos e lembranças provavelmente nasceu de pessoas e acontecimentos reais, embora seja impossível fazer uma correspondência segura entre cada personagem e alguém da vida de Ellis. O Trawler não é real. Os Riders of the Afterlife também não. E Robert Mallory pertence justamente à região em que o livro abandona qualquer obrigação de funcionar como memória verificável e assume plenamente o thriller.
Talvez por isso seja tão engraçado que a série comece com o tradicional aviso de que qualquer semelhança com pessoas reais é coincidência. O protagonista tem o nome do autor, estuda na escola onde ele estudou e está vivendo uma versão de sua adolescência.
Coincidência, claro.
Bret Easton Ellis não poderia ter escolhido uma maneira melhor de começar.
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