Há uma tentação compreensível de chamar Rosalía de inovadora, mas talvez essa nem seja a palavra mais justa para explicar o que ela faz em LUX e, principalmente, o que consegue fazer no palco. Misturar música, dança, moda, artes plásticas, teatro e uma grande orquestra está longe de ser novidade. David Bowie, Madonna, Pet Shop Boys, Björk e tantos outros artistas transformaram o concerto pop em obra visual e performática décadas antes dela. Também não foi Rosalía quem aproximou pela primeira vez música erudita, eletrônica e pop. Sarah Brightman, para citar um exemplo evidente, construiu boa parte de sua carreira atravessando justamente essas fronteiras. A originalidade de Rosalía, portanto, não está nos ingredientes, mas na sintaxe.

Ela reorganiza referências reconhecíveis de maneira tão pessoal que, quando tudo se encontra, já não parece uma coleção de influências. Parece Rosalía. A orquestra não está ali para dar respeitabilidade ao pop, a dança não serve apenas para preencher o palco, a moda não é um detalhe decorativo e a iconografia religiosa não funciona simplesmente como cenário. Tudo pertence à mesma linguagem e, mais importante, tudo parece nascer da mesma inquietação artística.
LUX já havia deixado isso claro. É um disco ambicioso, complexo e nada interessado em facilitar o caminho do ouvinte. Rosalía atravessa flamenco, música orquestral, eletrônica, pop, referências religiosas e místicas, canta em diferentes idiomas e constrói um álbum que exige atenção num momento em que boa parte da indústria musical parece disputar justamente o contrário: quem prende alguém mais rápido antes do próximo vídeo, da próxima música ou da próxima distração. Talvez sua maior ousadia esteja justamente aí, porque Rosalía consegue ser difícil sem se afastar de uma geração acostumada ao imediato.
Mas foi vendo LUX no palco que isso fez ainda mais sentido para mim. O show tem exatas duas horas e praticamente nada nele parece deixado ao acaso. Há dança, deslocamentos milimetricamente pensados, músicos, orquestra, trocas de figurino, luz, imagens e cenas que se organizam quase como quadros. Tudo depende de uma engrenagem enorme funcionando com precisão, mas, curiosamente, não foi precisão o que senti assistindo. Foi liberdade.

Talvez por conhecer de perto o trabalho que existe por trás de uma coreografia, sempre me impressiona quando o esforço desaparece, e Rosalía consegue exatamente isso. Duas horas rigorosamente ensaiadas passam diante dos nossos olhos sem a sensação de estarmos assistindo a alguém cumprir marcações. Nada deveria parecer espontâneo naquele show, mas quase tudo parece, e essa foi, para mim, a grande mágica da noite.
Rosalía ri, brinca, conversa, olha para a plateia e parece genuinamente feliz por estar ali. Há uma enorme máquina funcionando em torno dela, mas a máquina nunca engole a pessoa. Ao contrário, quanto maior o espetáculo fica, mais evidente parece sua capacidade de estabelecer uma relação quase íntima com milhares de pessoas. É uma qualidade muito mais rara do que pode parecer, especialmente em shows gigantescos, que frequentemente deixam evidente o tamanho de sua produção e impressionam pelo dinheiro, pela tecnologia, pelos telões, pelos efeitos ou pela quantidade de gente envolvida. Rosalía tem tudo isso à disposição, mas consegue fazer com que a lembrança principal não seja a dimensão do aparato, e sim ela.
Sua voz, seu corpo, sua inquietação, seu humor e a curiosidade quase voraz com que atravessa linguagens diferentes impedem LUX de se transformar naquele tipo de projeto excessivamente consciente de sua própria importância. Há muita pesquisa, simbologia, religião, referências à pintura, à dança, à música erudita e ao flamenco, e tudo isso poderia facilmente se tornar um exercício pretensioso. Rosalía escapa porque existe calor no meio dessa elaboração toda. Existem sensualidade, irreverência, prazer e, sobretudo, a sensação de que ela realmente gosta de estar fazendo aquilo.

A passagem pelo Brasil acabou reforçando essa impressão. Rosalía escolheu apenas o Rio de Janeiro para os shows brasileiros da turnê, outra decisão pouco convencional em tempos nos quais São Paulo parece escala praticamente obrigatória para grandes artistas internacionais. Foram duas noites lotadas e, nas duas horas em que esteve no palco, ela deu tudo de si sem nunca parecer cumprir uma obrigação de turnê.
Falou em português, e muito bem, conversou com o público e brincou com algumas das músicas brasileiras que claramente fazem parte de suas referências. Arriscou notas de “Águas de Março” e “Luiza”, de Tom Jobim, e de “Construção”, de Chico Buarque. Não eram números preparados para entrar oficialmente no espetáculo e talvez justamente por isso tenham combinado tanto com aquela sensação de que, mesmo dentro de uma produção gigantesca e rigorosamente coreografada, alguma coisa ainda podia acontecer somente ali, naquele momento, naquela cidade e com aquela plateia.
Quando falou sobre a possibilidade de trabalhar em um álbum de bossa nova, a ideia imediatamente pareceu menos absurda do que perigosa. Espero que faça, mas não porque precisamos de mais uma cantora estrangeira produzindo uma homenagem respeitosa à bossa nova. Rosalía dificilmente parece capaz de simplesmente visitar uma linguagem. Ela entra, pesquisa, desmonta, mistura, absorve estruturas e tenta descobrir o que pode fazer com elas.

Seu português já é excelente e, se realmente mergulhar em nossa música com a mesma curiosidade com que mergulhou no flamenco, na eletrônica e agora no universo orquestral de LUX, talvez não faça apenas um disco de bossa nova. Talvez crie a sua própria bossa nova, com uma identidade que não precisará imitar Jobim, João Gilberto ou qualquer outro nome para provar que entendeu de onde veio.
Depois de duas horas de LUX, dá para reconhecer muitas delas, mas nenhuma explica Rosalía por inteiro. E talvez seja justamente essa a medida de sua singularidade.
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