East of Eden: faltam seis semanas para conhecer a nova Cathy Ames

Tenho escrito sobre a nova adaptação de East of Eden praticamente desde que ela foi anunciada. Li o romance de John Steinbeck, vi suas versões para o cinema e para a televisão e, talvez justamente por isso, minha maior curiosidade em relação à série da Netflix sempre veio acompanhada de uma preocupação que não mudou: o que uma adaptação do século 21 fará com Cathy Ames?

Agora falta pouco para descobrir. East of Eden estreia em 1º de outubro, com sete episódios, e a Netflix finalmente divulgou novas imagens oficiais e, mais importante, algumas pistas de Zoe Kazan sobre a maneira como pretende abordar a personagem interpretada por Florence Pugh. Em vez de dissipar minha dúvida, as declarações fizeram algo melhor: aumentaram a curiosidade.

Cathy Ames é um problema para qualquer adaptação contemporânea porque Steinbeck não foi exatamente sutil ao criá-la. No livro, ela é uma das encarnações mais extremas do mal. Manipuladora, sexualmente predatória, cruel, incapaz de empatia e perfeitamente consciente do sofrimento que provoca, Cathy não tropeça moralmente. Muitas vezes parece procurar deliberadamente o caminho mais destrutivo. Para mim, dentro da construção bíblica de East of Eden, ela sempre esteve mais próxima de Lilith do que de Eva: não apenas a mulher ligada à queda, mas aquela que recusa o lugar que lhe foi determinado e não aceita submissão.

O problema — e também a riqueza da personagem — é que essas duas coisas não são necessariamente a mesma coisa. Uma adaptação feita hoje não pode simplesmente reproduzir sem questionamento a ideia de que uma mulher que rejeita casamento, maternidade, submissão doméstica e repressão sexual é, por isso, monstruosa. Cathy vive em uma época na qual praticamente todas as escolhas possíveis para uma mulher eram definidas por homens. Vista pela lente contemporânea, sua recusa daquele mundo inevitavelmente ganha uma dimensão que talvez não estivesse no centro da leitura de 1952. Mas reduzir Cathy a isso também seria um erro enorme.

Ela não apenas não deseja ser esposa. Cathy atira em Adam e o abandona com os filhos recém-nascidos. Não apenas prefere uma vida sexualmente independente à domesticidade que ele idealizou para ela. No bordel, continua manipulando, explorando e destruindo pessoas. Sua relação com Faye é uma das demonstrações mais terríveis de que sua crueldade não depende simplesmente de homens tentando controlá-la. Steinbeck pode ter carregado tanto nas tintas que, em alguns momentos, Cathy quase se aproxima de uma caricatura do mal. Tirar dela essa dimensão, porém, seria destruir justamente aquilo que tornou Cathy Ames uma das personagens femininas mais inquietantes da literatura americana.

É por isso que uma declaração recente de Zoe Kazan chamou tanto minha atenção. Ao Tudum, a roteirista e produtora disse que queria garantir que Cathy fosse “uma pessoa e não apenas um arquétipo”. A palavra é importante. Kazan não fala em corrigir Steinbeck ou reconstruir Cathy para torná-la mais palatável. Diz que sua intenção foi “desdobrar” a personagem e que praticamente tudo o que aparece na série tem alguma raiz no romance.

Isso me tranquiliza e me preocupa em proporções quase iguais. Porque Cathy realmente precisa ser uma pessoa. Sete episódios permitem aquilo que o cinema não permitia e aquilo que Steinbeck, interessado também no simbolismo bíblico de sua personagem, nem sempre pareceu interessado em fazer: entrar nos espaços entre suas ações, observar seus desejos, sua inteligência, sua raiva e sua relação com um mundo que oferece pouquíssimas possibilidades a uma mulher como ela. O perigo está na diferença entre compreender e justificar.

E Florence Pugh já deu uma pista ainda mais provocadora sobre o caminho que escolheu. Ao falar da personagem, contou que se irrita quando alguém lhe diz que leu o livro e concluiu simplesmente que Cathy é uma pessoa terrível. “I can explain all the awful things that she does”, disse. Para Pugh, é responsabilidade do ator entender sua personagem porque ela não pode se defender. Confesso: é exatamente a frase que eu queria ouvir e também aquela que me deixa mais alerta.

Um ator precisa saber explicar Cathy. Provavelmente Florence Pugh precisa defendê-la enquanto a interpreta, porque ninguém consegue construir uma personagem pensando nela apenas como “o mal”. A atuação exige encontrar uma lógica interna mesmo para o comportamento mais indefensável. E Pugh já demonstrou, especialmente em Lady Macbeth, que sabe trabalhar em um território no qual compreender a violência de uma mulher não significa transformar essa violência em inocência.

O que espero que East of Eden preserve é justamente essa tensão. Cathy pode ser uma mulher limitada pelas regras de seu tempo e continuar sendo cruel. Pode desejar liberdade sem que toda escolha feita em nome dessa liberdade seja moralmente defensável. Pode ter razões sem ter desculpas. Pode ser compreensível sem se tornar redimível.

Talvez seja esse o desafio mais fascinante da série.

Zoe Kazan é inteligente demais para não saber onde está pisando. Além de ter uma relação familiar inevitável com o material — seu avô, Elia Kazan, dirigiu a adaptação de 1955 com James Dean —, ela conhece profundamente o romance e deixa claro que não pretende apenas modernizá-lo mecanicamente. A série, segundo a própria Netflix, atravessa décadas das famílias Trask e Hamilton e coloca nova atenção justamente sobre Cathy, a personagem que o estúdio define como sua “anti-heroína indelével”.

As primeiras fotografias de Florence Pugh também não entregam uma resposta fácil. Há uma Cathy belíssima e controlada, outra quase impenetrável enquanto é abraçada, uma mulher que ocupa o centro da imagem mesmo quando deveria estar emocionalmente ligada a alguém. Ainda não sabemos se existe vulnerabilidade por trás daquele olhar ou apenas cálculo. Talvez essa ambiguidade seja precisamente o objetivo.

E é aí que, depois de tantos textos sobre esta adaptação, minha expectativa permanece praticamente no mesmo lugar em que começou. Não quero ver uma Cathy Ames preservada em formol apenas porque foi assim que Steinbeck a escreveu em 1952. Mas também não quero vê-la absolvida porque, em 2026, nos incomoda admitir que uma mulher possa ser cruel sem que sua crueldade precise ser explicada exclusivamente pelo gênero, pelo desejo de liberdade ou pela sociedade que a cercava.

Entre o monstro quase mitológico de Steinbeck e uma possível Cathy reinterpretada pelo presente existe uma personagem muito mais difícil e potencialmente muito melhor. Florence Pugh e Zoe Kazan parecem acreditar que a encontraram. Em 1º de outubro, finalmente descobriremos se encontraram mesmo.


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