Foi preciso que Alice e Catherine finalmente ficassem frente a frente para que Fúria revelasse o que realmente existe entre elas. Até aqui, uma era a agente do FBI obcecada em capturar a serial killer que assassina homens acusados de violência contra mulheres. A outra era a mulher que desistiu da Justiça e passou a executar pessoalmente aqueles que sempre conseguiram escapar dela. No sexto episódio, porém, essa oposição começa a desmoronar.
Alice não persegue Catherine apenas porque quer solucionar o caso. Ela se reconhece nela. E a revelação final sugere que essa identificação é muito mais profunda do que imaginávamos: as duas podem ter sido vítimas do mesmo homem. O encontro acontece em um abrigo para mulheres em situação de violência, um dos poucos lugares onde Catherine ainda acredita estar protegida. Alice não está oficialmente autorizada a conduzir a operação e, para permanecer perto dela, assume uma identidade falsa. Diz ser uma profissional do sexo fugindo de um namorado agressor e acaba dividindo o quarto com a mulher que procura há semanas.
Catherine, no entanto, passou a vida aprendendo a identificar mentiras. Alice pode ter experiência em interrogatórios, disfarces e manipulação, mas está diante de alguém que sobreviveu justamente porque aprendeu a perceber o perigo antes que ele se apresentasse por inteiro. Por isso, o disfarce só começa a funcionar quando Alice deixa de interpretar.
Ao falar sobre Marshall, ela conta a verdade. Revela como o homem que dizia amá-la tentou matá-la no chuveiro e como acreditou que morreria ainda com xampu no cabelo. O detalhe é terrível justamente porque é banal. Não pertence ao vocabulário preparado de uma agente tentando conquistar uma suspeita, mas à memória de uma mulher que se viu diante da própria morte.
Quando as mulheres do abrigo são chamadas para o banho, Alice paralisa. Catherine percebe o que está acontecendo e começa a falar com ela, tentando mantê-la presente. É uma inversão brilhante: Alice entrou naquele lugar para manipular Catherine, mas é a assassina quem reconhece sua vulnerabilidade e a protege. Pela primeira vez, as duas deixam de ser investigadoras e criminosas. São apenas duas mulheres identificando uma na outra sinais de uma violência que conhecem intimamente.

Catherine também revela parte de sua história. Ela frequenta aquele abrigo desde os 16 anos e conheceu Isabel dentro do mesmo universo de abuso e exploração. Isabel não era apenas sua amiga. Era a pessoa que permaneceu ao seu lado quando as duas estavam presas em um inferno que ninguém parecia interessado em enxergar.
As lembranças de Catherine sobre Jay Easton são fragmentadas. Ela recorda ter ido à casa do bilionário com Isabel. Depois, Isabel estava morta, com o rosto destruído, e a investigação foi convenientemente encerrada. Catherine passou a matar porque aprendeu que homens como Jay não escapam do sistema: são protegidos por ele. Descobrimos ainda que Elena não é irmã de Isabel, como Catherine havia afirmado, mas sua filha. Catherine tentou cuidar da menina, mas o trauma continuou impedindo que ela mantivesse uma casa, um trabalho ou qualquer estabilidade. Antes de fugir, pede a Alice que retire Elena das mãos de Big Man, outro homem violento.
Alice insiste que existe outra saída. Quer que Catherine entregue as provas que possui e testemunhe contra Jay. Ainda acredita — ou precisa desesperadamente acreditar — que o FBI será capaz de protegê-la e responsabilizar um homem rico e poderoso. Catherine sabe que essa promessa é uma fantasia. O próprio episódio se encarrega de demonstrar isso.
Nora finalmente compreende por que Ed sabotou a investigação da morte de Isabel em 2012. Jay havia fornecido as informações responsáveis pelo grande caso que impulsionou a carreira dele. Em troca, Ed tornou-se seu protetor dentro do FBI, ajudando a apagar a vítima, as provas e qualquer possibilidade de investigação. Nora acredita que pode encurralá-lo, mas revela o que sabe antes de garantir que tem poder suficiente para derrubá-lo. Ed reage imediatamente: usa o alcoolismo dela para afastá-la, retira sua equipe da operação e deixa Alice sem reforços. Catherine estava certa. O sistema não falhou com Isabel por incompetência. Funcionou exatamente como deveria funcionar para proteger Jay Easton.
Quando Catherine percebe que Alice mentiu, droga a agente e toma sua arma. Finalmente, não há mais disfarces. Alice admite quem é e tenta convencê-la a testemunhar. Catherine se recusa. As duas concordam sobre os homens, sobre a violência e até sobre a impunidade. A diferença está apenas no que ainda esperam da Justiça. Alice acredita que pode usá-la. Catherine acredita que já foi usada demais.
A situação se torna ainda mais violenta quando Marshall surge no abrigo. Ele perseguiu Alice usando recursos da polícia, bebeu, ignorou todas as consequências e voltou a atacá-la. Como tantos homens de Fúria, também conseguiu explicar seu comportamento e permanecer livre. A série deixa claro que não estamos diante de algumas exceções monstruosas, mas de uma estrutura que encontra justificativas para elas e exige provas intermináveis delas.
Catherine salva Alice e pergunta se ela quer que Marshall morra. Alice, drogada, ferida e emocionalmente devastada, não consegue responder. Catherine atira nele e foge, deixando a agente diante daquilo que mais teme admitir: talvez uma parte dela compreenda perfeitamente a lógica da mulher que está tentando prender.

A revelação final transforma essa identificação em algo ainda mais perturbador. Alden entrega a Danny o dispositivo com os arquivos retirados do computador de Jay. Há pastas com nomes e datas de inúmeras meninas. Entre elas está “Alice”, acompanhada da data de março de 2004. Danny abre o conteúdo, fica horrorizado e fecha imediatamente o computador.
Ainda não vemos o que existe ali, mas a implicação é evidente. A ligação de Alice com Jay começou muito antes da investigação. Ela não está apenas perseguindo uma assassina cujos crimes despertam seus próprios traumas. Tudo indica que Alice também esteve nas mãos do mesmo homem que destruiu Catherine e Isabel.
A revelação também lança uma sombra sobre o bebê que Alice entregou para adoção. Teria essa gravidez alguma relação com Jay e com o que aconteceu em 2004? A série ainda não confirma, mas dificilmente colocaria as duas informações tão próximas sem esperar que fizéssemos essa associação.
É justamente aí que a obsessão de Alice por Catherine ganha outro significado. Talvez ela não se lembre de tudo. Talvez tenha transformado a investigação numa forma inconsciente de se aproximar da própria história. Catherine não é apenas o alvo que Alice precisa capturar: é a mulher que pode conduzi-la ao trauma que ela passou a vida tentando manter enterrado.
Fúria começou perguntando se uma assassina pode ser considerada justa quando escolhe homens que a Justiça decidiu proteger. Agora, apresenta uma pergunta ainda mais desconfortável: o que acontece quando a mulher encarregada de prendê-la descobre que também foi vítima do mesmo predador?
Alice acreditava estar caçando Catherine. No fim deste episódio violento, tenso e repleto de reviravoltas, descobrimos que as duas sempre estiveram procurando a mesma coisa: alguma forma de sobreviver a Jay Easton.
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