Como publicado no Blog do Amaury Jr./Splash UOL
Há histórias que parecem cuidadosamente construídas para funcionar no palco. O problema — ou, neste caso, a beleza — é que algumas delas acontecem na vida real. A de Manuela Roçado começou na parte mais alta da plateia do Theatro Municipal do Rio de Janeiro e, 16 anos depois, chegou ao centro daquele mesmo palco.
Em 2010, aos 10 anos, Manuela assistiu a Don Quixote no Municipal e ficou encantada com tudo: os figurinos, a música, a energia da coreografia e, principalmente, Márcia Jaqueline e Cícero Gomes, que dançavam Kitri e Basílio. Para uma menina que já estudava balé, os dois não eram apenas os protagonistas daquela apresentação. Representavam a imagem ainda distante do que significava chegar ao principal palco da dança no Rio de Janeiro.
Dezesseis anos depois, Manuela não estará mais na galeria. Nesta quarta-feira, 26 de agosto, será ela a Kitri de Don Quixote, dividindo o palco justamente com Cícero Gomes.

A história seria emocionante mesmo se terminasse aí. Mas o caminho entre a plateia e o palco acrescentou coincidências, encontros e uma sucessão de sonhos realizados que tornam tudo ainda mais especial.
Manuela ingressou no Corpo de Baile do Theatro Municipal em 2021. No ano seguinte, recebeu seu primeiro grande papel na companhia: justamente Kitri, uma das personagens mais exigentes, vibrantes e irresistíveis do repertório clássico. Agora, quatro anos depois, retorna ao papel em circunstâncias inesperadas.
Márcia Jaqueline sofreu uma lesão durante uma apresentação desta temporada e precisou deixar o espetáculo ainda no primeiro ato. Já recuperada do susto, ela se afastou temporariamente do papel, abrindo espaço para que outras bailarinas da companhia assumissem a protagonista.
O imprevisto acabou revelando algo importante sobre o atual momento do balé do Theatro Municipal. Marcela Borges entrou em cena de surpresa e conduziu o restante do espetáculo com a segurança de quem estava preparada para uma situação que ninguém desejaria enfrentar. Agora, a escalação de Manuela reafirma a força de uma companhia que tem se destacado não apenas por seus solistas, mas pela qualidade técnica e pela consistência de todo o corpo de baile.
É uma temporada em que os protagonistas brilham, mas na qual o conjunto também chama a atenção. Há uma geração especialmente forte de bailarinos homens, algo ainda mais significativo quando lembramos quantas companhias, durante tantos anos, tiveram dificuldade para oferecer oportunidades e visibilidade a eles. Em Don Quixote, essa energia coletiva faz diferença: o balé exige virtuosismo, precisão, presença cênica e uma alegria que não pode parecer mecânica.
Para Manuela, porém, a dimensão completa do momento só se revelou durante o ensaio geral. Da coxia, ela olhou para a lateral da galeria e reconheceu exatamente o lugar onde havia se sentado em 2010. A distância física entre aquele assento e o palco não mudou. Todo o resto, sim.
“Meu Deus, eu estou aqui agora, dividindo o mesmo palco”, pensou. Depois, resumiu a emoção: “Do palco, eu vi onde estava sentada naquele dia. Dezesseis anos depois, estou aqui, dividindo o palco como protagonista com um ídolo.

Cícero Gomes já ocupava um lugar importante em sua memória antes mesmo de se tornar parte de sua trajetória profissional. Os dois dançaram juntos pela primeira vez quando Manuela tinha 17 anos, antes de completar 18, em um trecho de Dom Quixote apresentado fora do Municipal.
Cícero havia conhecido a jovem bailarina por intermédio de seu professor e a convidou para acompanhá-lo em um evento em Belém, no Pará. A parceria funcionou, e ele continuou chamando Manuela para dançar em festivais. Ao mesmo tempo, acompanhou seu desejo de entrar para o Theatro Municipal.
“Manuela era adolescente quando perguntei ao professor dela se poderia dançar com ela em um evento em Belém. Dançamos e foi um sucesso. Depois disso, nunca mais parei de chamá-la para os festivais”, recorda Cícero. “Nesse período, ela sempre demonstrou o sonho de entrar para o Theatro, e eu sempre alimentei esse sentimento porque tinha certeza de que ela seria uma estrela.”
Quando Manuela finalmente ingressou na companhia, surgiu uma nova promessa. “Manu, eu ainda vou dançar com você aqui”, Cícero repetia. Embora já tivessem dividido outros palcos, faltava justamente aquele: o Municipal.
“Veio outro sonho, o de dançarmos juntos e consolidarmos aquilo que sempre falávamos e gostávamos de fazer, mas dentro do Theatro isso nunca tinha acontecido”, explica. Para Cícero, há ainda um significado especial na escolha de Manuela: “O mais importante e incrível é que a Márcia pediu que ela dançasse em seu lugar. Isso dá ainda mais importância a esse momento”.
Márcia Jaqueline também fez questão de celebrar a colega. “Manu é nossa nova estrela. Amo sua dança, sua energia e, principalmente, o coração lindo que ela tem. Saber que é ela que estará em cena na quarta-feira enche meu coração de emoção. Com certeza estarei lá assistindo e aplaudindo.”
A admiração é recíproca e a responsabilidade, enorme.
“A Márcia Jaqueline é minha deusa. A responsabilidade de substituí-la é enorme, mas farei isso com o maior amor”, afirma Manuela.


Não se trata apenas de assumir o lugar de uma primeira bailarina ou de interpretar novamente uma personagem que já marcou sua trajetória. Há, nesse encontro, algo maior: a menina que olhava o palco da galeria agora consegue olhar para a galeria a partir do palco.
“É como se a Manuela dos 10 anos estivesse se realizando na Manuela de hoje”, resume.
Talvez seja essa a parte mais bonita da história. O sonho não se realizou apagando a distância entre a espectadora e a protagonista, mas percorrendo cada centímetro dela: a escola de dança, os festivais, o ingresso na companhia, o corpo de baile, o primeiro grande papel, a coxia e, finalmente, o centro do palco.
Manuela acredita em destino. Neste caso, é difícil discordar. Dom Quixote atravessou sua infância, sua formação e sua carreira até reuni-la com dois dos bailarinos que primeiro lhe mostraram onde era possível chegar. Uma história iniciada na plateia e que retorna ao mesmo teatro, agora sob as luzes do palco.
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