Há espetáculos que encantam pelo que acontece no palco. Outros ganham uma dimensão ainda maior pelo que revelam sobre uma companhia. O Dom Quixote do Theatro Municipal do Rio de Janeiro consegue as duas coisas: é uma montagem linda, vibrante e tecnicamente exigente, mas também a confirmação de que o Ballet do Municipal vive uma fase espetacular.
O nível técnico impressiona tanto entre os solistas como no corpo de baile. As mulheres estão lindas, precisas e seguras, mas é sempre importante destacar também a força do elenco masculino. Durante muitos anos, bailarinos homens tiveram menos espaço, menos oportunidades e até menos estímulo para seguir na dança clássica. Hoje, ver no Municipal uma geração inteira de homens ocupando o palco com presença, técnica e personalidade é uma das coisas mais empolgantes em todas as produções da companhia.

Na verdade, a própria estreia de Don Quixote ofereceu uma prova inesperada da força desse conjunto. A primeira bailarina Márcia Jaqueline se lesionou e precisou ser substituída ainda no primeiro ato. Marcela Borges entrou de última hora para assumir Kitri, sem ter ensaiado previamente com Cícero Gomes, seu partner naquela noite.
É difícil dimensionar o tamanho desse desafio para quem não conhece Dom Quixote. Kitri não é um papel que permita apenas “entrar e dançar”. O balé é longo, fisicamente exaustivo e exige uma combinação quase cruel de saltos, piruetas, pequenos passos extremamente precisos, linhas clássicas, resistência e interpretação. Além de tudo isso, a bailarina precisa construir uma relação de absoluta confiança com Basílio durante os pas de deux. Marcela Borges não apenas entrou: arrebatou a plateia.
Acompanho sua trajetória com muita curiosidade e carinho e quase sempre saio encantada com ela. Marcela é uma estrela em ascensão, mas o que aconteceu na estreia foi maior do que uma grande atuação individual. Ter uma bailarina capaz de assumir inesperadamente o papel principal, sustentar a noite e conquistar o público mostra que existe ali uma equipe verdadeiramente preparada. Uma companhia não se mede apenas pelas estrelas anunciadas no programa, mas também pela qualidade de quem está pronto para entrar quando o palco exige.


Assisti à Kitri de Juliana Valadão, ao lado do convidado Gabriel Lopes como Basílio, e os dois estavam simplesmente lindos. Não apenas bonitos em cena — embora sejam, e muito —, mas artisticamente belos, seguros, emocionantes e em absoluta sintonia. Há parcerias em que percebemos o esforço técnico por trás de cada movimento. Com Juliana e Gabriel, mesmo conhecendo a dificuldade quase absurda da coreografia, o que chegava à plateia era confiança, prazer e uma aparente liberdade.
Juliana estava extremamente precisa, mas sua Kitri não se limitou à precisão. Havia energia, humor, coqueteria, autoridade e uma felicidade contagiante em ocupar o palco. Kitri precisa parecer livre mesmo quando executa alguns dos passos mais difíceis do repertório clássico, e Juliana conseguiu exatamente isso. Dançou com segurança, personalidade e uma luminosidade que tornou impossível desviar os olhos dela.
Gabriel Lopes confirmou tudo o que sua trajetória já sugeria. Formado pela Escola do Teatro Bolshoi no Brasil em 2016, construiu sua carreira na Rússia, onde atua como primeiro bailarino. Recentemente, dançou Albrecht ao lado de Natalia Osipova em Giselle, durante a gala realizada no próprio Theatro Municipal. Como Basílio, mostrou técnica segura, excelentes saltos, presença elegante, belíssimas linhas e uma masculinidade cênica que nunca precisou recorrer à força excessiva.
Ele é realmente muito bonito no palco, em todos os sentidos. Sua dança tem amplitude, elegância e naturalidade, mas também generosidade com a parceira. Gabriel não estava ali apenas para cumprir suas variações ou exibir virtuosismo: construiu uma relação com Juliana. Olhava para ela, reagia a ela e fazia com que os dois parecessem efetivamente contar a mesma história.
Isso fez toda a diferença. O romance, a cumplicidade e o humor entre Kitri e Basílio são essenciais para que Don Quixote não se transforme apenas em uma sucessão de proezas técnicas. Juliana e Gabriel entregaram o virtuosismo, evidentemente, mas entregaram também emoção. Foram lindos, seguros e verdadeiramente empolgantes. Em vários momentos, havia aquela rara sensação de assistir a dois bailarinos completamente felizes por estarem juntos no palco — e essa felicidade chegou inteira à plateia.
Marcela Borges também voltou naquela apresentação em outro solo e, novamente, levantou o público. Foi mais um daqueles momentos que reforçam a percepção de que não estamos diante de um único nome ou de uma única estrela, mas de uma companhia com muitas possibilidades.


Seria uma delícia citar cada bailarino, porque há destaques em todos os núcleos, mas isso praticamente exigiria reproduzir o programa inteiro. O mais importante é justamente o conjunto: a impressão de que todos estão comprometidos com o mesmo espetáculo, dos protagonistas ao corpo de baile. Há energia, interpretação, humor e prazer em dançar.
A montagem concebida por Hélio Bejani e Jorge Texeira preserva os momentos clássicos e imediatamente reconhecíveis da coreografia criada por Marius Petipa, mas consegue imprimir um ar de novidade. É uma produção deliciosa, colorida, viva e muito bem-humorada, sem perder o rigor que Don Quixote exige. A Orquestra Sinfônica do Theatro Municipal, sob a regência de Tobias Volkmann, completa a experiência com a música irresistível de Ludwig Minkus.
A segunda semana reúne diferentes formações nos papéis principais, incluindo Manuela Roçado e Rodrigo Hermesmeyer, além de Marcela Borges e Mateus Imperial. Márcia Jaqueline e Cícero Gomes também permaneciam anunciados, embora a participação da primeira bailarina naturalmente dependa de sua recuperação.
Independentemente da combinação, porém, o público pode esperar uma noite de beleza, técnica apurada e enorme prazer. Don Quixote fechou sua primeira semana confirmando algo que já vinha aparecendo nas últimas produções do Municipal: a companhia está renovada, segura e artisticamente inspirada.
Existem estrelas, primeiros bailarinos e jovens talentos em ascensão. Mas, acima de tudo, existe um grupo. E poucas coisas são mais emocionantes no balé do que perceber que uma companhia inteira está pronta para brilhar. Don Quixote é imperdível.
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