Há atores que passam uma carreira inteira procurando um personagem inesquecível. Tim Curry teve vários.
O ator britânico, que morreu aos 80 anos, foi o Dr. Frank-N-Furter de The Rocky Horror Picture Show, o Mozart original de Amadeus na Broadway, Wadsworth em Clue, Rooster Hannigan em Annie, Darkness em A Lenda, Pennywise em It e o desconfiado concierge do Plaza Hotel em Esqueceram de Mim 2. Uma trajetória que atravessou teatro, cinema, musicais, terror, comédia e dublagem sem que Curry jamais parecesse pertencer inteiramente a um único gênero.
Timothy James Curry nasceu em 19 de abril de 1946, em Cheshire, na Inglaterra. Filho de um capelão metodista da Marinha britânica e de uma secretária escolar, cantava desde criança e estudou Inglês e Drama na Universidade de Birmingham. Pouco depois da graduação, estreou profissionalmente em Londres no musical Hair, em 1968.
Foi no teatro, poucos anos depois, que apareceu o personagem que mudaria sua vida.

Frank-N-Furter e a revolução de Rocky Horror
Em 1973, Curry estreou como Dr. Frank-N-Furter em The Rocky Horror Show, de Richard O’Brien, no pequeno Theatre Upstairs do Royal Court.
O cientista alienígena de espartilho, meia arrastão, maquiagem pesada e salto alto poderia facilmente ter sido apenas uma provocação. Curry fez dele algo muito mais complexo: sexy, ameaçador, engraçado, arrogante e vulnerável.
Quando o musical chegou ao cinema em 1975 como The Rocky Horror Picture Show, Curry repetiu o papel ao lado de Susan Sarandon, Barry Bostwick, Meat Loaf, Patricia Quinn e O’Brien.
O filme não foi um sucesso imediato, mas encontrou seu público nas sessões da meia-noite e acabou criando um ritual próprio. Espectadores iam fantasiados, respondiam aos diálogos, dançavam Time Warp e transformavam a produção em um símbolo de liberdade sexual, transgressão e pertencimento para quem se sentia fora das convenções.
Curry ficou indissociável de Frank-N-Furter. Durante algum tempo, tentou se afastar do personagem para evitar que ele definisse toda a sua carreira. Não conseguiu — e, com o passar dos anos, tampouco pareceu querer. Felizmente, havia muito mais pela frente.
O Mozart da Broadway
A dimensão pop de Rocky Horror frequentemente ofuscou um aspecto fundamental de Curry: ele era, antes de qualquer coisa, um grande ator de teatro.
Depois de trabalhar em Travesties, de Tom Stoppard, chegou à Broadway em 1980 como Wolfgang Amadeus Mozart na primeira montagem americana de Amadeus, de Peter Shaffer. Ian McKellen interpretava Salieri e Jane Seymour, Constanze. Curry fez de Mozart um jovem gênio vulgar, infantil, insolente e musicalmente inalcançável, justamente o tipo de personalidade capaz de enlouquecer Salieri. Os dois atores foram indicados ao Tony de Melhor Ator; McKellen venceu.
Curry voltaria a concorrer ao prêmio por My Favorite Year, em 1993, e por King Arthur em Monty Python’s Spamalot, em 2005. Três indicações em três décadas diferentes ajudam a explicar por que seria injusto lembrá-lo apenas como uma figura da cultura cult. Também estrelou Me and My Girl na Broadway e interpretou o Pirate King em The Pirates of Penzance.

De Annie a Clue: o prazer de ser vilão
O cinema percebeu rapidamente que Curry tinha uma combinação valiosa: voz grave, expressão elástica, domínio absoluto da ironia e uma capacidade pouco comum de interpretar personagens enormes sem perder o controle sobre eles.
Em Annie (1982), de John Huston, foi Rooster Hannigan, irmão vigarista da Miss Hannigan de Carol Burnett. Ao lado dela e de Bernadette Peters, transformou Easy Street em um dos grandes números do filme. Em 1985, desapareceu sob maquiagem vermelha, próteses e chifres gigantescos para interpretar Darkness em A Lenda (Legend), de Ridley Scott. A criatura que pretende mergulhar o mundo na escuridão é visualmente monumental, mas é a voz de Curry que lhe dá personalidade.
No mesmo ano, veio Wadsworth em Clue. A comédia inspirada no jogo de tabuleiro se tornou outro clássico cult e ganhou com o tempo um status muito maior do que teve no lançamento. Curry conduz boa parte da loucura do filme, especialmente na sequência final em que corre pela mansão reconstruindo assassinatos, pistas e mentiras em velocidade quase impossível.
É provavelmente uma das melhores demonstrações de sua precisão como comediante.
O primeiro grande Pennywise
Em 1990, Curry assumiu um papel que marcaria outra geração: Pennywise, na minissérie It, baseada no romance de Stephen King. Décadas antes de Bill Skarsgård interpretar o personagem no cinema, foi Curry quem fixou a imagem do palhaço assassino na cultura popular.
Curiosamente, seu Pennywise não dependia de uma atuação exagerada. O terror vinha muitas vezes de elementos mínimos: o sorriso prolongado demais, a falsa cordialidade, uma mudança repentina na voz. No mesmo período, Curry apareceu em The Hunt for Red October e, posteriormente, interpretou o Cardeal Richelieu em Os Três Mosqueteiros, além de participar de filmes como Congo e A Sombra.

E existe ainda Sr. Hector, de Esqueceram de Mim 2: Perdido em Nova York.
O concierge do Plaza Hotel suspeita desde o primeiro minuto que há alguma coisa errada com Kevin McCallister e passa boa parte do filme tentando desmascará-lo. É um papel secundário, mas Curry transforma a indignação cada vez mais afetada do personagem em uma das melhores piadas do filme.
Uma segunda carreira usando apenas a voz
Quando não estava diante das câmeras, Curry construiu uma enorme carreira como dublador.
Foi Capitão Gancho em Peter Pan and the Pirates, interpretação que lhe rendeu um Daytime Emmy; deu voz a Hexxus em FernGully e a Nigel Thornberry em The Wild Thornberrys; participou de séries como Gargoyles, Duckman e Jimmy Neutron e assumiu Palpatine/Darth Sidious em Star Wars: The Clone Wars. Também gravou audiobooks e recebeu uma indicação ao Grammy por sua narração de The Bad Beginning, primeiro livro de A Series of Unfortunate Events, de Lemony Snicket.
A música, aliás, nunca foi apenas complemento de seu trabalho como ator. Curry lançou três álbuns solo — Read My Lips (1978), Fearless (1979) e Simplicity (1981) — misturando rock e pop com a voz que já havia ajudado a transformar Rocky Horror em fenômeno.
Depois do AVC
Em 2012, Tim Curry sofreu um grave AVC que o deixou parcialmente paralisado e passou a usar cadeira de rodas. A mudança foi profunda, mas não encerrou sua carreira. Ele continuou trabalhando principalmente com dublagem e retomou aos poucos as aparições públicas.
Em 2016, retornou ao universo que o havia lançado internacionalmente ao participar da versão televisiva de The Rocky Horror Picture Show. Desta vez, interpretou o Criminologista, enquanto Laverne Cox assumia Frank-N-Furter. Em 2024, depois de muitos anos longe de papéis live-action, apareceu no filme de terror Stream. No ano seguinte, publicou suas memórias, Vagabond, revendo quase seis décadas de carreira.
Curry nunca se casou e não teve filhos. Protegia a vida particular com uma discrição curiosamente oposta aos personagens extravagantes que tantas vezes interpretou. Talvez esteja aí parte de seu fascínio. Tim Curry nunca foi uma estrela convencional. Tinha formação teatral clássica, voz extraordinária, enorme domínio da comédia e uma ausência quase completa de medo do ridículo — qualidade essencial para quem entende que exagerar e perder o controle são coisas completamente diferentes.
Para uma geração, será sempre Pennywise. Para outra, Wadsworth correndo pelos corredores de Clue. Há quem imediatamente pense em Darkness, no concierge do Plaza ou no Mozart provocador de Amadeus. Mas Frank-N-Furter inevitavelmente ocupa outro lugar.

É difícil pensar em Tim Curry sem vê-lo de salto alto, pérolas, maquiagem carregada e espartilho, descendo pelo elevador para apresentar ao mundo um personagem que, meio século depois, continua impossível de separar de seu criador.
Poucos atores tiveram tantos rostos. Nenhum deles parecia pertencer a mais ninguém.
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