Atenção: este texto contém spoilers do episódio 9 da terceira temporada de Silo.
Se o mundo fosse acabar, talvez não houvesse ninguém melhor do que Peter Gabriel para cantar a despedida. É exatamente o que acontece em “Farewell”, o espetacular nono episódio da terceira temporada de Silo, quando a série finalmente mostra o cataclismo que exterminou a humanidade e levou os sobreviventes para debaixo da terra.
Gabriel não está presente apenas na trilha sonora. Ele aparece como ele mesmo, entre os convidados que visitam os silos durante aquilo que, oficialmente, deveria ser apenas um evento de inauguração. Enquanto os futuros moradores fazem turismo pelas instalações, comparam acomodações e discutem qual silo seria o melhor — ao que parece, o 17 é o mais desejado —, ninguém percebe que não haverá retorno para casa.
O passeio é uma mentira. A inauguração é uma armadilha. E os silos não são uma curiosidade arquitetônica: são o único destino possível depois do fim.
É nesse contexto que Peter Gabriel canta “Here Comes the Flood”. Não sobre o apocalipse em retrospecto, mas praticamente enquanto ele acontece. Portanto, ao menos na ficção de Silo, Peter Gabriel sobreviveu ao fim dos tempos — e ainda forneceu sua trilha sonora.

Três canções de Peter Gabriel em Silo
A presença do cantor em “Farewell” não surgiu do nada. Peter Gabriel vem se transformando em uma espécie de voz musical paralela de Silo, com três canções escolhidas para momentos importantes da narrativa.
A primeira foi “Red Rain”, usada em “Solo”, o terceiro episódio da segunda temporada. Lançada em 1986 no álbum So, a música nasceu de imagens recorrentes de Gabriel envolvendo uma chuva vermelha, corpos e destruição. Dentro da história que ele imaginava para o personagem Mozo, a chuva surgia como uma punição que caía sobre uma comunidade. Em Silo, acompanhou a entrada em um espaço devastado, marcado pela morte de seus habitantes e pela água que tomava os níveis inferiores.
A terceira temporada começou com “Come Talk to Me”, nos créditos finais de “Who Are You?”. A música foi lançada no álbum Us, em 1992, com Sinéad O’Connor nos vocais ao lado de Gabriel. Ele a escreveu a partir da ruptura na comunicação com uma de suas filhas depois do fim de seu casamento: é um pedido urgente para que alguém rompa o silêncio e restabeleça o contato.
Paula Cole, frequentemente associada à canção, não participa da gravação original. Ela cantou “Come Talk to Me” com Gabriel durante a Secret World Tour, na célebre encenação em que ele surgia preso em uma cabine telefônica e tentava alcançar a cantora do outro lado do palco.
A escolha para “Who Are You?” não foi recebida da mesma maneira por todos. Alguns espectadores acharam a entrada da música nos créditos inesperadamente expansiva para o tom sombrio do episódio. Mas, vista agora a temporada praticamente completa, ela ganha outro significado. Silo começou pedindo que alguém falasse, atravessasse a distância e rompesse o isolamento.
No episódio 9, descobre-se que esse contato não acontecerá a tempo. É quando chega “Here Comes the Flood”. A sequência das três músicas parece quase construir uma narrativa própria: primeiro, a chuva vermelha; depois, o pedido de comunicação; finalmente, o dilúvio.
Helen e Daniel: separados quando o mundo termina
A escolha de “Here Comes the Flood” se torna ainda mais dolorosa porque o cataclismo não é apresentado somente como espetáculo de destruição. Silo o transforma em tragédia íntima por meio de Helen e Daniel, separados justamente quando não existe mais caminho de volta.
Helen está grávida e será levada para o Silo 18. Daniel permanece no Silo 1. Eles ainda acreditam que poderão se reencontrar, mas nós sabemos o que essa divisão representa. Não é uma viagem temporária ou um compromisso profissional. É uma separação projetada para atravessar gerações.
A tensão cresce lentamente enquanto as pessoas passeiam pelas instalações, conversam, comem e fazem planos para depois. Todos se comportam como visitantes porque ainda não sabem que já foram selecionados como sobreviventes, ou prisioneiros. A banalidade do evento torna tudo mais cruel: o mundo termina enquanto eles acreditam estar participando de uma festa.
“Here Comes the Flood” entra justamente nessa transição entre expectativa e horror. A letra fala sobre sinais de alerta, ilhas que deixam de oferecer proteção e pessoas obrigadas a se despedir de sua própria carne e sangue. Em “Farewell”, a imagem deixa de ser abstrata. Helen e Daniel são separados no mesmo instante em que a humanidade é arrancada do mundo que conhecia. O dilúvio chegou, mas não há água. Há morte, separação e silêncio.

O que significa “Here Comes the Flood”?
Peter Gabriel escreveu “Here Comes the Flood” pouco depois de deixar o Genesis, em 1975. A canção foi lançada em fevereiro de 1977, em seu primeiro álbum solo, Peter Gabriel, produzido por Bob Ezrin, em uma gravação grandiosa com orquestra e músicos como Robert Fripp e Tony Levin.
Gabriel, porém, considerou o resultado excessivamente produzido. Mais tarde, recuperou a música em arranjos muito mais simples, reduzidos essencialmente à voz e ao piano. Sem a grandiosidade da orquestra, a canção ganhou uma vulnerabilidade ainda mais adequada ao fim do mundo mostrado em Silo.
Apesar do título, Gabriel não a escreveu originalmente sobre uma inundação literal. A inspiração veio de sua fascinação pelo rádio de ondas curtas. Ele percebia que, com a chegada da noite, sinais distantes se tornavam mais fortes e vozes antes inacessíveis começavam a atravessar a escuridão.
A partir dessa imagem, imaginou uma espécie de inundação psíquica. As barreiras que protegem nossos pensamentos desapareceriam e todos teriam acesso à mente dos outros. Aqueles acostumados a viver de maneira aberta conseguiriam atravessar a correnteza. Quem dependesse de segredos, mentiras e isolamento seria incapaz de sobreviver.
A água representa, portanto, informação, memória e consciência coletiva. Quando o dilúvio chega, não existem mais esconderijos ou ilhas individuais. Tudo o que estava oculto vem à superfície.
Em “Farewell”, a letra também se torna dolorosamente literal. O cataclismo foi previsto por um pequeno grupo e escondido de praticamente toda a humanidade. Enquanto as pessoas fazem turismo pelos silos, apenas algumas sabem que os sinais de alerta são reais. Quando os demais compreendem, já não há escolha, fuga ou tempo para despedidas.

Peter Gabriel sobrevive ao apocalipse
É isso que torna a participação de Peter Gabriel muito mais do que um cameo divertido ou uma excelente escolha musical. Ele está entre as pessoas conduzidas para os silos, cantando uma composição escrita quase 50 anos antes sobre o desaparecimento das barreiras e a chegada de uma catástrofe coletiva.
“Red Rain” antecipou a destruição. “Come Talk to Me” pediu que as pessoas atravessassem o silêncio. “Here Comes the Flood” confirma que já é tarde demais. Há ainda uma ironia deliciosa em transformar Peter Gabriel em personagem daquela história. Ao menos no universo de Silo, ele estava no lugar certo quando o mundo acabou. Sobreviveu ao cataclismo e entrou para um dos silos levando consigo uma de suas mais belas canções.
Para Helen e Daniel, porém, não há conforto possível. Eles não são separados porque desistiram um do outro, mas porque um projeto maior decidiu onde cada um deverá sobreviver. Não existe telefone, estrada ou conversa capaz de atravessar a distância imposta entre os silos.
A temporada começou com Peter Gabriel pedindo: venha falar comigo. No penúltimo episódio, ele aparece pessoalmente para anunciar que o dilúvio chegou. E o fim do mundo, em Silo, acontece ao som de alguém cantando uma despedida.
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