The Shards: o baile termina em horror no episódio 7 (Recap)

SPOILERS DE THE SHARDS

Depois de reclamar que The Shards praticamente havia esquecido que existia um serial killer à solta para transformar “Murder on the Dancefloor” em um gigantesco videoclipe dos anos 1980, preciso reconhecer: “Homecoming Part Two” coloca a série novamente nos trilhos. Ou, pelo menos, nos trilhos tortuosos que fazem sentido dentro desse universo.

Os episódios 6 e 7 foram lançados juntos e, na prática, são duas partes de uma mesma história. Tudo o que parecia disperso em “Homecoming Part One” — o retorno de Rhonda, o misterioso “cheiro de menina” do qual ela se lembra do cativeiro, a obsessão crescente de Bret por Robert Mallory e a aproximação de Thom com os Riders of the Afterlife — finalmente começa a convergir.

E converge, claro, no evento mais importante possível para um grupo de adolescentes ricos em Los Angeles em 1981 enquanto colegas desaparecem ou aparecem mutilados: a eleição da rainha do Homecoming. Porque The Shards continua sendo The Shards.

Rhonda sobreviveu ao Trawler e está novamente na escola, embora claramente traumatizada. Debbie e Susan resolvem transformá-la em candidata a Homecoming Queen, com direito a cabelo, maquiagem e vestido, numa tentativa bem-intencionada — embora profundamente estranha — de devolver à menina alguma sensação de pertencimento.

Visualmente, é impossível não pensar em Carrie, a Estranha. A garota deslocada transformada pelas colegas, preparada para o baile e colocada no centro daquele ritual cruel de popularidade adolescente. A referência continua no Homecoming, embora The Shards inverta completamente a situação: não há sangue de porco caindo do teto. Susan ganha a coroa, decide entregá-la a Rhonda e é justamente a suposta vítima quem implode a cerimônia.

Antes disso, porém, o episódio começa a construir a pista mais importante da noite: o perfume Giorgio. Na casa de Debbie, Liz borrifa a fragrância que Terry lhe deu e Rhonda entra em pânico. É aquele cheiro. Ou, pelo menos, é o cheiro que sua memória traumatizada associa ao sequestrador.

E aqui The Shards planta uma pista tão deliberadamente óbvia que imediatamente devemos desconfiar dela. Porque Giorgio está por toda parte. Terry usa. Liz usa. Steven conhece. E, antes do Homecoming, Robert presenteia Susan justamente com um frasco de Giorgio. Conveniente demais? Certamente.

Enquanto isso, Debbie continua sendo a personagem que Ryan Murphy parece mais interessado em humilhar. Ela organizou a campanha por Rhonda, mas, quando pergunta a Bret quantos votos recebeu, descobre que praticamente ninguém votou nela. A reação é dolorosa porque, por trás da figura espalhafatosa, irresponsável e frequentemente ridícula, Debbie sabe perfeitamente como é vista: Susan é a garota perfeita; ela é a amiga engraçada, excessiva, descartável.

Bret, com pena, começa a alterar a contagem para colocá-la entre as finalistas. É um gesto pequeno, desonesto e, ao mesmo tempo, estranhamente doce — exatamente o tipo de contradição que funciona em The Shards. Bret pode ser cruel, paranoico, invejoso e manipulador, mas não é incapaz de empatia. E Igby Rigney está cada vez melhor em sustentar essas contradições. No fim, porém, Susan vence novamente. Claro que vence.

Robert, por sua vez, é coroado Homecoming King, para irritação de Thom e espanto de Bret. Não faz muito sentido que o aluno novo, depois de protagonizar aquele colapso público na festa, tenha se tornado subitamente o garoto mais popular da escola. Mas a lógica narrativa nunca foi exatamente a prioridade desta adaptação.

Susan não quer a coroa. Cansada da obrigação de ser perfeita — bonita, popular, gentil, vencedora de absolutamente tudo — decide entregá-la a Rhonda. E, por alguns segundos, parece que teremos o final sentimental que Debbie e Susan imaginaram. Até Rhonda se aproximar.

Ela sente o Giorgio que Robert acabou de dar a Susan. O trauma retorna instantaneamente e, diante de todos, Rhonda acusa Susan de tê-la sequestrado. A referência visual a Carrie se completa justamente aí, mas com os papéis embaralhados: a garota marginalizada está no palco, todos olham para ela e a noite termina em horror. Só que quem é destruída publicamente não é Rhonda. É Susan.

É uma ótima virada dramática e uma péssima sequência policial: aparentemente basta a acusação pública de uma adolescente traumatizada para Susan ser imediatamente algemada e colocada dentro de uma viatura. Mas o que realmente importa não é acreditar que Susan seja o Trawler. Não é. A pergunta é outra: Robert sabia exatamente o que estava fazendo quando lhe deu aquele perfume?

Porque, se sabia que Giorgio era o cheiro associado por Rhonda ao sequestrador, acabou de construir uma armadilha perfeita. E há algo ainda mais interessante: Robert também passa o perfume de Susan no próprio corpo. Portanto, o cheiro aponta para ela, mas também continua apontando para ele.

A pista esclarece e embaralha ao mesmo tempo. Finalmente, The Shards volta a funcionar. Mas a melhor cena do episódio vem depois. Robert procura Bret e revela que Susan não pode ser responsável pelos desaparecimentos de Rhonda e Matt porque estava com ele nas duas noites. E a polícia sabe disso porque Bret denunciou Robert e ele passou horas sendo interrogado. Robert está furioso, mas o confronto entre os dois rapidamente deixa de ser apenas sobre o Trawler. Ele finalmente diz em voz alta aquilo que a série ronda desde o início: Bret é obcecado por ele. E Robert entende perfeitamente que Susan faz parte dessa obsessão.

Bret odeia imaginar Robert com ela, mas não necessariamente porque queira Susan. Esse é o território no qual The Shards é muito mais interessante do que uma simples investigação sobre “quem é o assassino”. Bret observa Robert, deseja Robert, teme Robert, inveja Robert e transforma Robert em personagem da história que está escrevendo mentalmente.

Por isso, sempre foi perigoso aceitar automaticamente sua certeza de que Robert é o Trawler. Robert pode ser monstruoso. Pode estar mentindo. Pode inclusive estar envolvido nos crimes.

Mas Bret precisa que ele seja culpado. E essa diferença é essencial.

A série havia diluído justamente essa ambiguidade ao transformar tantos episódios em tramas paralelas exageradas. Quando coloca Bret e Robert frente a frente novamente, reaparece imediatamente a tensão homoerótica, psicológica e ameaçadora que sustenta a história.

Robert vai embora depois de ameaçar Bret. As luzes da escola apagam. Bret escuta novamente aquele ruído que associamos aos contatos do Trawler e atravessa os corredores praticamente sozinho.

Até chegar ao ginásio. Dentro da vitrine de troféus estão a cabeça e as mãos de Matt Kellner. Matt não fugiu. Não estava escondido. Está morto. E alguém decidiu transformá-lo literalmente em um troféu para Bret encontrar. A imagem é grotesca, mas finalmente o grotesco tem função.

Porque essa morte também muda nossa relação com Bret. Ele havia procurado o pai de Matt e, quando tentou explicar a proximidade dos dois, deixou escapar que o amava antes de rapidamente corrigir para “era meu amigo”. Agora não existe mais a possibilidade de recuperar Matt, nem de descobrir o que poderia ter existido entre eles.

Mais importante: o Trawler sabe onde Bret está. Sabe como atingi-lo. E parece estar respondendo diretamente à investigação dele. Portanto, chegamos aos dois últimos episódios com a pergunta aparentemente óbvia — Robert é o assassino? — ficando justamente menos interessante.

Rhonda sequer existe no romance, portanto, toda a trama do perfume, a acusação contra Susan e sua prisão são invenções da série. A adaptação está construindo seu próprio caminho para o mistério. E agora ainda temos Thom mergulhando nos Riders of the Afterlife, Matt ligado ao mesmo culto, Robert acumulando coincidências impossíveis e Bret ouvindo novamente o Trawler.

Talvez Robert seja culpado. Talvez esteja manipulando todos. Talvez seja apenas o garoto perfeito para Bret transformar em monstro. Essa sempre foi a força de The Shards: queremos descobrir o que aconteceu, mas estamos presos dentro da cabeça de alguém cuja versão dos acontecimentos nunca foi inteiramente confiável.

Depois de alguns desvios bastante irritantes, finalmente voltamos para lá. E com a cabeça de Matt dentro de uma vitrine de troféus, não poderia ter sido de maneira mais The Shards.


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