Diana, Marilyn e o luto que a cultura se recusa a terminar

Dizem que agosto é o mês do desgosto. E, se a psicanálise nos ensina a desconfiar das coincidências — ou pelo menos a prestar atenção ao significado que damos a elas —, é difícil ignorar que dois dos maiores mitos femininos do século 20 morreram no mesmo mês, exatamente com a mesma idade. Marilyn Monroe no início de agosto de 1962. Diana no último dia de agosto de 1997. Ambas tinham 36 anos.

Separadas por 35 anos e por mundos aparentemente muito diferentes, uma fabricada por Hollywood e a outra pela monarquia britânica, elas acabariam compartilhando algo muito maior do que a coincidência de datas. Marilyn e Diana se tornaram mulheres que a cultura parece se recusar a deixar morrer. Mais de seis décadas depois da morte de Marilyn e quase três depois da de Diana, ainda surgem fotografias, cartas, biografias, documentários, exposições e testemunhos prometendo nos aproximar da mulher “verdadeira” escondida atrás do mito. Talvez, então, a pergunta não seja por que ainda nos interessamos por elas, mas por que ainda precisamos mantê-las vivas.

É justamente aí que o luto oferece uma pista. Em Luto e Melancolia, Freud parte da perda para pensar o que acontece com o investimento psíquico colocado naquele que desapareceu. No trabalho do luto, a realidade nos obriga, dolorosamente, a reconhecer que o objeto amado já não está disponível. Isso não significa esquecer. Significa conseguir aceitar a ausência sem precisar negar aquilo que aconteceu.

Freud não estava escrevendo uma teoria sobre celebridades mortas, muito menos diagnosticando sociedades inteiras. Mas a pergunta sobre o que fazemos com aquilo que perdemos não permaneceu restrita ao indivíduo. Décadas depois, Alexander e Margarete Mitscherlich publicaram A incapacidade de fazer o luto, analisando como uma sociedade pode construir defesas para não elaborar plenamente determinadas perdas, culpas e identificações. O contexto era a Alemanha do pós-guerra e não poderia ser mais diferente do universo de Diana e Marilyn. O ponto que interessa aqui é outro: grupos também constroem narrativas, rituais e formas de repetição em torno daquilo que não conseguem simplesmente deixar para trás.

Talvez seja justamente nesse território que Diana e Marilyn se tornem tão interessantes. Não são apenas mulheres famosas que morreram. São perdas culturais continuamente revisitadas, reinterpretadas e ritualizadas, como se cada nova fotografia, cada novo filme, livro ou depoimento pudesse finalmente concluir uma história que a morte deixou suspensa.

As duas acabaram transformadas naquilo que poderíamos chamar de santas pop. Seus vestidos viram relíquias, suas fotografias ganham a força de ícones, suas casas e túmulos atraem peregrinações, pessoas que conviveram com elas surgem como testemunhas de uma verdade íntima e novos livros, séries e documentários se apresentam quase como escrituras capazes de revelar aquilo que ainda não entendemos. Mesmo depois de décadas, existe sempre a promessa de uma nova Marilyn ou de uma nova Diana.

Jung ajuda a pensar outra camada desse fenômeno. Não é o luto coletivo propriamente dito, mas o momento em que uma biografia parece ultrapassar a pessoa e tocar imagens muito anteriores a ela. Diana reuniu quase todos os elementos de uma narrativa arquetípica: princesa, mãe, mulher traída, rebelde, vítima, figura compassiva e heroína interrompida tragicamente. Marilyn deixou de ser apenas atriz para se tornar musa, amante, mulher-criança, vítima sacrificial e símbolo de uma beleza destruída pela própria máquina que a produziu.

Em algum momento, as duas deixaram de pertencer apenas às próprias histórias e passaram a funcionar como símbolos. E existe uma vantagem extraordinária na transformação de uma pessoa em símbolo depois da morte: ela já não pode contestar nossa interpretação.

Uma pessoa viva envelhece, muda de opinião, fracassa, se contradiz, torna-se inconveniente ou simplesmente deixa de corresponder àquilo que projetamos sobre ela. O morto não. Marilyn nunca precisou nos mostrar quem seria aos 60, 70 ou 80 anos. Diana não chegou à idade em que poderia ter sido uma mulher de 65 anos, divorciada havia décadas, avó, sogra de duas mulheres famosas, talvez reconciliada com algumas pessoas e decepcionada com outras, possivelmente politicamente inconveniente ou simplesmente menos fascinante para o público.

Nunca saberemos. E é justamente nesse espaço vazio que a fantasia trabalha. Diana morreu num momento especialmente fértil para a construção do mito. Estava divorciada havia apenas um ano e parecia começar a descobrir quem seria fora do casamento e, em grande medida, fora da personagem que a monarquia havia criado para ela. Aos 36 anos, sua história parecia estar começando outra vez quando o acidente em Paris interrompeu a narrativa.

Não houve tempo para uma segunda metade. Não vimos o envelhecimento, as contradições das décadas seguintes ou a banalidade inevitável de uma vida longa. A realidade perdeu a oportunidade de corrigir nossa imaginação.

Marilyn morreu também num momento em que tentava conquistar maior autonomia profissional e escapar da simplificação da mulher desejável construída por Hollywood. As duas ficaram congeladas justamente quando pareciam tentar deixar para trás os personagens que lhes tinham sido impostos.

Talvez seja por isso que Candle in the Wind tenha servido tão perfeitamente às duas. Elton John e Bernie Taupin escreveram a música originalmente tendo Marilyn como referência. Vinte e quatro anos depois, a letra foi reescrita para Diana e cantada em seu funeral. A mesma canção passou a servir a duas mulheres transformadas em metáfora de uma chama luminosa demais, exposta demais e apagada cedo demais.

Existe, porém, uma parte menos confortável nessa santificação. Marilyn e Diana foram consumidas em vida pelas próprias máquinas culturais que depois choraram suas mortes. Hollywood precisava da imagem de Marilyn. A imprensa precisava de Diana porque milhões de pessoas queriam comprar revistas, jornais e fotografias dela. Não é possível contar a perseguição a Diana apenas como uma história entre uma mulher e os paparazzi. Havia consumidores esperando por aquelas imagens.

Depois da morte, essa mesma cultura passou rapidamente do consumo ao luto. E talvez a santificação tenha também essa função psíquica: transformar uma parcela de culpa em homenagem. Já não olhamos por curiosidade, mas para “preservar a memória”. Já não compramos intimidade, mas tentamos “compreender quem ela realmente era”. Já não consumimos uma imagem, mas “celebramos um legado”.

Isso não significa que as homenagens sejam falsas. O amor pode ser genuíno, assim como a saudade. Um irmão pode escrever um livro sobre a irmã porque continua sofrendo por ela e, ao mesmo tempo, publicar um produto comercial. Um filho pode transformar a memória da mãe numa causa de vida. Milhões de pessoas podem sentir um afeto verdadeiro por alguém que jamais conheceram. É justamente a coexistência entre afeto, memória, fantasia e consumo que torna o fenômeno tão interessante.

Há ainda uma dimensão particularmente cruel quando os mortos eternamente jovens são mulheres. Nossa cultura costuma construir mulheres famosas em torno da beleza e da juventude para depois submetê-las ao julgamento do envelhecimento. Diana e Marilyn não chegaram a essa segunda etapa. Morreram jovens o bastante para permanecer para sempre nas fotografias pelas quais aprendemos a amá-las.

A morte tornou suas imagens impossíveis de atualizar. Por isso, cada geração pode produzir sua própria Diana: a princesa infeliz, a rebelde, a vítima da monarquia, a vítima da imprensa, a mãe extraordinária, a mulher sexualmente livre, a pioneira humanitária. E pode produzir sua própria Marilyn: símbolo sexual, vítima de Hollywood, atriz subestimada, mulher traumatizada, feminista avant la lettre.

Nenhuma dessas versões precisa ser inteiramente falsa, mas nenhuma delas é a mulher. São projeções construídas em torno de alguém que perdeu definitivamente a possibilidade de dizer que não foi bem assim.

Talvez seja por isso que continuemos perguntando quem Diana seria hoje. A pergunta parece ser sobre ela, mas é impossível respondê-la. A Diana de 65 anos que imaginamos nunca existiu. O que existe é aquilo que precisamos que ela tivesse se tornado.

E talvez esteja aí uma das razões para alguns lutos coletivos parecerem nunca terminar. O morto idealizado oferece uma segurança que nenhum vivo consegue oferecer. Ele não envelhece, não rejeita nossa interpretação, não muda de opinião e não nos abandona novamente. Podemos continuar investindo nele porque a realidade já não consegue interferir na fantasia.

O trabalho do luto exige justamente o movimento contrário. Não precisamos deixar de amar quem morreu, muito menos esquecer, mas é necessário suportar a ideia de que o objeto perdido não poderá ser completamente recuperado, nem pela fotografia inédita, pelo vestido preservado, por outra biografia ou pela centésima testemunha prometendo revelar quem aquela pessoa “realmente era”.

Talvez Diana e Marilyn permaneçam culturalmente vivas porque continuamos tentando resolver histórias que a morte tornou insolúveis. E talvez honrar verdadeiramente alguém não seja mantê-lo eternamente disponível para nossas projeções, mas aceitar algo muito mais difícil: o vazio que sua ausência deixou.


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