Natalia Osipova troca o balé pelo teatro em estreia como atriz

Natalia Osipova já interpretou mulheres enlouquecidas de amor, traídas, abandonadas, mortas e ressuscitadas em cena. Quem viu sua Giselle sabe que chamar a principal do Royal Ballet simplesmente de bailarina é quase insuficiente: Osipova sempre foi também uma atriz extraordinária, só que acostumada a contar histórias sem dizer uma palavra. Agora isso muda.

Em setembro, ela fará sua estreia como atriz dramática no West End em The Standard of Living, nova peça de James Graham, autor de Dear England, Punch e Labour of Love. E dificilmente poderiam ter encontrado um primeiro papel mais interessante para ela: Osipova viverá Lydia Lopokova, outra bailarina russa que saiu de seu país, conquistou os palcos europeus e acabou se tornando personagem de uma das histórias de amor — e de um dos círculos intelectuais — mais fascinantes da Inglaterra do século 20.

Lydia estudou na Imperial Ballet School de São Petersburgo e integrou os lendários Ballets Russes de Sergei Diaghilev, companhia que ajudou a revolucionar não apenas o balé, mas a música, as artes plásticas, a moda e a própria ideia de espetáculo no início do século passado. Depois de passar alguns anos nos Estados Unidos, voltou para a companhia e, em 1918, causou sensação em Londres. Pequena, vivaz, engraçada e com uma personalidade que parecia escapar das convenções, chamou a atenção também fora do palco.

Entre os homens fascinados por ela estava John Maynard Keynes. Sim, aquele Keynes, um dos economistas mais importantes do século 20, responsável por ideias que transformariam a maneira como governos enxergam crises, emprego e intervenção na economia, também levava uma vida muito menos sisuda do que a palavra “economista” pode sugerir. Era integrante do Grupo de Bloomsbury, o círculo de escritores, artistas e intelectuais que incluía Virginia Woolf, Vanessa Bell, Lytton Strachey e Duncan Grant. Grant, aliás, havia sido amante de Keynes. Na nova peça, ele será interpretado por Thomas Flynn, enquanto Naomi Frederick será Virginia Woolf.

E então Lydia entrou naquele universo. Keynes teria ficado encantado por sua alegria, seu inglês peculiar e uma espontaneidade que destoava completamente da sofisticação cerebral de Bloomsbury. Eles se apaixonaram e se casaram em 1925. O problema é que os amigos dele não ficaram exatamente encantados com a novidade. Lydia nunca se encaixou inteiramente no grupo e sua chegada mexeu especialmente na relação entre Keynes, Duncan Grant e Vanessa Bell. Era uma bailarina russa extravagante entrando em um dos círculos intelectuais mais fechados da Inglaterra, portanto, material dramático não falta.

Mas reduzi-la à esposa excêntrica do grande economista seria repetir justamente o erro que a história tantas vezes cometeu com ela. Lydia teve carreira própria, foi amiga de artistas como Stravinsky e Picasso e permaneceu ligada ao teatro e à dança britânicos. E sua influência sobre Keynes ajuda a entender algo que The Standard of Living parece particularmente interessado em explorar: o fato de que aquele homem conhecido pelas teorias econômicas também acreditava profundamente no valor da arte. Keynes fundou e financiou o Cambridge Arts Theatre, aberto em 1936, foi um defensor do financiamento público da cultura e teve papel fundamental na instituição que se transformaria no Arts Council of Great Britain. Sua devoção à dança e ao teatro estava profundamente ligada à própria Lydia.

Daí o título da peça ser muito menos árido do que parece. The Standard of Living parte de Keynes para perguntar algo que nenhuma planilha consegue responder facilmente: o que é uma vida boa? É possível colocar preço na felicidade? Na beleza? No amor? Enquanto mercados quebram, sistemas políticos estremecem e Keynes circula entre os corredores do poder e a liberdade sexual, artística e intelectual de Bloomsbury, James Graham coloca economia, desejo e arte dentro da mesma conversa. A direção é de Nicholas Hytner, e Rory Kinnear interpreta Keynes.

E é justamente aí que a escolha de Natalia Osipova fica especialmente deliciosa. Há quase um século de distância entre as duas russas, mas a simetria é irresistível. Lopokova deixou a tradição do balé imperial russo para construir uma carreira internacional e encontrou na Inglaterra uma segunda vida artística. Osipova saiu do Bolshoi, tornou-se uma das maiores estrelas do Royal Ballet e agora, aos 40 anos, atravessa pela primeira vez a fronteira entre interpretar dançando e interpretar falando.

E há ainda uma última coincidência: Lydia também virou atriz. Depois do balé, ela apareceu no cinema, no rádio e no teatro e, em 1936, atuou em The Master Builder justamente no recém-criado Cambridge Arts Theatre de Keynes. Sua última participação dramática seria em War and Peace, em 1943. Ou seja: Osipova fará sua estreia como atriz interpretando uma bailarina que, depois de uma grande carreira na dança, também decidiu atuar.

É quase bom demais para ser apenas casting. The Standard of Living estreia em 21 de setembro de 2026, no Theatre Royal Haymarket, em Londres, onde fica em cartaz por apenas 12 semanas, até 12 de dezembro. A noite oficial para a imprensa será em 29 de setembro.

Para quem acompanha Osipova há anos, a curiosidade será inevitável. Sempre soubemos como ela interpreta Giselle quando o coração se parte, como constrói uma personagem apenas com o olhar e como consegue fazer uma pausa parecer tão importante quanto um salto.

Agora vamos finalmente descobrir como soa Natalia Osipova quando ela fala.


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