Toda corrida pelo Oscar tem aquele momento em que uma atuação deixa de ser apenas elogiada e começa a ser tratada como inevitável. Andrew Scott parece ter encontrado o seu em Elsinore. Desde a primeira exibição no Festival de Telluride, ele entrou com força na disputa por uma indicação a Melhor Ator interpretando Ian Charleson, o astro de Carruagens de Fogo que assumiu Hamlet no National Theatre quando já estava morrendo de Aids.
É o tipo de papel de que a Academia costuma gostar: um grande ator interpretando outro grande ator, uma história real, transformação física, Shakespeare e a proximidade da morte. Mas Elsinore parece interessado em algo mais complexo do que transformar sofrimento em prêmio. O filme resgata um ator que o cinema não soube reconhecer plenamente enquanto ele ainda estava vivo e reconstrói uma temporada teatral que entrou para a história por todos os motivos errados — antes de ser redimida por uma atuação extraordinária.
Dirigido por Simon Stone e escrito por Stephen Beresford, Elsinore estreia nos Estados Unidos em 20 de novembro. Scott já aparece entre os principais nomes de uma corrida que inclui possíveis candidatos como Matt Damon, Tom Cruise, John Malkovich e John Turturro. Ainda é cedo para falar em favoritismo definitivo, mas não para reconhecer que ele finalmente recebeu um papel à altura de tudo o que já demonstrou ser capaz de fazer.

O filme é sobre Ian Charleson, não Daniel Day-Lewis
Elsinore começa com um dos incidentes mais famosos da história do teatro britânico. Em 5 de setembro de 1989, Daniel Day-Lewis estava interpretando Hamlet no palco Olivier do National Theatre quando interrompeu a atuação durante a cena do fantasma do pai, saiu e nunca mais voltou. (isso mesmo, há quase exatos 37 anos)
A revelação de que o ator é Daniel Day-Lewis funciona quase como uma brincadeira dentro do filme. Durante alguns minutos, podemos imaginar que Elsinore contará a história de seu colapso. Mas aquele é apenas o acontecimento que abre espaço para o verdadeiro protagonista.
O filme é sobre Ian Charleson, interpretado por Andrew Scott. Nascido em Edimburgo, Charleson ficou conhecido mundialmente como Eric Liddell em Carruagens de Fogo, vencedor de quatro Oscars, incluindo Melhor Filme. Também participou de Gandhi, que conquistou o mesmo prêmio no ano seguinte. Bonito, carismático e tecnicamente admirado, parecia destinado a uma grande carreira no cinema.
Isso nunca se concretizou como deveria. Aos 39 anos, Charleson ainda era identificado quase exclusivamente com Carruagens de Fogo e tentava conciliar trabalhos menos importantes com o desejo de retornar aos grandes papéis do teatro. Era gay num período em que assumir publicamente a sexualidade poderia encerrar oportunidades profissionais. Vivia plenamente nos círculos gays de Londres, mas sabia que sua imagem pública continuava submetida às exigências de uma indústria predominantemente heterossexual.
Então Daniel Day-Lewis abandonou Hamlet e a oportunidade que Charleson esperara durante toda a vida apareceu no pior momento possível.

O incidente que se transformou em lenda
A produção de Hamlet, dirigida por Richard Eyre, já era um dos grandes acontecimentos da temporada. Daniel Day-Lewis havia se destacado em Minha Adorável Lavanderia e acabara de filmar Meu Pé Esquerdo, que lhe daria seu primeiro Oscar poucos meses depois. Judi Dench interpretava Gertrudes. O elenco ainda reunia nomes como John Castle, Michael Bryant, Oliver Ford Davies e Stella Gonet, além de jovens talentos que se tornariam conhecidos mundialmente.
Day-Lewis sempre trabalhou de maneira intensa, mas sua aproximação de Hamlet parecia levá-lo a um limite particularmente perigoso. Richard Eyre diria mais tarde que não havia distância entre o ator e o personagem. Quando o colapso aconteceu, a montagem já vinha cercada por histórias sobre sua entrega emocional.
Naquela noite, durante o encontro de Hamlet com o fantasma do pai, Day-Lewis parou. Saiu do palco, desabou nos bastidores e não conseguiu retornar. O incidente seria oficialmente atribuído à exaustão, mas a imprensa encontrou uma explicação muito mais irresistível: Daniel teria olhado para o ator que interpretava o fantasma e visto seu próprio pai, o poeta Cecil Day-Lewis.
Cecil morrera em 1972, quando Daniel tinha 15 anos. A história do ator confrontado pelo fantasma do pai enquanto interpretava um filho confrontado pelo fantasma do próprio pai era perfeita demais para desaparecer. Passou a ser repetida como fato e ajudou a construir a imagem de Daniel Day-Lewis como um intérprete capaz de atravessar a fronteira entre personagem e realidade.
O episódio deixou de pertencer apenas à história do teatro e entrou na cultura popular. Tornou-se uma das anedotas mais conhecidas sobre o chamado Método, exemplo frequentemente usado para celebrar — ou ridicularizar — atores que mergulham nos personagens até perderem a noção de onde termina a interpretação. O fato de Day-Lewis nunca mais ter voltado aos palcos deu à história um desfecho irresistivelmente dramático.
O que Daniel Day-Lewis realmente disse
Day-Lewis nunca negou que a lembrança do pai dominasse sua experiência com Hamlet. O que posteriormente negou foi ter visto literalmente uma aparição naquela noite.
Em 2003, descreveu o episódio como um momento vívido, quase alucinatório, no qual se sentia em diálogo com o pai. Mas explicou que não foi essa experiência que o obrigou a deixar o palco. Ele saiu porque havia chegado ao esgotamento absoluto: sentia-se vazio, sem nada mais para dizer ou oferecer.
Em 2012, voltou ao assunto e afirmou que provavelmente “via” o pai todas as noites no sentido emocional. Trabalhar com Hamlet significava explorar a relação entre pai e filho através de sua própria perda. Havia, portanto, uma comunicação psíquica com o pai morto, mas não necessariamente um fantasma material parado no palco. The Guardian
A distinção jamais teve a mesma força da lenda. Até hoje, a história continua sendo resumida como “a noite em que Daniel Day-Lewis viu o fantasma do pai”. Seu abandono definitivo do teatro tornou tudo ainda mais mítico: aquela foi sua última atuação num palco.
Quando voltou a trabalhar com Judi Dench no musical Nine, duas décadas depois, Day-Lewis enviou-lhe uma mensagem prometendo que, daquela vez, não fugiria. Até ele compreendia que o incidente já havia se tornado parte de sua persona pública.

O que Judi Dench viu
Judi Dench estava no palco como Gertrudes e, anos depois, ofereceu uma versão muito menos sensacionalista do episódio. Ela afirmou que não percebera qualquer sinal de crise durante a temporada. Sabia apenas do profundo amor de Day-Lewis pelo pai e acreditava que alguma coisa o havia dominado repentinamente durante a apresentação.
Quando a peça foi interrompida, Dench correu para encontrar Jeremy Northam, o substituto de Day-Lewis. Perguntou quando ele havia ensaiado Hamlet pela última vez. A resposta foi assustadora: aproximadamente três semanas antes.
Northam entrou mesmo assim.
Dench recordou que ele foi brilhante. Também se recusou a tratar o colapso de Day-Lewis como capricho, extravagância ou mais uma excentricidade de um ator adepto do Método. Para ela, as exigências físicas, vocais e emocionais de Hamlet eram tão grandes que era perfeitamente possível compreender como alguém poderia chegar ao ponto de não conseguir continuar. Folger Shakespeare Library
Jeremy Northam: o Hamlet que salvou a noite
Ian Charleson não substituiu Daniel Day-Lewis imediatamente. Esse detalhe costuma desaparecer nas versões mais conhecidas da história — e também é omitido em muitas matérias sobre Elsinore.
Quem terminou aquela apresentação foi Jeremy Northam, então um jovem integrante da companhia. Ele interpretava Laertes e era o substituto de Day-Lewis. Chamado sem qualquer preparação recente, assumiu um dos papéis mais difíceis do teatro e impediu que a apresentação terminasse ali.
Northam continuou interpretando Hamlet enquanto Richard Eyre ensaiava Ian Charleson. O próprio arquivo do National Theatre descreve a produção de 1989 como a história de três Hamlets: Day-Lewis começou; Northam sustentou a peça durante a crise; Charleson assumiu depois e transformou uma temporada desastrosa numa experiência lendária. National Theatre/Google Arts & Culture
Tudo naquela montagem parecia destinado à grandeza. Richard Eyre iniciava seu período como diretor artístico do National Theatre. Judi Dench estava no palco como Gertrudes, cercada por alguns dos principais nomes do teatro britânico. Ninguém poderia imaginar a forma pela qual a produção alcançaria a imortalidade.

Ian Charleson recebe o papel de sua vida
Charleson já havia interpretado Hamlet em 1974, aos 25 anos, e considerava que era jovem demais para compreender inteiramente o personagem. Quinze anos depois, estava preparado artisticamente — mas seu corpo começava a falhar.
Diagnosticado com HIV em 1986, ele já estava gravemente doente quando recebeu o convite. Sofria de septicemia, enfrentava dores intensas e depois seria submetido à quimioterapia. O inchaço em seu rosto foi atribuído publicamente a uma cirurgia nos seios da face. Richard Eyre conhecia a verdade e sabia que escalá-lo representava um risco enorme.
Charleson, porém, queria Hamlet. Havia dito a Eyre que tinha fome dos grandes papéis de Shakespeare. Quando surgiu a oportunidade, foi ele quem convenceu o diretor de que ainda seria capaz de assumir o personagem.
O encontro entre ator e papel adquiriu uma dimensão quase insuportável. Hamlet é um homem cercado pela morte, pela memória do pai e pela pergunta sobre o que significa continuar existindo. Charleson interpretava cada palavra enquanto sabia que o próprio tempo estava terminando.
Por que Elsinore é tão pessoal para Andrew Scott
Andrew Scott não entrou em Elsinore apenas como intérprete. Também produziu o filme e admite ter lutado ferozmente para que ele fosse realizado. A identificação com Charleson passa por Hamlet, pela sexualidade, pela experiência de perda e pela construção de uma carreira numa indústria que durante muito tempo permitiu aos atores gays interpretar qualquer personagem — desde que não revelassem quem eram fora das telas.
Scott contou que, ainda adolescente, percebeu que ser gay poderia impedi-lo de participar dos filmes que sonhava fazer. Pessoas aparentemente bem-intencionadas chegaram a aconselhá-lo a manter a sexualidade em segredo porque ele poderia “passar” por heterossexual. Durante algum tempo, omitiu partes de si nas entrevistas. Por isso, compreende intimamente o que aconteceu com Charleson, que vivia sua sexualidade entre amigos e nos espaços gays de Londres, mas sabia que assumi-la publicamente poderia destruir a carreira que ainda tentava construir.

Há também a memória da epidemia. Scott cresceu numa época em que a Aids era tratada não apenas como doença, mas como ameaça e punição. Recorda o medo que acompanhava até mesmo um exame de saúde sexual e o abandono de uma comunidade por governos que evitavam pronunciar o nome da enfermidade. Ao interpretar Charleson, ele não observa aquele período como história distante.
A morte recente de sua mãe tornou essa aproximação ainda mais pessoal. Prestes a completar 50 anos, Scott admite pensar com maior frequência sobre a própria mortalidade. Elsinore, para ele, tornou-se uma pergunta sobre o tempo: o que fazemos com aquilo que ainda temos?
Viver não é apenas permanecer vivo
Charleson fazia tratamento pela manhã e, à noite, enfrentava Hamlet — uma espécie de Everest para qualquer ator. A decisão parece quase incompreensível quando observada apenas pela lógica médica. Mas o filme propõe outra pergunta: de que adiantaria prolongar sua existência se, para isso, ele precisasse abandonar justamente aquilo que o fazia se sentir vivo?
Em Elsinore, Olivia Colman interpreta Margaret Johnson, a médica que tenta prolongar a vida de Charleson e se opõe à decisão de ele assumir um papel tão extenuante. Ian sabe que Hamlet pode acelerar sua deterioração. Ainda assim, recusa a ideia de que sobreviver por mais algumas semanas seja necessariamente o mesmo que viver.
Para ele, interpretar Hamlet não é uma irresponsabilidade diante da morte. É a última afirmação de que sua vida ainda lhe pertence.
Scott não queria transformar a morte de Charleson em fetiche nem fazer um filme esmagado pela própria importância. Por isso, Elsinore preserva seu humor, sua vaidade, sua sexualidade, sua música e seu prazer. Ian não aparece apenas como um homem heroico morrendo de Aids. Aparece como alguém que dança, provoca, deseja e encontra no teatro uma forma de continuar pertencendo ao mundo.
Essa é a chave da atuação de Andrew Scott. Ele não interpreta apenas um homem morrendo. Interpreta um ator que se recusa a permitir que a morte seja sua última personagem.
Scott também viveu Hamlet aproximadamente 150 vezes em Londres, em 2017, e compreende as exigências do papel. Quando fala sobre Charleson, insiste que ele não assumiu Hamlet para preparar a própria morte. Assumiu porque ainda estava vivo e queria usar o tempo que lhe restava para estar entre pessoas, produzir beleza e permanecer sob a luz do palco.
É justamente essa recusa ao sentimentalismo fácil que parece ter colocado sua atuação no centro da corrida pelo Oscar.

Uma temporada lendária por todos os motivos errados
A montagem começou destinada ao prestígio. Tornou-se famosa pelo colapso de Daniel Day-Lewis, pelo fantasma que provavelmente nunca existiu, pela entrada desesperada de Jeremy Northam e pela presença de Judi Dench no palco enquanto tudo desmoronava.
Poderia ter permanecido apenas como uma história sobre os perigos da entrega absoluta de um ator. Ian Charleson lhe deu outro significado.
Sua temporada como Hamlet durou poucas semanas, mas foi considerada uma das melhores interpretações do personagem já apresentadas no teatro britânico. Ian McKellen entregou a Charleson o prêmio de Melhor Ator que havia recebido do Evening Standard. A última apresentação aconteceu em 13 de novembro de 1989. Charleson morreu em 6 de janeiro de 1990, menos de dois meses depois, pedindo que a Aids fosse registrada publicamente como a causa de sua morte.
Pouco antes do fim, ele ainda escrevia a Richard Eyre imaginando voltar a interpretar Hamlet e enfrentar outros grandes papéis de Shakespeare. Charleson não se via encerrando uma carreira. Ainda acreditava que poderia retomá-la.
Seu Hamlet não foi filmado. Não existe registro capaz de provar o que aconteceu naquele palco. Restaram fotografias, críticas e a memória de quem o viu transformar a consciência da morte numa afirmação de vida.
Elsinore não tenta apenas reconstruir uma atuação perdida. Tenta devolver ao cinema um ator que o próprio cinema não soube reconhecer enquanto ainda havia tempo.
Uma eventual indicação ao Oscar não pertencerá apenas a Andrew Scott. Ela devolverá Ian Charleson a um público que se lembra de Carruagens de Fogo, mas talvez nunca tenha sabido que aquele ator correu uma última vez — não numa pista olímpica, mas em direção ao palco — quando já sabia que o tempo estava terminando.
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