Ainda faltam oito dias para a principal cerimônia do Emmy 2026, mas a maior premiação da televisão (exceto filmes) já começou. Neste fim de semana, os antigos Creative Arts Emmys — agora apresentados oficialmente como as duas primeiras noites do Emmy — distribuem mais de uma centena de estatuetas e começam a indicar quais séries chegam realmente fortes à transmissão de 14 deupalublishreti.
Há sempre favoritos quando a temporada de premiações começa. Mas televisão é memória curta. Mais importante do que a expectativa construída ao longo de meses é chegar ao Emmy como a série sobre a qual todos estão falando naquele momento.
No ano passado, foi exatamente isso que aconteceu com The Studio. A série conquistou nove prêmios antes mesmo da cerimônia principal e terminou a temporada com 13 Emmys, estabelecendo um novo recorde para uma comédia. Quando a grande noite começou, já não havia propriamente uma disputa: havia uma consagração em andamento.
Em 2026, a série do momento é outra. Widow’s Bay, uma das melhores coisas que a televisão nos deu neste ano, chegou mais tarde, cresceu na hora certa e conquistou 19 indicações. Agora ameaça ocupar, sem a menor cerimônia e com todo o merecimento, o espaço que durante anos pertenceu a Hacks e The Bear.

Hacks se despede com 24 indicações, recorde para uma comédia em uma única temporada. Existe naturalmente o desejo de oferecer a Jean Smart, Hannah Einbinder e à própria série uma última volta triunfal. The Bear, que o Emmy insiste em chamar de comédia apesar de ser um drama praticamente integral, também encerra seu ciclo como uma das produções mais premiadas dos últimos anos.
Mas Widow’s Bay possui aquilo que costuma ser decisivo: novidade, entusiasmo e proximidade com a votação. Matthew Rhys concorre duas vezes neste ano. Está indicado como protagonista de comédia por Widow’s Bay e como ator de minissérie por The Beast in Me. Pode existir uma discussão na segunda categoria, na qual enfrenta Oscar Isaac, Jason Bateman, Charlie Hunnam e Riz Ahmed. Na comédia, porém, não deveria haver dúvida. Este é o Emmy de Matthew Rhys.
Kate O’Flynn também seria meu voto como atriz coadjuvante. É uma atuação engraçada sem precisar anunciar a piada, excêntrica sem transformar a personagem numa caricatura e essencial para definir o estranho universo da série. Mas Widow’s Bay ainda tem Dale Dickey na mesma categoria, igualmente excelente, além de Stephen Root entre os coadjuvantes. A divisão interna de votos é um risco, embora também revele a força impressionante do elenco.
No caso de Kate O’Flynn, há ainda uma peculiaridade cruel: caso vença, nós não assistiremos ao seu discurso na cerimônia principal.
O Emmy decidiu esconder alguns de seus maiores prêmios
A transmissão principal, que entregou 26 categorias em 2025, terá apenas 19 neste ano. Seis prêmios foram deslocados para as noites anteriores: ator e atriz coadjuvantes em minissérie ou telefilme, roteiro e direção de minissérie, roteiro de programa de variedades e especial de variedades ao vivo.
Além disso, Melhor Talk Show e Melhor Série de Variedades com Roteiro foram reunidos numa única categoria, eliminando mais um espaço da transmissão. A minissérie foi praticamente desmontada dentro do programa. Na noite principal permanecerão apenas Melhor Minissérie, Melhor Ator e Melhor Atriz. Seus coadjuvantes, roteiristas e diretores — justamente as pessoas responsáveis por transformar uma boa história em grande televisão — receberão as estatuetas antes.
E não estamos falando de categorias obscuras, preenchidas por profissionais desconhecidos do grande público. Entre os coadjuvantes da minissérie estão Jason Bateman, Richard Gadd, Richard Jenkins, David Harbour, Nick Offerman e Charles Melton. Entre as atrizes aparecem Dakota Fanning, Linda Cardellini, Joy Sunday, Laurie Metcalf, Constance Zimmer e Youn Yuh-jung. São alguns dos atores mais conhecidos e admirados da televisão e do cinema. A Academia os retirou da principal transmissão para, supostamente, tornar o Emmy mais atraente para quem assiste à televisão. A justificativa é a velha necessidade de acomodar tudo em aproximadamente três horas. Mas a matemática não ajuda tanto a Academia quanto ela talvez imagine.

Em 2025, cada vencedor recebeu 45 segundos para agradecer. Cinco discursos completos representariam apenas três minutos e 45 segundos; seis, quatro minutos e meio. Evidentemente, um prêmio também exige apresentadores, alguma introdução, a leitura dos indicados, a abertura do envelope, a caminhada até o palco e a saída do vencedor. Considerando tudo isso, retirar seis categorias pode economizar entre 18 e 24 minutos. Acrescentando a fusão dos prêmios de variedades, talvez seja possível chegar perto de meia hora.
Não é um tempo insignificante numa transmissão ao vivo. A pergunta é por que esses minutos precisam ser retirados dos atores, roteiristas e diretores — e não de monólogos excessivos, esquetes que raramente funcionam, homenagens promocionais ou qualquer outro elemento concebido para tornar a cerimônia mais “divertida”.
Nos últimos anos, os Creative Arts Emmys já absorveram dezenas de categorias técnicas, participações especiais, animação, documentários, realities e parte importante dos programas de variedades. A diferença agora é que categorias tradicionalmente consideradas centrais começaram a seguir o mesmo caminho.
Até o nome foi suavizado. A Academia prefere chamar as cerimônias deste fim de semana simplesmente de primeira e segunda noites do Emmy. É uma tentativa de sugerir que todos os vencedores pertencem à mesma festa e possuem o mesmo valor.
Simbolicamente, talvez possuam. Em termos de visibilidade, sabemos que não. Existe a cerimônia transmitida ao vivo para milhões de pessoas e existe outra, exibida posteriormente numa versão condensada.
O problema nunca foi reconhecer que o Emmy possui categorias demais para uma única transmissão. O problema é fingir que uma atuação coadjuvante, o roteiro ou a direção de uma minissérie se tornaram descartáveis — enquanto monólogos, esquetes e intervalos publicitários continuam encontrando espaço.
Quem já ganhou o Emmy 2026?
Na primeira noite, o grande vencedor foi o espetáculo de Bad Bunny no intervalo do Super Bowl. A produção conquistou sete prêmios, incluindo Melhor Especial de Variedades ao Vivo, direção, coreografia, direção musical, iluminação, som e trabalho de câmera. Foi o primeiro Emmy da carreira do cantor.
The Traitors levou seis estatuetas. Alan Cumming venceu pelo terceiro ano consecutivo como apresentador de reality. Ele já não funciona apenas como anfitrião: é praticamente um personagem dentro da atmosfera, do humor e do jogo do programa.
The Late Show with Stephen Colbert conquistou cinco prêmios, incluindo Melhor Roteiro de Programa de Variedades. Mariska Hargitay, que apresentará a cerimônia principal, venceu como diretora e produtora de My Mom Jayne, documentário sobre sua mãe, Jayne Mansfield.

Sabrina Carpenter recebeu seu primeiro Emmy como produtora de The Muppet Show, eleito Melhor Especial de Variedades Pré-Gravado. O programa derrotou, entre outros, o registro da apresentação final da The Eras Tour, de Taylor Swift.
Love on the Spectrum ganhou como reality não estruturado, Jeopardy! foi escolhido o melhor game show, Jimmy Kimmel venceu como apresentador e Mr. Scorsese levou o prêmio de série documental.
A homenagem mais significativa deste primeiro fim de semana será destinada a I Love Lucy. A série estrelada por Lucille Ball e Desi Arnaz, que completa 75 anos em outubro, será a primeira produção a receber o novo Legacy Award, criado para reconhecer programas cujo impacto permanece vivo na televisão e na cultura.
Seria difícil encontrar uma escolha melhor. I Love Lucy ajudou a estabelecer a linguagem da sitcom, popularizou o sistema de múltiplas câmeras diante de uma plateia e teve papel fundamental na consolidação das reprises. Lucille Ball e Desi Arnaz não fizeram apenas uma das maiores comédias da história. Ajudaram a inventar a maneira como a televisão seria produzida, vendida e revista.


Quem são os favoritos ao Emmy 2026?
Em drama, The Pitt continua sendo a candidata mais segura. Lidera o Emmy com 25 indicações, tenta repetir a vitória do ano passado e mantém Noah Wyle como favorito entre os atores. Pluribus, no entanto, chega com 18 indicações e com a possibilidade de finalmente entregar a Rhea Seehorn o Emmy que ela deveria ter recebido muito antes por Better Call Saul.
Nas minisséries, Beef lidera numericamente, com 16 indicações, mas enfrenta uma disputa aberta com DTF St. Louis. Carey Mulligan aparece à frente entre as atrizes, enquanto Oscar Isaac pode impedir que Matthew Rhys complete uma rara vitória dupla.

É na comédia, porém, que está a disputa mais interessante e também uma antiga irritação minha com o Emmy. Durante anos, The Bear e Hacks dominaram uma categoria que deveria, em algum momento, lembrar que comédia também é aquilo que nos faz rir. The Bear nunca foi comédia. Hacks possui humor, naturalmente, mas sempre foi uma comédia dramática cada vez mais interessada na dor, na solidão e no preço da ambição.
Enquanto isso, Abbott Elementary e Only Murders in the Building, duas séries genuinamente engraçadas, assistiram aos grandes prêmios serem absorvidos por produções mais dramáticas — e consideradas, talvez por isso mesmo, mais “prestigiosas”.
Continuo lamentando que ambas tenham perdido tantas oportunidades. Quinta Brunson, Martin Short e os elencos dessas séries sustentaram a comédia televisiva enquanto o Emmy premiava ataques de ansiedade em cozinhas e crises existenciais em camarins.
Também não compartilho o entusiasmo generalizado por Shrinking. A série conseguiu espalhar indicações por boa parte de seu elenco e parece ter se transformado numa das queridinhas da Academia. Para mim, continua muito abaixo das concorrentes. É sentimental, irregular e frequentemente menos profunda do que acredita ser. Não sinto a menor injustiça quando perde.
Talvez Widow’s Bay consiga finalmente conciliar aquilo que o Emmy separou: ambição estética, prestígio, estranheza e humor verdadeiro. Ainda existe a poderosa narrativa de despedida de Hacks, e jamais devemos subestimar o amor dos votantes por Jean Smart. Mas o vento mudou.
Meu voto seria Widow’s Bay. Minha aposta também.
O que o Emmy revela sobre o poder das plataformas
Quando olho para o Emmy, não vejo apenas uma disputa entre séries e atores. Vejo um retrato dos negócios, das alianças e da distribuição de poder dentro da indústria. Porque premiações nunca tratam exclusivamente de mérito — e talvez nem pudessem. Arte não compete. O que compete são estúdios, plataformas, campanhas, reputações e narrativas construídas para convencer os votantes de que determinada obra representa o melhor daquele momento.
Isso não significa que os vencedores não sejam merecedores. Muitas vezes, qualidade, estratégia e oportunidade se encontram. Mas esse alinhamento é mais raro do que gostamos de admitir.
Ganhar depende da qualidade do trabalho, naturalmente, mas também de chegar na hora certa, manter a conversa viva, investir numa boa campanha e saber vender uma narrativa aos votantes. Não é exatamente sobre justiça. É sobre quem consegue se colocar e se vender melhor — e, algumas vezes, isso coincide com justiça e merecimento.
O Emmy de 2026 parece relativamente mais previsível do que algumas edições recentes. The Pitt deve continuar na liderança do drama. Hacks tem uma despedida cuidadosamente preparada e ninguém parece disposto a negar a Jean Smart mais um prêmio. Widow’s Bay, porém, surgiu na reta final como a série do momento e agora faz sombra sobre a favorita.

Mesmo que não tire de Hacks o prêmio principal, deve encontrar espaço nas categorias de atuação, roteiro, direção e produção — começando por Matthew Rhys e, espero, Kate O’Flynn.
Por trás desses títulos existe uma disputa ainda maior. A HBO continua sendo a velha majestade da televisão. Lidera as indicações de 2026 com 122, impulsionada por The Pitt e Hacks, e jamais perdeu completamente sua posição como referência em prestígio. Pode mudar de nome, de dono e agora enfrentar mais uma fusão, mas ainda sabe produzir e vender a ideia de “televisão de qualidade” melhor do que praticamente qualquer concorrente.
A Netflix vem logo depois, com 111 indicações. Já não é a desafiante tentando derrubar os estúdios tradicionais: tornou-se um dos Golias. Deve ganhar principalmente com Beef e The Beast in Me, além de sua presença espalhada por minisséries, documentários, realities e categorias técnicas. Seu volume é tão grande que mesmo um ano sem domínio absoluto continua parecendo uma demonstração de força.
Mas a transformação mais interessante é a da Apple TV. Com um catálogo menor, a plataforma chegou a 87 indicações e concentrou uma quantidade impressionante de prestígio em relativamente poucas produções. No ano passado, The Studio estabeleceu um recorde com 13 vitórias, enquanto Severance também manteve a Apple no centro da conversa. Agora chegam Widow’s Bay e Pluribus, além de Shrinking, Slow Horses e outros títulos.
Nem tudo recebe o mesmo reconhecimento. Silo, por exemplo, permanece praticamente ignorado, apesar de sua ambição narrativa e técnica. Ficção científica continua enfrentando resistência nas categorias principais, mesmo quando séries como Severance e Pluribus conseguem romper parcialmente essa barreira. Ainda assim, nenhuma outra plataforma reúne atualmente, com tanta consistência, estrelas, autores e produções de gêneros tão diferentes sob uma mesma assinatura de prestígio.
Talvez a Apple não termine 2026 com o maior número bruto de estatuetas. HBO e Netflix possuem muito mais indicações e catálogos muito maiores. Mas pode ser a grande vencedora simbólica: a plataforma que hoje melhor representa o lugar para onde atores, roteiristas e diretores desejam levar seus projetos mais ambiciosos. Tem menos títulos, mas uma proporção extraordinária de séries tratadas como acontecimentos.
O contraste com a Amazon é inevitável. No começo da era do streaming, foi o Prime Video que pareceu ocupar esse espaço. Transparent ajudou a legitimar as plataformas dentro das premiações, e The Marvelous Mrs. Maisel transformou a Amazon numa potência do Emmy. Hoje, porém, Amazon MGM parece cada vez mais apagada nessa disputa de prestígio. Produz muito, possui recursos imensos, mas perdeu uma identidade editorial reconhecível.

A Paramount+ também permanece numa posição estranha. Carrega o peso de um estúdio tradicional e abriga um dos maiores fenômenos comerciais da televisão contemporânea: o universo criado por Taylor Sheridan. Suas séries atraem audiências enormes, mas raramente encontram o mesmo entusiasmo da Academia.
Sheridan e Ryan Murphy representam quase extremos opostos dessa política cultural. Murphy entende perfeitamente a linguagem institucional de Hollywood. Suas produções, mesmo quando irregulares, chegam cercadas de estrelas, campanhas, e temas que dialogam diretamente com os votantes. Sheridan construiu um império baseado numa América rural, conservadora, masculina e distante da sensibilidade predominante na indústria. É um dos homens mais bem-sucedidos da televisão, mas o Emmy quase sempre age como se ele não existisse.
Isso não significa que uma orientação política determine automaticamente as indicações. Significa que existe uma afinidade cultural, estética e institucional. Ryan Murphy sabe conversar com Hollywood. Taylor Sheridan frequentemente parece conversar com o público que Hollywood não compreende ou prefere não reconhecer. Por isso, o Emmy nunca é somente uma avaliação do que houve de melhor na televisão. É também um mapa de quem possui prestígio, quem domina a conversa, quem sabe fazer campanha e qual plataforma conseguiu se transformar no lugar mais desejado da indústria.
Em 2025, HBO e Netflix empataram na liderança geral, com 30 Emmys cada. A Apple terminou com 22, seu melhor resultado até então, 13 deles conquistados por The Studio. Portanto, não foi numericamente a maior vencedora. Foi aquela que produziu a série mais premiada e saiu da noite com sua imagem de prestígio dramaticamente ampliada.
Em 2026, HBO e Netflix ainda são os gigantes. Mas a Apple é a empresa que mais claramente representa o futuro desse prestígio. Talvez não vença numericamente. Culturalmente, porém, já parece ter vencido.
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