The Gentlemen: luxo, violência e a alma perdida de Eddie

A segunda temporada de The Gentlemen segue rigorosamente a assinatura de Guy Ritchie. Há um roteiro desenhado nos mínimos detalhes, diálogos rápidos, cortes abruptos, violência transformada em humor, uma trilha sonora que interfere diretamente no ritmo das cenas e personagens que entram e saem da história como peças de uma engrenagem criminosa. Tudo parece caótico até descobrirmos que, naturalmente, não era.

É uma temporada de luxo, fantasia e violência. Há propriedades espetaculares, roupas impecáveis, carros, obras de arte, lagos italianos, hotéis em Gstaad, alianças entre aristocratas e criminosos e uma quantidade quase ofensiva de homens bem-vestidos tomando decisões terríveis em lugares lindíssimos.

A passagem pela Itália é praticamente uma viagem emprestada de O Poderoso Chefão, a Bíblia dos machos no cinema. Não se trata apenas de uma referência distante. A série recupera o casamento entre famílias, a união entre amor e negócio, a paisagem italiana como uma ilusão de paz e, finalmente, a destruição brutal dessa fantasia diante do protagonista.

Em outros momentos, especialmente nos carros, barcos, hotéis e paisagens de Gstaad, estamos também dentro de um filme de James Bond. Bella surge quase como uma Bond girl com maior autonomia: bonita, aristocrática, inteligente, conectada ao crime e perfeitamente à vontade naquele universo de sedução e perigo.

Mas a homenagem ao Poderoso Chefão é ainda mais profunda porque define aquilo que realmente interessa na temporada: a transformação moral de Eddie Horniman. Na primeira temporada, Eddie ainda fingia que queria retirar sua família do negócio criminoso instalado nas terras dos Halstead. No fundo, porém, já havia descoberto que era muito bom naquilo. Agora, ele não deseja mais escapar. Quer crescer, expandir, conquistar poder político e construir algo que seja verdadeiramente seu. O cavalheiro deixou de ser uma vítima das circunstâncias. Tornou-se um homem ambicioso.

O plano de Eddie e Susie

Um ano depois dos acontecimentos da primeira temporada, Eddie e Susie ampliaram a operação de maconha da família Glass e chegaram à Itália com a ajuda do instável Francesco “Cico” Maldini.

Ao mesmo tempo, Eddie pretende ocupar uma cadeira hereditária na Câmara dos Lordes. Oficialmente, sua missão é impedir a legalização da maconha e proteger o negócio clandestino de Bobby Glass. Secretamente, porém, ele enxerga na legalização uma oportunidade ainda maior: utilizar a produção ilegal dentro de uma estrutura comercial legítima, reduzir os preços e transformar o império numa espécie de “Starbucks da maconha”.

Para conseguir apoio político, Eddie aproxima-se do corrupto Lord Hawthorne, interpretado por Hugh Bonneville com aquela combinação perfeita de elegância, hipocrisia e ridículo que a série adora. Também precisa negociar com Marco Moretti, chefe da máfia italiana e padrinho de Bella, depois de descobrir que Cico estava enganando todos ao tentar fazê-los comprar um Botticelli que já lhe pertencia.

Quando Moretti descobre a traição, Cico termina devorado por um tigre. É exatamente o tipo de morte que só existe numa produção de Guy Ritchie: grotesca, absurda, engraçada e apresentada com a naturalidade de uma pequena inconveniência comercial.

Bella assume o lugar do marido na operação italiana e aproxima-se de Eddie. A relação começa como uma aliança conveniente entre duas pessoas que conhecem os códigos da aristocracia e do crime. Ela fortalece os negócios dele; ele lhe oferece espaço, proteção e poder.

Mas aquilo se transforma em amor. Bella não é inocente nem moralmente “boa” segundo padrões convencionais. Ela sabe quem são Moretti, Eddie e Susie. Compreende perfeitamente a operação criminosa da qual participa e não demonstra qualquer conflito ético diante daquele mundo.

Ainda assim, é leal e genuína. A série nos ensina a desconfiar de todos e, por isso, passamos boa parte da temporada esperando descobrir qual seria sua agenda secreta. A revelação é que não existe uma. Bella realmente ama Eddie e representa a possibilidade de que ele consiga reunir tudo aquilo que deseja: poder, legitimidade aristocrática, uma esposa capaz de circular entre seus dois mundos e alguma forma de felicidade. É justamente por isso que ela precisa morrer.

Eddie e Susie não são um casal, mas são um casal

A entrada de Bella poderia transformar a relação entre Eddie e Susie num triângulo amoroso convencional. Felizmente, a série evita esse caminho.

Susie percebe imediatamente o interesse de Bella por Eddie, estabelece a hierarquia dentro da operação e depois passa a respeitá-la como igual. Não existe uma disputa banal entre as duas mulheres. Bella não precisa ser transformada em inimiga para que a ligação entre Eddie e Susie continue existindo. Porque eles não formam um casal, mas são um casal.

Theo James e Kaya Scodelario sustentam essa contradição desde a primeira temporada. Eddie e Susie não conseguem confiar completamente um no outro, vêm de mundos diferentes e possuem ambições que inevitavelmente os colocarão em confronto. Mesmo assim, compreendem-se quase instintivamente. Estão sempre presentes quando o outro precisa e funcionam como parceiros mesmo quando tentam conquistar independência.

Não é necessário haver uma relação sexual ou uma declaração romântica para que essa ligação exista. O relacionamento está na cumplicidade, na disputa de poder e na maneira como cada um reconhece no outro algo que ninguém mais consegue enxergar.

Bella desperta em Eddie a possibilidade de outra vida. Susie reconhece e até respeita isso. Mas também observa a volatilidade dele, percebe a transformação em andamento e começa a entender que talvez não possa depender daquele homem como parceiro.

A temporada trabalha mais profundamente a psicologia dos dois. Eddie deseja provar que não pertence a Bobby. Susie começa a perceber que também não pode continuar vivendo sob o nome e o poder do pai. Ambos querem independência, mas talvez desejem impérios incompatíveis. É essa tensão, muito mais do que um romance tradicional, que faz deles um casal.

A rebelião contra Bobby Glass

Enquanto Eddie tenta aprovar seu projeto de legalização, Bobby Glass aparece cada vez mais instável. Preso numa espécie de retiro carcerário luxuoso, ele passa a ouvir os conselhos do Bannik, uma criatura do folclore eslavo associada às casas de banho e saunas.

A série preserva alguma ambiguidade sobre essa presença. O Bannik pode ser apenas uma manifestação da deterioração psicológica de Bobby, mas algumas de suas previsões tornam difícil descartá-lo completamente. O sobrenatural entra discretamente num universo até então regido por dinheiro, violência e estratégia.

Quando Bobby descobre o plano de Eddie, reage como um chefe mafioso traído. Lord Hawthorne morre depois de cair de uma janela, a legislação é derrotada e Eddie é espancado quase até a morte. Abandonado numa cova rasa, precisa literalmente cavar o caminho de volta à vida. É uma imagem pouco sutil, mas eficiente. O homem que emerge daquela terra já não é o mesmo que entrou.

Depois de sobreviver, Eddie pede Bella em casamento. A união ainda possui uma dimensão estratégica — famílias poderosas sempre se casaram para consolidar alianças —, mas o sentimento é verdadeiro. Na cerimônia à beira do Lago Maggiore, a temporada assume definitivamente a linguagem de O Poderoso Chefão.

O casamento oferece a Eddie a ilusão de que ele pode ter tudo. Poucas horas depois, Bella parte num hidroavião e desafia o marido a chegar primeiro à Suíça. Quando sobrevoa o carro de Eddie para se despedir, a aeronave explode diante dele. Não morre apenas Bella. Morre a fantasia de conciliar amor, respeitabilidade, poder e crime sem pagar um preço. O Michael Corleone de Eddie finalmente desperta.

Quem matou Bella?

Destruído pela morte da mulher, Eddie procura o responsável pelo atentado. Um mercenário sobrevivente do ataque à propriedade dos Halstead parece confirmar aquilo em que ele já deseja acreditar: Bobby Glass mandou matar Bella e tentou sequestrar o pequeno Tarquin. Mas não se trata de uma confissão confiável. Eddie tortura o homem e coloca a resposta em sua boca. O mercenário apenas repete aquilo que seu torturador quer ouvir.

Convencido da culpa de Bobby, Eddie contrata Marco Moretti para organizar seu assassinato dentro da prisão. Antes que o plano seja concluído, Uncle Stan revela que havia vendido a dívida de Eddie para Bobby no dia do casamento. Se Bobby investisse nele e pretendesse controlá-lo, não faria sentido destruir sua família naquele momento. Eddie percebe que cometeu um erro e corre com Susie para impedir a execução. Bobby sobrevive, termina ele mesmo o serviço contra o assassino e recupera momentaneamente a posição de poder.

Isso não significa que Eddie volte a ser seu subordinado. Bobby comprou sua dívida, mas Eddie deixa claro que não aceita mais ser propriedade de ninguém. Caso retorne ao império Glass, será sob suas próprias condições. A investigação finalmente leva ao verdadeiro responsável: Gospel John.

O criminoso religioso aproximou-se de Freddy durante sua internação numa clínica de reabilitação e alimentou seu ressentimento contra Eddie. Freddy nunca superou o fato de o pai ter escolhido o irmão mais novo para herdar o título e a propriedade. Gospel John transforma essa inveja numa narrativa bíblica, comparando-os a Esaú e Jacó e convencendo Freddy de que o direito que lhe pertencia havia sido roubado.

Freddy sabia do plano e colaborou com ele. Talvez não tivesse compreendido toda a extensão da vingança, mas ajudou a colocar em movimento os acontecimentos que mataram Bella e colocaram a própria família em perigo. A traição não veio de Bobby, de Moretti ou de qualquer inimigo acumulado por Eddie. Veio de dentro de casa. Mais O Poderoso Chefão, impossível.

O que significa o final de The Gentlemen?

Quando Freddy admite sua participação, Eddie o espanca e aponta uma arma para ele. Mas não consegue matar o irmão. Isso não significa perdão. Eddie abre a porta de uma van onde Gospel John está amarrado ao lado de uma motosserra. Coloca Freddy lá dentro e declara que alguém precisa morrer. Quando a porta volta a se abrir, Freddy aparece coberto de sangue e carregando a cabeça de Gospel John. Eddie acende um charuto e diz: “Bom garoto, Freddy”.

É uma cena horrível, engraçada e profundamente reveladora. Eddie pune os dois homens ao mesmo tempo. Gospel John morre por causa do assassinato de Bella. Freddy é obrigado a executar o homem que o manipulou e a assumir concretamente a responsabilidade pelo que ajudou a provocar.

Na lógica deformada de Eddie, aquilo é vingança, justiça, terapia e redenção. Ao obrigar Freddy a matar Gospel John, ele rompe o domínio psicológico exercido sobre o irmão. Mas também o castra simbolicamente, demonstrando quem possui autoridade e quem decide quem vive ou morre naquela família.

A cena não fala apenas sobre aquilo em que Freddy se transformou. Fala principalmente sobre Eddie. O homem que entrou na primeira temporada tentando preservar a família e expulsar criminosos de sua propriedade tornou-se alguém capaz de planejar uma violência cruel, psicológica e absolutamente calculada. Ele ainda evita matar Freddy com as próprias mãos, como se houvesse dentro dele algum limite moral. Mas transforma o irmão num instrumento de sua vingança.

Como Michael Corleone, Eddie se torna mais eficiente e poderoso à medida que perde partes de si mesmo.

O que fica preparado para a terceira temporada?

A terceira temporada foi confirmada pela Netflix antes mesmo da estreia da segunda. Ainda não foi oficialmente anunciada como a última, embora o desenho atual da história permita que funcione perfeitamente como conclusão.

Bobby termina a temporada imaginando um império Glass ainda maior, capaz de absorver a operação de Moretti e avançar pela Europa. Continua acreditando que pode controlar Eddie e Susie, mas ambos já planejam caminhos próprios.

Eddie sobreviveu à rebelião contra Bobby, perdeu Bella e descobriu que sua ambição possui um preço. Está mais forte do que nunca, mas também muito mais perigoso. Já não quer simplesmente participar do negócio. Quer governá-lo.

Susie, por sua vez, começa a construir contatos e rotas de distribuição com Carlos Vargas sem o conhecimento do pai. Ela compreende que precisa sair da sombra de Bobby e que talvez não possa confiar em Eddie como parceiro permanente. Não porque deixou de amá-lo à sua maneira, mas porque reconhece que o homem diante dela pode já não aceitar dividir poder.

Freddy sobrevive ao julgamento do irmão, mas sai da van transformado. Resta saber se o assassinato de Gospel John finalmente encerrará seu ciclo de ressentimento ou criará uma versão ainda mais instável e perigosa do personagem.

Temos, portanto, três projetos de poder prestes a colidir: Bobby tentando preservar seu império, Susie construindo uma organização independente e Eddie decidido a não obedecer mais a ninguém.

No centro de tudo permanecem Eddie e Susie: separados, unidos, próximos demais para serem apenas parceiros e ambiciosos demais para viverem em paz como um casal.

A segunda temporada de The Gentlemen funciona porque não abandona a fantasia de Guy Ritchie. Continua violenta, luxuosa, masculina, engraçada e conscientemente exagerada. Mas, desta vez, existe algo a mais sob os ternos impecáveis, as armas e a trilha sonora. Existe o preço psicológico do poder. Eddie começou a série como um cavalheiro cercado por criminosos. Termina esta temporada provando que talvez seja o mais perigoso entre todos eles.


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