A segunda temporada de The Gentlemen está sendo muito elogiada e com razão. É divertida, violenta, elegante, surpreendente e perfeitamente controlada por Guy Ritchie. Theo James está excelente, Kaya Scodelario continua magnética e até os exageros fazem parte do prazer de assistir à série. O problema é que, por trás de toda essa embalagem irresistível, há uma história que já conhecemos muito bem.
Mais do que uma continuação ou um spin-off do filme de 2019, The Gentlemen se transformou numa revisitação inglesa de O Poderoso Chefão, sobretudo de O Poderoso Chefão II. E não se trata apenas de influência, de arquétipo ou de uma homenagem discreta. Os paralelos são tão numerosos, específicos e literais que a pergunta passa a ser outra: quanto do mérito da temporada pertence realmente a Guy Ritchie?
Eddie Horniman é Michael Corleone transportado para a aristocracia britânica. Ambos são os filhos mais novos, disciplinados, militares e inicialmente afastados dos negócios criminosos da família. Michael volta da Segunda Guerra Mundial dizendo a Kay que aquela é a sua família, mas não ele. Eddie também acredita que pode resolver os problemas deixados pelo pai, proteger a propriedade e voltar à vida anterior.
Nenhum dos dois volta.

Aos poucos, as circunstâncias supostamente obrigam Eddie a entrar no crime. Primeiro, ele quer salvar a família. Depois, preservar a propriedade. Em seguida, proteger o negócio, conquistar independência, eliminar ameaças e vingar as pessoas que perdeu. Cada decisão cruel aparece como uma exceção inevitável. Quando percebemos, entretanto, as exceções se tornaram seu método de governo.
É exatamente o percurso de Michael Corleone. Ele também começa dizendo a si mesmo que age pela família. Cada assassinato é apresentado como necessário, cada traição exige uma resposta e cada resposta o distancia ainda mais do homem íntegro que acreditava ser. A grande mentira dos dois personagens é a de que não tiveram escolha. Na realidade, tiveram. Apenas descobriram que eram extraordinariamente bons naquilo que diziam fazer por obrigação.
A comparação não é apenas interpretativa. Theo James menciona abertamente O Poderoso Chefão II como referência para compreender a transformação de Eddie: a história de um homem cada vez mais capaz de derrotar seus inimigos enquanto perde partes de si mesmo. A própria Netflix utilizou essa leitura em seu material oficial sobre o final da temporada.
Portanto, não estamos imaginando Michael Corleone dentro de Eddie Horniman. Ele foi colocado ali.
Freddy, Fredo e uma traição familiar
A referência mais evidente talvez esteja no irmão. Freddy não apenas ocupa a posição dramática de Fredo: ele praticamente carrega o mesmo nome.
Freddy é o irmão mais velho, instável, ressentido e humilhado pela decisão do pai de entregar a herança ao irmão mais novo. Fredo também acredita ter sido diminuído e ultrapassado por Michael. Ambos desejam reconhecimento, querem participar do poder e acabam manipulados justamente porque não suportam permanecer à sombra do irmão.
Em O Poderoso Chefão II, Fredo fornece informações que permitem o atentado contra Michael. Em The Gentlemen, Freddy participa da conspiração de Gospel John, movido pelo ressentimento por ter perdido Halstead para Eddie. A aliança provoca a morte de Bella e o ataque à própria família.

Quando Eddie descobre a traição, a confrontação reproduz a mesma dinâmica emocional entre Michael e Fredo. Ele agride o irmão, aponta uma arma, mas não o mata. Em vez disso, obriga Freddy a entrar numa van com Gospel John e uma motosserra. Freddy sai coberto de sangue e carregando a cabeça do homem que o manipulou. Eddie acende um charuto e diz: “Good boy, Freddy”.
A decisão parece diferente da de Michael, que manda matar Fredo, mas nasce da mesma lógica: o irmão mais novo assume para si o direito de julgar, punir e redefinir o lugar do mais velho dentro da família. Eddie não perdoa Freddy. Ele o quebra psicologicamente e o transforma num instrumento de sua própria justiça.
O roteirista Matthew Read descreveu a cena como uma forma implacável de “terapia e justiça”. Mas existe uma palavra mais simples para isso: poder. Eddie decide quem deve morrer, quem pode viver e o preço a ser pago por cada traição. Ele já não está apenas participando do crime. Tornou-se o chefe da família.
Bella é Apollonia e também Tracy Bond
A passagem italiana torna a dívida ainda mais explícita. Eddie viaja à Itália, envolve-se com Bella, uma condessa ligada ao crime, casa-se com ela e fica viúvo poucas horas depois. A mulher é morta numa explosão provocada pelos inimigos dele.
Bella é, evidentemente, uma versão de Apollonia, a jovem siciliana com quem Michael se casa durante seu exílio. Apollonia morre quando o carro que deveria transportar Michael explode diante dele. A perda ajuda a completar sua transformação e reforça a ideia de que qualquer possibilidade de vida fora do crime lhe foi arrancada.
Em The Gentlemen, Bella também representa a possibilidade de uma vida emocional diferente. O casamento começa como um acordo estratégico entre duas figuras aristocráticas capazes de circular entre o dinheiro antigo e o crime organizado. Aos poucos, Eddie realmente se apaixona. Horas depois da cerimônia, enquanto os dois iniciam a viagem de lua de mel, o avião pilotado por ela explode diante dele. Mas Bella não é apenas Apollonia Corleone. Ela também é Tracy Bond.


Em 007 — A Serviço Secreto de Sua Majestade, James Bond se casa com Teresa “Tracy” di Vicenzo, filha de Marc-Ange Draco, líder de uma organização criminosa europeia. Logo depois do casamento, quando os dois partem para a lua de mel, Tracy é assassinada pelos inimigos de Bond.
O paralelo é quase perfeito. Eddie, vivido por um ator repetidamente mencionado como possível James Bond, aparece impecável de smoking, casa-se com uma aristocrata europeia ligada ao crime e fica viúvo imediatamente depois da cerimônia. Como Tracy, Bella é morta pelos inimigos do marido justamente quando a história promete conceder ao protagonista uma rara possibilidade de felicidade.
Guy Ritchie fundiu Apollonia e Tracy numa única personagem. Bella começa em O Poderoso Chefão e morre em James Bond. Eddie, por sua vez, reúne a origem militar, a ascensão criminosa e a degradação moral de Michael Corleone com a elegância, o smoking e a tragédia romântica de 007.
É extremamente eficiente. Original, não.
A confissão sem arrependimento
Até a confissão de Eddie a um padre já foi vista antes. Em O Poderoso Chefão III, Michael confessa ao cardeal Lamberto que ordenou a morte do próprio irmão. É uma das raras ocasiões em que ele abandona o controle, chora e admite plenamente a monstruosidade de sua decisão.
O sofrimento não o absolve. Ao contrário, confirma que Michael compreende a própria condenação. Todo o terceiro filme é atravessado por sua tentativa de conquistar uma redenção que não pode ser comprada, negociada ou imposta. Ele alcançou o poder, mas perdeu a família em nome da qual dizia agir.
Eddie reproduz o ritual sem experimentar a mesma contrição. Sua confissão tem humor, pose e a irreverência típica de Guy Ritchie. Ele enumera seus pecados, mas não parece esmagado por eles. A cena toma emprestada a imagem da culpa católica de Michael sem obrigar Eddie a carregar o mesmo peso moral.

Michael paga psicologicamente por ter se tornado Michael Corleone. Eddie, por enquanto, é recompensado por se tornar Eddie Corleone.
Essa talvez seja a diferença mais importante entre as duas obras. Coppola transformou a ascensão de Michael numa tragédia. Guy Ritchie ainda apresenta a ascensão de Eddie como uma fantasia extremamente sedutora. Podemos questionar o que aconteceu com sua alma, mas a série continua fazendo com que sua crueldade pareça elegante, inteligente e até desejável.
É falta de memória ou falta de cultura?
Seria fácil concluir que o público elogia tanto The Gentlemen porque esqueceu O Poderoso Chefão. Ou, pior, porque não possui cultura cinematográfica suficiente para reconhecer as referências. Não acho que seja tão simples — nem tão justo.
Ninguém é obrigado a reconhecer filmes lançados em 1969, 1972, 1974 e 1990 para desfrutar de uma série da Netflix em 2026. Memória cultural não é prova de vestibular. Além disso, mesmo quem nunca assistiu à trilogia de Coppola conhece indiretamente Michael e Fredo. Esses personagens foram copiados, citados, parodiados e reciclados tantas vezes que se tornaram parte do nosso imaginário.
Talvez The Gentlemen funcione justamente porque reconhecemos essa arquitetura sem necessariamente identificar sua origem. O filho íntegro que entra no crime para proteger a família, o irmão mais velho ressentido, a traição doméstica, a mulher sacrificada, a vingança e a perda progressiva da alma formam uma estrutura emocional que o cinema testou e consagrou há mais de meio século.
Sabemos que essa história funciona porque ela já funcionou antes de maneira extraordinária.
O problema não está no espectador gostar de revê-la. É parte da recepção crítica tratar como uma evolução surpreendentemente original aquilo que é, em grande medida, uma evolução já escrita, filmada e transformada em referência cultural.


Então qual é o mérito de Guy Ritchie?
O mérito existe, mas precisa ser colocado no lugar correto. Guy Ritchie é um autor visual imediatamente reconhecível. Estão ali o ritmo da montagem, a música, o humor negro, a violência coreografada, as cores, os ternos, os criminosos excêntricos e o prazer quase fetichista pelos códigos masculinos de poder.
Ele também realiza uma tradução cultural inteligente. A máfia ítalo-americana é substituída pela aristocracia britânica, aproximando dois sistemas sustentados por herança, território, sobrenome, obediência e silêncio. Eddie não herda apenas uma propriedade ou um título. Herda uma estrutura de poder dentro da qual o privilégio legal e o crime organizado convivem perfeitamente.
Há ainda Susie Glass, personagem que impede Eddie de ocupar sozinho o centro da narrativa. Ela não é Kay, Apollonia ou Connie. Possui seu próprio projeto de poder, entende o jogo melhor do que quase todos os homens ao redor e começa a construir uma operação independente tanto do pai quanto de Eddie. É em Susie, talvez, que The Gentlemen encontra algo menos dependente de Coppola.
O mérito de Ritchie está, portanto, na apropriação, na síntese e na execução. Está em combinar Michael Corleone, James Bond e a aristocracia inglesa dentro de uma embalagem contemporânea irresistível. Ele sabe exatamente quais mitos masculinos ainda funcionam e como reapresentá-los a uma nova geração.
O que não pode reivindicar é a originalidade da trajetória.
A segunda temporada de The Gentlemen é muito boa. Talvez seja mesmo a melhor coisa que Guy Ritchie realizou em algum tempo. Mas parte considerável de sua força pertence a Francis Ford Coppola, Mario Puzo, Ian Fleming e Peter Hunt.
Guy Ritchie pegou tudo aquilo que o cinema já nos ensinou a desejar — Michael Corleone, James Bond, o smoking, o poder, a família, a vingança, o crime e a tragédia romântica — e colocou numa caixa nova. O resultado é elegante, divertido e muito bem executado.
Talvez seu maior feito seja ter embalado tudo com tamanha confiança que muita gente chamou de novidade aquilo que, na realidade, era apenas usar um terno novo.
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