Com Florence Pugh prestes a assumir Cathy Ames na nova adaptação de East of Eden, é natural que toda a atenção esteja concentrada nela. Cathy é uma das personagens mais assustadoras da literatura americana, uma mulher que John Steinbeck apresenta como alguém possivelmente incapaz de reconhecer o bem e o mal como experiências humanas. Depois de pelo menos três análises de caráter, acho que já estabelecemos suficientemente por que ela nos fascina. O que talvez tenhamos deixado em segundo plano é que East of Eden também contém personagens masculinos extraordinários e uma das mais dolorosas disputas entre pais, filhos e irmãos já transportadas para o cinema.
Foi justamente essa parte da história que Elia Kazan escolheu em 1955. O romance de Steinbeck atravessa três gerações, acompanha as famílias Trask e Hamilton desde a Guerra Civil até a Primeira Guerra Mundial e repete duas vezes a história bíblica de Caim e Abel. Kazan e o roteirista Paul Osborn eliminaram quase tudo o que precedia Cal e Aron. Não fizeram uma adaptação completa, mas uma concentração radical do livro em um filho desesperado para ser amado pelo pai.
Foi também assim que o cinema encontrou James Dean.

Caim e Abel atravessam duas gerações
Em Steinbeck, a referência bíblica não se limita aos gêmeos Cal e Aron. Ela começa uma geração antes, com Adam Trask e seu meio-irmão Charles. Adam é o filho delicado e aparentemente virtuoso; Charles é forte, violento e consumido pela percepção de que o pai prefere o irmão. Quando os dois oferecem presentes ao pai, Cyrus aceita com entusiasmo o presente simples de Adam e praticamente despreza o presente caro e cuidadosamente escolhido por Charles.
A cena reproduz o núcleo da história de Caim e Abel. Deus aceita a oferta de Abel e rejeita a de Caim, sem oferecer uma justificativa que possa aliviar a ferida. Caim não suporta a preferência e mata o irmão. Charles não chega a matar Adam, mas o agride com tamanha violência que quase o faz. O ciúme não nasce simplesmente do desejo de possuir aquilo que pertence ao outro. Ele nasce da convicção de que o outro recebeu um amor que lhe foi negado.
Anos depois, o conflito retorna nos filhos de Adam. Cal, diminutivo de Caleb, ocupa novamente a posição de Caim; Aron, cujo nome se aproxima deliberadamente de Abel, é o filho idealizado. Aron é religioso, obediente e aparentemente puro. Cal é inquieto, impulsivo, desconfiado e profundamente consciente da própria agressividade. Como descobre que a mãe, que julgava morta, está viva e administra um bordel, passa a temer que tenha herdado dela uma espécie de mal essencial.
O problema é que Steinbeck não está apenas reproduzindo a Bíblia. Ele está discutindo se somos condenados a repeti-la.
Cal ama Aron, mas também o inveja. Quer proteger o irmão da verdade sobre Cathy, mas, no momento de maior dor, usa exatamente essa verdade para destruí-lo. Aron não é assassinado fisicamente por Cal, como Abel foi morto por Caim, mas é empurrado para uma experiência que não consegue suportar. A violência deixa de ser apenas corporal e passa a ser psicológica. Cal sabe onde está a fragilidade do irmão e, ao se sentir novamente rejeitado, atinge justamente aquele ponto.

O presente recusado
A adaptação de Kazan preserva a cena que torna a referência bíblica incontornável. Depois que o empreendimento de Adam fracassa, Cal investe no cultivo de feijão e lucra com a entrada dos Estados Unidos na Primeira Guerra Mundial. Sua intenção é devolver ao pai o dinheiro perdido e, finalmente, receber dele algum sinal de orgulho.
Adam recusa o presente porque considera o lucro de guerra moralmente condenável. Em seguida, ainda compara a oferta de Cal ao presente “bom” e “honesto” de Aron. Para o pai, trata-se de uma lição ética. Para o filho, é a repetição da sentença divina: a oferta do irmão é aceita; a sua, rejeitada.
É impossível entender a reação de Cal se enxergarmos apenas inveja ou maldade. Ele não quer simplesmente superar Aron. Quer que o pai reconheça que também existe algo bom nele. Quanto mais Adam insiste em tratá-lo como o filho problemático, mais Cal se identifica com Cathy e com a fantasia de ter nascido mau. A rejeição não confirma apenas que seu presente é inadequado. Confirma o medo de que ele próprio seja inadequado.
Steinbeck constrói, assim, um sistema familiar no qual os pais participam daquilo que depois condenam nos filhos. Cyrus estabelece a rivalidade entre Adam e Charles; Adam repete a preferência com Cal e Aron. Cada geração acredita estar apenas reagindo ao caráter dos filhos, sem perceber que também ajuda a produzi-lo.
O que Elia Kazan retirou do romance
Quando adaptou East of Eden, Kazan sabia que seria impossível colocar tudo em um único filme. Em uma carta a Steinbeck, admitiu que, mesmo aproveitando apenas o último quarto do romance, ainda havia material demais. Foram eliminados Cyrus, a juventude de Adam, sua relação violenta com Charles, praticamente toda a história de Cathy e grande parte da família Hamilton. Lee, o empregado sino-americano que cria os meninos e se torna o centro moral e filosófico do livro, desapareceu completamente.
A perda é enorme. É Lee quem participa da discussão sobre timshel, a palavra hebraica que Steinbeck interpreta como “tu podes”. O ser humano não está obrigado a vencer o pecado nem condenado a se entregar a ele. Pode escolher. Essa possibilidade é a resposta do romance ao determinismo que atormenta Cal: ser filho de Cathy não significa estar destinado a se tornar Cathy.
O filme preserva a pergunta, mas modifica o caminho até ela. Em vez de desenvolver longamente a transmissão da violência entre gerações, Kazan transforma Cal no centro emocional de tudo. Seu East of Eden não explica completamente a família Trask; mostra como é ser o filho que se sente inexplicavelmente rejeitado dentro dela.
Kazan considerava esse um de seus filmes mais pessoais. Via na relação entre Cal e Adam algo de sua própria experiência com um pai que o desaprovava constantemente. Talvez por isso tenha entendido que o personagem não precisava apenas de um ator capaz de interpretar raiva. Precisava de alguém que fizesse a raiva parecer a última defesa contra a humilhação.

Como Elia Kazan encontrou James Dean
James Dean já havia feito pequenas aparições no cinema e trabalhado na televisão e no teatro, mas East of Eden foi seu primeiro papel importante e sua estreia como protagonista. Ele ainda não era o ícone que conhecemos. Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade sequer haviam sido filmados quando Kazan o escolheu para viver Cal.
Paul Newman também foi considerado, e os testes realizados naquele período ainda existem. Kazan, porém, encontrou em Dean algo que não parecia inteiramente interpretado. Descreveu seu rosto como solitário, estranho e desolado e, anos depois, chamou a escolha do ator para Cal de “o casting mais adequado” que fizera em toda a vida.
Há uma identificação quase desconfortável entre ator e personagem. Dean não interpreta Cal como um rebelde seguro ou sedutor. Seu corpo se dobra, recua, avança e parece nunca encontrar uma posição confortável diante do pai. Ele quer tocá-lo e atacá-lo, agradá-lo e puni-lo. Na cena em que Adam recusa o dinheiro, Cal não reage como alguém que perdeu uma discussão. Desmorona como uma criança que acaba de receber a confirmação de que não merece amor.
A tensão se tornou ainda mais convincente porque Raymond Massey, que interpreta Adam, não compreendia nem aprovava o método imprevisível de Dean. Kazan percebeu a utilidade do conflito e o explorou. Na tela, a distância entre o ator clássico, rígido e controlado e aquele jovem fisicamente desorganizado tornou-se a própria distância entre o pai que exige contenção e o filho que já não consegue conter nada.
East of Eden estreou em março de 1955. James Dean morreu em 30 de setembro, antes que Juventude Transviada e Assim Caminha a Humanidade chegassem aos cinemas. Foi, portanto, o único de seus três grandes filmes que ele viu lançado. O papel que revelou Dean também acabou preservando algo que sua transformação póstuma em símbolo da rebeldia frequentemente encobriu: sua enorme capacidade de interpretar carência.

O novo Cal não tentou ser James Dean
A nova minissérie escrita por Zoe Kazan, neta de Elia, promete recuperar a extensão que o filme deliberadamente sacrificou. Ela volta às duas gerações de irmãos, devolve espaço aos Hamilton e a Lee e coloca Cathy novamente no centro, agora interpretada por Florence Pugh. Christopher Abbott será Adam, Mike Faist viverá Charles e Joe Anders interpretará Aron.
O papel de Cal, que revelou James Dean no cinema, ficou com Joseph Zada. O ator australiano, de 21 anos, já havia aparecido no drama político Total Control e ganhou maior destaque em Invisible Boys e We Were Liars. Sua carreira agora avança rapidamente: além de herdar de Dean um dos personagens masculinos mais complexos de Steinbeck, Zada foi escolhido para interpretar o jovem Haymitch Abernathy em The Hunger Games: Sunrise on the Reaping, papel associado a Woody Harrelson na franquia.
Zoe Kazan revelou que pediu aos candidatos a Cal e Aron que lessem para os dois papéis. Ela queria preservar uma ideia central de Steinbeck: nenhum dos irmãos nasce definitivamente destinado a ocupar o lugar do bom ou do mau. Qualquer um deles poderia ter seguido o caminho do outro. Em Zada, encontrou a combinação de agressividade, ternura, astúcia e desprezo por si mesmo que procurava. O detalhe mais importante é que ele não tentou fazer uma imitação de James Dean.
A comparação, evidentemente, será inevitável. James Dean não era uma estrela quando Elia Kazan o escolheu; Zada chega à série como uma promessa que Hollywood já prepara para outra grande franquia. Ainda assim, os dois foram chamados a resolver o mesmo problema: tornar Cal perigoso sem eliminar sua vulnerabilidade e mostrar que sua violência não nasce da ausência de amor, mas da necessidade desesperada de recebê-lo.
O filho mau talvez nunca tenha sido mau
A nova adaptação estreia em 1º de outubro na Netflix. Será inevitável olhar primeiro para Florence Pugh. Cathy entra nas histórias alheias como uma força de destruição e parece desafiar qualquer tentativa de explicação psicológica. Mas os homens de East of Eden não existem apenas como vítimas ou contrapontos de sua monstruosidade. Eles carregam uma pergunta talvez ainda mais perturbadora: quanto daquilo que chamamos de caráter individual foi produzido pelo lugar que recebemos dentro de nossa família?
Charles e Cal são os filhos preteridos que reagem com violência. Adam e Aron são os preferidos, mas a suposta bondade também os aprisiona. Adam se torna incapaz de reconhecer no filho aquilo que não corresponde ao seu ideal moral; Aron desaba quando descobre que a mãe real não cabe na imagem pura que construiu. Nenhum deles permanece simplesmente Caim ou Abel. É justamente essa rigidez das posições que Steinbeck tenta romper.
Elia Kazan retirou grande parte dessa arquitetura do romance, mas preservou sua ferida principal. E, ao escolher James Dean, deu um corpo inesquecível ao filho que acredita ter nascido errado. Antes de se tornar para sempre o rebelde de Hollywood, Dean foi Cal Trask, um Caim que não queria matar Abel. Queria apenas que o pai aceitasse sua oferta.
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