Elton John já havia encerrado sua turnê de despedida, mas havia uma ausência importante naquela longa cerimônia: o Brasil ficara de fora por causa da pandemia. Na noite de segunda-feira, 7 de setembro, ele voltou ao Rock in Rio para corrigir essa falta e, possivelmente, dizer adeus ao público brasileiro. Não foi uma apresentação construída para fingir que o tempo não passou. Foi justamente o contrário.
Aos 79 anos, com a voz mais grave e desgastada e enfrentando os problemas de visão que limitaram sua rotina nos últimos anos, Elton permaneceu quase toda a noite protegido pelo piano. Ainda assim, dizer que o piano o protege talvez seja injusto, porque foi dali que ele dominou o Palco Mundo por mais de duas horas, acompanhado por uma banda impecável e por mais de 100 mil pessoas que cantaram como se soubessem que talvez não tivessem outra oportunidade.

Estava frio de verdade na Cidade do Rock. Os termômetros marcavam cerca de 18 graus, o tempo permanecia úmido depois da chuva e o próprio Elton, acostumado ao clima inglês, reclamou algumas vezes da temperatura. Nada disso reduziu a resposta do público, que ocupou o espaço até o fim e transformou uma segunda-feira molhada em uma celebração coletiva de mais de cinco décadas de música.
Elton entrou pontualmente às 23h, usando um terno amarelo, e abriu com a longa e teatral “Funeral for a Friend/Love Lies Bleeding”. A partir dali, o repertório percorreu praticamente todas as fases de sua carreira, de “Bennie and the Jets”, “Philadelphia Freedom” e “Tiny Dancer” a “Sacrifice”, “Rocket Man” e “Candle in the Wind”. Não houve playback, tentativa de disfarçar a voz atual ou esforço para reproduzir o homem que atravessava o palco usando plataformas e figurinos impossíveis. Havia um senhor diante do piano, e havia uma plateia perfeitamente consciente da dimensão daquele encontro.
Em algum nível, foi isso que tornou o show tão emocionante. Estamos acostumados a exigir dos artistas que envelheçam sem parecer envelhecer, como se o corpo não pudesse registrar o preço de uma vida vivida no palco. Elton John não tentou competir com sua própria imagem. A voz perdeu alcance e ganhou aspereza, enquanto o corpo já não permite a exuberância física de outras décadas. O músico, porém, continua ali, reconhecível na maneira de atacar o piano, prolongar os arranjos e conduzir músicas que o público conhece antes mesmo dos primeiros versos.
Foi também um repertório generoso, com 23 números e 24 canções, se considerarmos separadamente as duas partes da abertura. Depois de “Sorry Seems to Be the Hardest Word”, “Someone Saved My Life Tonight” e “Have Mercy on the Criminal”, o show avançou para uma sequência quase cruel de clássicos: “Goodbye Yellow Brick Road”, “Sad Songs”, “Don’t Let the Sun Go Down on Me”, “Crocodile Rock”, “Saturday Night’s Alright for Fighting” e “I’m Still Standing”.
Esta última ganhou inevitavelmente outro peso. “I’m Still Standing” sempre foi uma canção de sobrevivência, mas, cantada agora por um artista que enfrentou dependência química, problemas de saúde, perda parcial da visão e a própria despedida dos palcos, deixou de ser apenas um sucesso irresistível dos anos 1980. Tornou-se uma constatação.
Elton explicou ao público que realmente havia parado de fazer apresentações regulares, mas lamentava não ter trazido ao Brasil a turnê Farewell Yellow Brick Road. Quando recebeu o convite do Rock in Rio, aceitou para agradecer o amor que encontrou aqui ao longo da carreira. “Obrigado, Brasil, por ser uma parte tão linda da minha vida”, disse.

O bis trouxe “Cold Heart”, a canção que o apresentou a uma nova geração ao lado de Dua Lipa, mas o momento mais brasileiro da noite veio em seguida. Elton recuperou “Skyline Pigeon”, que não cantava ao vivo desde 2019 e que adquiriu no Brasil uma popularidade muito maior do que em outros países. Reservá-la para o fim foi uma escolha afetiva, quase uma mensagem particular dentro de um festival ocupado por 100 mil pessoas.
A despedida veio com “Your Song”, a música que, há mais de meio século, fez o mundo prestar atenção naquele pianista inglês. Não houve grande discurso final nem encenação excessiva. O público cantou, Elton agradeceu e o sentido estava completo.
Talvez ele volte. Artistas já nos ensinaram a desconfiar da palavra “último”, e Elton ainda faz apresentações especiais, embora tenha abandonado as grandes turnês. Mas, se esta tiver sido realmente sua despedida do Brasil, foi uma despedida à altura de sua história. Não porque tentou vencer o tempo, mas porque se apresentou diante dele sem disfarces.
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