Lioness: Quem do passado de Joe quer vingança?

Durante boa parte da terceira temporada de Lioness, Taylor Sheridan nos fez olhar para a Rússia. Joe foi atrás de agentes russos, desmantelou uma rede de infiltrados, participou da captura de um integrante dos serviços secretos e, seis meses depois, acabou sequestrada. Parecia óbvio que uma coisa era consequência da outra, até “Sugar Land” revelar que a resposta não era tão simples assim.

Russos e bielorrussos participam da operação, mas Babat chega falando farsi e a pista começa a apontar para o Irã. Oleksandra Balakin pergunta a Kyle se Joe já comandou operações contra o Irã no passado, e a reação dele deixa claro que sim. O argumento de Oleksandra é que o Irã tem motivação e recursos para retaliar quando acredita ter sido seriamente atingido. A conclusão mais imediata, portanto, é ligar o sequestro de Joe ao final da segunda temporada, quando sua equipe entrou no Irã e impediu que cientistas chineses chegassem a Isfahan para colaborar com o programa nuclear do país.

Pode ser essa a resposta? Claro que pode. O problema é que ainda não sabemos se é a resposta inteira. Babat deixa muito claro que Joe deve morrer, mas não diz qual operação está vingando nem quem exatamente decidiu que ela deveria ser morta. Saber que o Irã aparentemente está por trás do sequestro não significa necessariamente que já saibamos quem quer Joe morta.

Foi justamente essa diferença que me fez voltar às temporadas anteriores, especialmente depois de uma fala de Oleksandra no terceiro episódio. Ela demonstra um conhecimento impressionante sobre o programa Lioness, chegando a citar uma antiga operação envolvendo Abu Musab al-Zarqawi e uma agente que se aproximou de sua terceira mulher, conseguiu sua localização e ajudou a tornar possível o ataque que matou tanto Zarqawi quanto a própria mulher.

Independentemente de qualquer outra interpretação daquela cena, uma coisa fica clara: operações que deveriam estar enterradas profundamente nos arquivos da inteligência americana são conhecidas por serviços de inteligência estrangeiros. E, se eles sabem daquela operação, o que mais sabem?

A carreira de Joe é cheia de mortos e inimigos que nós mal conhecemos. Lioness começa exatamente assim. No episódio piloto, Isabel, uma das agentes de Joe, tem sua cobertura descoberta durante uma infiltração na Síria e acaba cercada por dezenas de homens. Um resgate com vida colocaria toda a equipe diante de uma batalha praticamente impossível, por isso Joe ordena o ataque que destrói o complexo e mata todos que estavam ali, inclusive Isabel. Mais tarde descobrimos que o ataque também eliminou um importante nome do ISIS e sua equipe, mas a série nunca desenvolve quem mais fazia parte daquela rede ou quais consequências aquela missão deixou para trás.

Não vejo essa operação como a explicação mais óbvia para uma vingança iraniana, já que ISIS e Irã eram inimigos. O que ela estabelece, porém, é importante: nós vimos apenas uma fração das operações comandadas por Joe. Existe um histórico inteiro de pessoas, organizações e governos que podem ter razões para querer vê-la morta. E então chegamos à primeira temporada.

Cruz Manuelos era a Lioness, e Joe era a mulher que a comandava. Joe recrutou Cruz, explicou a missão e a colocou na vida de Aaliyah Amrohi para conseguir chegar ao pai dela, Asmar Ali Amrohi. No piloto, Asmar não é apresentado simplesmente como um financiador terrorista iraquiano, mas como um dos líderes de uma milícia apoiada pelo Irã no Iraque. Cruz foi a agente que conquistou a confiança de Aaliyah e acabou se apaixonando por ela, mas a operação era de Joe.

Na noite do casamento de Aaliyah, Cruz matou Asmar e Ehsan e conseguiu escapar. Aaliyah ficou para trás, tendo descoberto que a mulher por quem estava apaixonada havia entrado em sua vida como parte de uma operação que terminou com a morte de seu pai e do homem com quem estava prestes a se casar. Inclusive entendi que a série, na terceira temporada, a teria dado como morta, mas me enganei porque Aaliyah desapareceu da história.

Nunca soubemos o que aconteceu com ela depois daquela noite, quando descobriu posteriormente sobre o programa Lioness ou se algum dia soube quem havia comandado a operação que destruiu sua família. Até agora não existe nenhuma evidência de que Aaliyah esteja envolvida no sequestro de Joe. Mas agora existe uma conexão que parece muito mais difícil de ignorar: seu pai fazia parte de uma estrutura apoiada pelo Irã, Joe comandou a operação que o matou e a terceira temporada transformou de repente a vingança iraniana contra Joe no grande mistério da história.

Isso não significa que Aaliyah precise voltar como uma terrorista iraniana ou mesmo como uma agente. Seria uma solução simplista demais para uma personagem que sempre foi muito mais complexa do que isso. Se ela estiver de alguma forma ligada ao que está acontecendo, pode ser por dinheiro, relações políticas, contatos herdados do pai ou pessoas que nunca esqueceram o que aconteceu com Asmar. Uma operação iraniana pode ser geopolítica e profundamente pessoal ao mesmo tempo.

Babat também não precisa necessariamente ser a pessoa que decidiu que Joe deveria morrer. Ele pode simplesmente ser o homem enviado para executar a sentença. A própria Oleksandra estima que sequestrar uma agente sênior da CIA em solo americano e transportá-la para fora do país exigiria uma operação de dezenas de milhões de dólares, envolvendo inteligência, logística e pessoas em vários países. Lioness já mostrou bielorrussos e russos funcionando como peças dentro dessa engrenagem. Ainda não sabemos quem, se é que existe alguém, está no centro dela.

É por isso que Aaliyah continua no meu radar, mas não porque Cruz esteja em perigo ou porque a terceira temporada tenha se transformado secretamente numa história sobre ela. Não se transformou. Essa missão é totalmente sobre Joe, e a pergunta continua exatamente a mesma: quem quer Joe morta?

E não sou a única voltando a Aaliyah. A teoria ganhou força entre os fãs no Reddit depois do episódio 6, justamente quando ficou claro que Babat e o Irã talvez sejam apenas parte da resposta. Há quem aposte que Aaliyah possa estar financiando ou ligada à engrenagem por trás do sequestro, numa vingança pela morte do pai, enquanto outros fãs acham que trazê-la de volta dessa maneira seria forçar demais a história. O interessante é que a discussão existe justamente porque a série nunca fechou seu destino, e porque a ligação de Asmar com o Irã tornou aquela velha ponta muito mais relevante agora.

Talvez Isfahan seja suficiente para responder. Talvez a operação da segunda temporada tenha sido simplesmente a provocação final dentro de uma lista muito maior de ressentimentos. Talvez Babat seja exatamente o que parece ser e não exista nada além dele. Ainda assim, há peças demais faltando para eu acreditar que o episódio 6 já tenha nos entregado a resposta definitiva da temporada.

Especialmente porque Laysla De Oliveira já avisou aos fãs que a temporada termina com uma grande virada, algo que vai deixá-los desesperados por uma quarta temporada. Se o mistério já foi completamente solucionado pela simples revelação de que “foi o Irã”, o que ainda existe para virar tudo de cabeça para baixo?

É por isso que continuo voltando à primeira temporada. Não porque possamos afirmar que Aaliyah está por trás do sequestro de Joe, porque não podemos, mas porque existe uma história inacabada envolvendo uma mulher que sobreviveu a uma operação Lioness, um alvo apoiado pelo Irã morto sob o comando de Joe e uma relação que a série jamais encerrou de verdade.

Oleksandra já nos lembrou de algo importante: as antigas missões do programa Lioness não são necessariamente tão secretas quanto seus integrantes imaginam.

Agora resta descobrir se alguém de uma dessas missões finalmente decidiu cobrar a dívida.


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