Há uma discussão aparentemente semântica em torno de Harry e Meghan que, para mim, vai muito além da Família Real. Quando uma carta autorizada por Charles III voltou a definir o casal como cidadãos privados, deixando claro que eles não exercem funções oficiais em nome da Coroa, pessoas próximas aos Sussex fizeram questão de lembrar que Harry e Meghan continuam sendo figuras públicas, o que, à primeira vista, poderia parecer uma contradição, mas não é. As duas coisas podem ser verdadeiras ao mesmo tempo, porque uma expressão trata de notoriedade, enquanto a outra trata de posição institucional, e talvez seja justamente essa diferença, tão simples na teoria, que tenha se tornado cada vez mais difícil de entender na prática.
Harry e Meghan são figuras públicas, evidentemente, porque são reconhecidos internacionalmente, atraem imprensa por onde passam, movimentam notícias, contratos, projetos, marcas e debates, mas também são cidadãos privados no sentido institucional, porque não representam mais a Coroa, não cumprem agenda oficial em nome do rei e não exercem função pública dentro da monarquia. Uma condição não deveria anular a outra, porém, na era digital, começamos a confundir fama com função, visibilidade com autoridade e influência com representação, como se o simples fato de ser ouvido por milhões de pessoas criasse algum tipo de legitimidade equivalente àquela que vem de um cargo, de uma eleição ou de uma função institucional.


Essa confusão, claro, não nasceu com Harry e Meghan, porque há décadas artistas usam sua notoriedade para defender causas políticas e sociais, alguns de maneira ocasional, outros transformando o ativismo em parte central de sua identidade pública. Sean Penn é um exemplo evidente, assim como Mark Ruffalo, Madonna e Roger Waters, todos eles artistas que, em diferentes momentos, usaram o próprio palco, a própria fama e a própria audiência para falar de política, guerras, direitos civis, meio ambiente, eleições e conflitos internacionais. Pode-se concordar ou discordar de cada um deles, pode-se considerar determinadas manifestações corajosas, exageradas, equivocadas ou até inconvenientes, mas esse nunca foi exatamente o problema, porque eles sempre tiveram o direito de falar.
O fenômeno mais recente, e muito mais curioso, é que a sociedade começou a exigir que pessoas famosas não apenas tenham o direito de opinar, mas que tenham quase a obrigação de fazê-lo, como se a audiência viesse acompanhada de uma espécie de dever moral permanente. Quando há uma guerra, pergunta-se o que determinado ator pensa, quando há uma eleição, cobra-se posicionamento de cantores, quando surge uma crise humanitária, celebridades que continuam postando fotos de viagens, publicidade ou rotina são atacadas por não terem se manifestado, e o silêncio, que antes podia ser apenas silêncio, passou a ser interpretado como posição política, omissão moral ou cumplicidade.
Isso sempre me pareceu estranho, porque uma pessoa pode se tornar uma atriz extraordinária sem ter qualquer obrigação de entender geopolítica, um músico pode vender milhões de discos sem possuir uma análise minimamente sofisticada sobre um conflito histórico, um atleta pode chegar ao topo de sua profissão e ainda assim não saber responder a uma questão social que divide especialistas, governos e sociedades inteiras. O que faz com que essas pessoas sejam cobradas é, essencialmente, o fato de terem audiência, e audiência, no mundo atual, virou uma forma de poder, mas poder de influência e autoridade não são a mesma coisa, embora cada vez mais sejam tratados como se fossem.
Não acho, evidentemente, que artistas devam ficar calados, muito pelo contrário, porque muitas vezes a visibilidade de uma celebridade ajuda a chamar a atenção para causas importantes, arrecada dinheiro, amplia debates e mobiliza pessoas de uma maneira que campanhas tradicionais talvez não conseguissem, além de existir uma longa história de ativismo sério, consistente e sincero entre artistas. O problema começa quando confundimos o direito de usar um megafone com a ideia de que possuir esse megafone transforma automaticamente quem fala em autoridade sobre tudo aquilo que escolhe comentar, porque Mark Ruffalo pode falar sobre política, Sean Penn pode falar sobre guerras, Roger Waters pode transformar seus shows em manifestações e Madonna pode apoiar candidatos, mas eu continuo tendo o direito de ouvi-los, discordar deles e lembrar que fama não torna uma opinião automaticamente mais qualificada.

O fato de alguém ser conhecido por milhões de pessoas não significa que essa pessoa represente esses milhões, da mesma forma que ter uma multidão de seguidores não transforma seguidores em eleitores, engajamento em legitimidade ou popularidade em mandato. Fama concede audiência, e isso não é pouco, mas ainda assim não concede função pública nem autoridade institucional, e talvez essa distinção tenha se tornado mais difícil de enxergar porque a própria ideia de celebridade mudou radicalmente nas últimas décadas.
Durante boa parte do século passado, a fama normalmente surgia como consequência de alguma outra atividade, porque Elizabeth Taylor era famosa por ser atriz, Frank Sinatra por cantar e atuar, Muhammad Ali por lutar boxe, e mesmo quando suas personalidades se tornavam maiores do que suas profissões, existia inicialmente uma obra, uma carreira ou um talento que os havia levado até a exposição pública. Hoje, em muitos casos, a exposição é a própria profissão, porque influenciadores trabalham com a própria visibilidade, transformando rotina, casamento, filhos, viagens, crises pessoais, opiniões, consumo e intimidade em conteúdo, enquanto seguidores viram moeda, engajamento vira valor comercial e alcance se transforma em poder de negociação.
Surgiu, assim, uma categoria que talvez nunca tenha existido com tanta força, a da pessoa que pode ser juridicamente privada, profissionalmente pública e socialmente extremamente influente, e é fácil perceber por que começamos a nos confundir diante disso. Seguidores começam a parecer eleitores, engajamento começa a parecer legitimidade, um assunto em alta começa a ganhar a aparência de plebiscito, enquanto influência passa a ser tratada como autoridade, embora nada disso seja exatamente a mesma coisa.
E então chegamos à Família Real, que talvez seja um dos melhores exemplos dessa confusão, especialmente para quem observa de fora do Reino Unido. A monarquia britânica ocupa um espaço difícil de classificar, porque é família, mas também instituição, é celebridade, mas também Estado, tem glamour, fofoca, casamentos, roupas e escândalos, mas também diplomacia, protocolo, deveres oficiais e representação institucional. No Reino Unido, essa distinção é mais natural, porque o rei, o príncipe de Gales e os membros da família que trabalham oficialmente para a monarquia ocupam uma categoria própria dentro da vida pública britânica, enquanto fora dali, especialmente nos Estados Unidos, essa fronteira fica muito mais nebulosa.
Nos Estados Unidos, a Família Real aparece com frequência nas editorias de entretenimento, celebridades e cultura pop, o que faz sentido dentro de um país que não possui tradição monárquica própria e tende a olhar reis, príncipes e duques como personagens de uma narrativa de fama, glamour e escândalo. Harry e Meghan tornam essa confusão ainda maior porque atravessaram exatamente essas duas realidades, já que Harry nasceu príncipe, cresceu dentro da instituição e exerceu funções oficiais durante anos, enquanto Meghan era atriz, passou a integrar a Família Real depois do casamento e, mais tarde, os dois deixaram essas funções, mudaram-se para a Califórnia, assinaram contratos com empresas de entretenimento, produziram conteúdo para plataformas, deram entrevistas, lançaram projetos e passaram a operar dentro de um ecossistema muito mais próximo de Hollywood do que de Buckingham.
Eles não deixaram de ser famosos, evidentemente, mas deixaram de exercer aquela função, e essa diferença, que parece tão simples, talvez seja justamente a parte mais difícil de compreender no mundo atual. Como falei antes, Harry e Meghan continuam sendo mundialmente conhecidos, continuam sendo fotografados, acompanhados, comentados e associados à monarquia por família, história e título, mas notoriedade não recria uma função institucional, da mesma maneira que dizer que são cidadãos privados não significa fingir que são anônimos, significa apenas dizer que não representam a Coroa.

Talvez o grande problema esteja justamente no fato de que hoje a palavra “privado” passou a ser confundida com “desconhecido”, quando, na verdade, alguém pode mostrar diariamente sua casa, sua família, sua rotina e seus pensamentos para milhões de pessoas e continuar sendo uma cidadã privada diante do Estado, enquanto outra pessoa pode preservar completamente sua vida pessoal, ter pouquíssimos seguidores e exercer uma função pública de enorme responsabilidade. O digital bagunçou essas fronteiras porque transformou intimidade em produto, exposição em profissão e opinião em conteúdo, alterando não apenas a maneira como nos comunicamos, mas também o sentido de palavras muito antigas.
“Amigo” já não precisa ser alguém que conhecemos pessoalmente, “seguir” não significa apenas caminhar atrás de alguém, “influência” deixou de ser apenas uma característica abstrata e virou profissão, por isso não seria absurdo perguntar se “público” e “privado” também não mudaram de significado para uma geração que cresceu em redes sociais, aplicativos, vídeos curtos, lives e comunicação permanente. Talvez essa mudança de linguagem tenha alterado também nossa percepção de poder, porque hoje parece existir uma exigência crescente de que qualquer pessoa com audiência tenha uma posição sobre qualquer assunto, como se alcance fosse sinônimo de responsabilidade institucional.
Às vezes isso pode ser responsabilidade social, claro, mas em outros momentos pode ser apenas consequência de um sistema que transformou opinião em conteúdo, porque as plataformas recompensam posicionamento, indignação, certezas, conflito e participação permanente. Lembrando a clássica Gloria Pires no Oscar e dizendo “não sei o suficiente sobre isso para opinar” talvez seja uma das respostas mais honestas disponíveis, mas também uma das menos valorizadas em um ambiente no qual o silêncio significa perda de engajamento e a ausência de posicionamento rapidamente vira suspeita.
O problema, portanto, nunca foi que celebridades falassem, porque podem falar, devem falar quando quiserem e podem usar a própria visibilidade como acharem melhor, mas é importante não confundir isso com representação. Um deputado deve satisfações sobre determinadas questões porque foi eleito; um ministro precisa responder por suas decisões porque ocupa um cargo; um chefe de Estado possui deveres institucionais, enquanto um ator, um músico, um influenciador ou uma celebridade não possui automaticamente nenhuma dessas obrigações apenas porque milhões de pessoas acompanham aquilo que faz.
Podemos ouvi-los, admirá-los, criticá-los, concordar com eles ou mudar de opinião depois de escutá-los, mas isso ainda não cria mandato. Talvez as redes sociais tenham mudado nossa linguagem, nossas relações, nossa percepção de intimidade e até nossa definição de fama, talvez tenham criado novas formas de poder que ainda estamos aprendendo a compreender, mas espero que uma distinção continue existindo, porque ser ouvido por milhões não significa falar por milhões, e fama, influência e função pública continuam sendo coisas diferentes.
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