Era para ser um acontecimento. Depois de sete anos longe dos cinemas, Star Wars escolheu Din Djarin e Grogu para comandar seu retorno à tela grande. Faz sentido: The Mandalorian foi a série que ajudou a lançar o Disney+, recuperou um pouco do espírito aventureiro da franquia e apresentou ao mundo a criatura imediatamente batizada de Baby Yoda. O problema é que The Mandalorian e Grogu parecem menos um filme necessário do que um episódio estendido — e infantilizado — da série.
Não há nada de errado em produzir uma aventura para crianças. Star Wars sempre conversou com o público infantil, vendeu brinquedos e criou personagens adoráveis. A trilogia original, porém, entendia que as crianças também suportam o medo, a tristeza, o fracasso e a perda. Luke Skywalker encontrou os tios mortos, perdeu Obi-Wan, descobriu que Darth Vader era seu pai e terminou O Império Contra-Ataca derrotado e mutilado. Era entretenimento familiar, não entretenimento sem consequências.

No novo filme, acontece o contrário. Din Djarin e Grogu atravessam uma sequência interminável de explosões, perseguições, monstros e combates, mas nada provoca verdadeira apreensão. Sabemos que tudo dará certo. Mais do que isso: o próprio filme parece fazer questão de nos lembrar o tempo inteiro de que tudo dará certo.
O chamado plot armour, aquela proteção invisível concedida aos protagonistas porque a história precisa que sobrevivam, não é novidade. Está presente em praticamente todo filme de ação. A diferença é que uma boa narrativa consegue nos fazer esquecer disso. Durante alguns minutos, acreditamos que Ethan Hunt pode cair, que Indiana Jones não encontrará uma saída ou que Luke talvez não consiga escapar. Em The Mandalorian e Grogu, a armadura do roteiro é tão visível quanto a beskar usada por Din Djarin.
Por isso, as cenas de ação podem ser tecnicamente eficientes e ainda assim não emocionar. Elas movimentam o filme sem movimentar a história. Não esperamos para descobrir se os personagens escaparão, mas apenas como — e até esse “como” raramente surpreende.
A trama acompanha Din e Grogu em uma missão envolvendo Rotta, filho de Jabba the Hutt, agora transformado em um improvável lutador. A Nova República também entra na equação, com Sigourney Weaver como a coronel Ward, enquanto antigos rostos, criaturas e referências surgem para lembrar aos fãs que continuam dentro daquele universo. Há sempre alguma coisa acontecendo, mas muito pouco realmente está em jogo.

Grogu permanece adorável. Seria quase impossível que não fosse. Seus movimentos, expressões, pequenos poderes e pausas cômicas foram calculados com a precisão de quem conhece perfeitamente o valor emocional — e comercial — do personagem. Ele continua sendo a grande força do filme, mas também revela sua limitação. Quase toda tensão é interrompida por uma gracinha, como se o roteiro temesse deixar o público desconfortável por mais de alguns segundos.
Jon Favreau nunca escondeu o desejo de apresentar Din e Grogu a uma nova geração e construir uma experiência que pais e filhos pudessem compartilhar. O resultado confirma essa intenção. O público-alvo não é exclusivamente infantil, mas a narrativa funciona segundo uma lógica infantilizada: o perigo precisa ser vistoso, nunca perturbador; a violência pode existir, desde que não pese; os heróis podem ser ameaçados, desde que sua invulnerabilidade permaneça evidente.
Existe uma diferença importante entre ser acessível às crianças e tratar todo espectador como uma criança que precisa ser constantemente tranquilizada. É justamente essa diferença que o filme parece não compreender.
Din Djarin também sofre com essa escolha. O personagem que surgiu como uma figura misteriosa, solitária e moralmente ambígua está cada vez mais reduzido à função de pai protetor e herói infalível. Sua relação com Grogu continua sendo o coração da história, mas já não enfrenta um conflito capaz de transformá-los. Eles começam o filme unidos, atravessam os perigos unidos e terminam exatamente onde imaginávamos que terminariam. Não existe um preço emocional pela aventura.

Talvez isso explique a distância entre a reação mais morna dos críticos e o entusiasmo maior do público. The Mandalorian e Grogu entregam o que prometem de maneira imediata: ação, nostalgia, criaturas, referências e Baby Yoda sendo Baby Yoda. Para quem deseja apenas reencontrar os personagens, pode ser suficiente. Mas, como filme, faltam peso, ambição e até uma justificativa verdadeira para sua existência na tela grande.
É uma produção construída para não desagradar ninguém. Não desafia os fãs, não assusta as crianças, não altera profundamente os personagens e não ameaça o futuro comercial de Grogu. Tudo foi cuidadosamente protegido. Inclusive a emoção.
No final, The Mandalorian e Grogu é uma aventura na qual tudo acontece, mas nada parece realmente poder acontecer. Há muito movimento, muito barulho e nenhum perigo verdadeiro. A força pode estar com eles. O medo, certamente, não está.
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