Ao rever a primeira temporada de Slow Horses, encontrei uma série ainda mais sofisticada do que me lembrava. Não apenas porque algumas revelações recentes já estavam cuidadosamente plantadas desde o começo, mas porque a relação mais interessante de Jackson Lamb talvez não seja com River Cartwright, nem mesmo com sua adversária e equivalente intelectual Diana Taverner. É com Catherine Standish, a mulher que ele protege, maltrata, provoca e a quem continua mentindo.
Não há romance entre eles, pelo menos não no sentido convencional. O que existe é mais complicado: culpa, cumplicidade, respeito, uma dívida que talvez jamais possa ser paga e a possibilidade de que Lamb esteja tentando salvar em Catherine outra mulher que morreu diante dele muitos anos antes.
Este texto contém spoilers de todas as temporadas já exibidas de Slow Horses e também dos livros de Mick Herron.

Diana Taverner sempre soube
Na quinta temporada, Gary Oldman protagoniza aquele que talvez seja o monólogo mais impressionante de toda a série. Cercado pelos agentes do MI5, Lamb começa a contar a história de um espião capturado pela Stasi em Berlim. O homem teve a sola dos pés queimada e foi obrigado a permanecer em pé durante dias, enquanto seus torturadores tentavam arrancar dele um nome.
Quando percebem que ele não vai quebrar, encontram sua única fraqueza. Levam para a mesma sala a mulher com quem ele se relacionava e começam a torturá-la diante dele. Ela diz que está grávida. Ele implora para que parem, mas continua sem revelar o nome. A mulher e o bebê morrem, até que a Stasi finalmente percebe que ele não entregou a informação porque, na verdade, nunca soube a resposta.
A sequência é brilhante porque funciona em diferentes níveis. Enquanto Lamb aparentemente distrai os agentes com uma história terrível, transmite instruções codificadas aos slow horses, que entendem as dicas e conseguem se libertar. O que só descobrimos depois é que ele também estava contando a própria história.
No final da temporada, a câmera mostra a sola queimada de seu pé através da meia furada. O agente torturado era Jackson Lamb. A mulher assassinada diante dele era alguém por quem sentira o mais próximo do que um espião poderia chamar de amor. Possivelmente, Lamb também perdeu um filho naquela sala.
A revelação é recente, mas a informação não foi inventada agora. Na primeira temporada, Diana adverte um agente a não subestimar Lamb. Ela admite que ele é odioso, mas lembra que foi torturado e não quebrou. Diana, portanto, sempre soube.
Ela também conhecia a verdade sobre Charles Partner, o antigo diretor-geral do MI5 que trabalhava para os russos. Sabia que David Cartwright ordenara sua execução e que Lamb havia puxado o gatilho. Mais importante ainda, Diana sabia que Catherine desconhecia tudo isso. Desde o início, usa a verdade como uma cartada contra Lamb e percebe imediatamente que ameaçar Catherine provoca nele uma reação diferente.
Diana Taverner conhece o arquivo de Jackson Lamb. Catherine Standish conhece Jackson Lamb. E não é a mesma coisa.
Catherine ouve a história escondida dentro da história
Depois do monólogo, Catherine é a única que pergunta se o espião torturado era Lamb. Todos os outros compreendem a estratégia de fuga. Ela percebe a emoção escondida dentro do código.
Lamb mente e diz que a história não era verdadeira. A câmera, mais tarde, oferece ao espectador a prova que ele se recusa a dar a Catherine. Nós vemos a cicatriz. Ela não.
Ainda assim, Catherine provavelmente sabe que ele mentiu. O monólogo tinha detalhes demais e, sobretudo, dor demais. Ela reconhece o instante em que alguma coisa atravessa a armadura daquele homem aparentemente incapaz de sentir. Talvez não conheça todos os fatos, mas compreende que, enquanto os outros ouviam uma história de espionagem, Lamb falava de si mesmo.
Isso torna a relação entre os dois ainda mais fascinante. Catherine é a pessoa que mais se aproxima da verdade sobre Lamb, mas ele continua impedindo que ela chegue completamente até lá. Foi assim com Charles Partner, é assim com a tortura e será assim sempre que ela fizer uma pergunta capaz de ultrapassar a barreira da grosseria.
Lamb pode suportar dor física, humilhação e interrogatórios sem revelar um nome. O que não consegue fazer é entregar voluntariamente sua própria verdade a alguém.

O fantasma de Charles Partner
Nos livros de Mick Herron, Charles Partner era o antigo chefe de Catherine e um dos homens mais poderosos do MI5. Ela o admirava profundamente e acreditava que ele a havia protegido durante os piores momentos de seu alcoolismo. Na realidade, Partner era uma toupeira russa e vinha usando a dependência dela para encobrir os próprios rastros.
Ele preparava documentos e indícios que poderiam transformar Catherine na responsável pelos vazamentos. Se a traição fosse descoberta, ela seria sacrificada no lugar dele. A mulher que acreditava ter sido salva por Partner era, na verdade, sua saída de emergência.
David Cartwright descobriu a traição, manteve Partner em atividade por algum tempo para alimentar os russos com informações falsas e depois ordenou que Lamb o matasse. A execução foi apresentada como suicídio. Durante anos, Catherine acreditou que Partner havia tirado a própria vida e que Lamb apenas lhe dera a arma.
Lamb, portanto, carregava três verdades que ela desconhecia: ele havia matado o homem que Catherine admirava, Partner era um traidor e estava disposto a destruí-la para se proteger.
É daí que nasce parte da dívida moral de Lamb. Ele não parece se arrepender de ter executado uma toupeira russa. Sua culpa está em outro lugar: na forma como Catherine foi usada, na mentira que sustentou sua memória de Partner e no fato de ele ter decidido, mais uma vez, quais verdades ela teria condições de suportar.
Ao levá-la para Slough House, Lamb lhe oferece trabalho, estrutura e uma razão para permanecer sóbria. Não a trata como uma alcoólatra inútil, embora jamais pare de provocá-la por causa da bebida. Ele conhece sua competência e sabe que, sob a aparência discreta de uma secretária, existe uma agente extraordinária.
Catherine observa, escuta, memoriza, encontra inconsistências e consegue circular sem despertar desconfiança. Ela resolve problemas que os outros nem sequer percebem e suporta pressões diante das quais agentes teoricamente mais preparados se descontrolam. Sua força não está na violência nem na necessidade de provar que pertence ao MI5. Está na capacidade de permanecer atenta e não quebrar.
Talvez Lamb a respeite justamente porque reconhece nela a qualidade pela qual ele próprio é definido. Catherine também não quebra.
Por que Lamb provoca Catherine com a bebida?
É uma das contradições mais incômodas da relação. Se Lamb realmente deseja protegê-la, por que é grosseiro, deixa álcool ao alcance dela e provoca exatamente sua maior fragilidade?
Uma explicação está na lógica brutal com que ele aprendeu a sobreviver. Para Lamb, proteger alguém não significa poupar essa pessoa, mas prepará-la para aquilo que o inimigo fará. Se existe uma vulnerabilidade, ela será encontrada e explorada. Ao colocar Catherine diante da bebida, ele testa sua resistência em um ambiente que acredita controlar. O raciocínio torto parece ser o de que, se ela consegue resistir a ele, conseguirá resistir aos outros.
Isso não torna o comportamento menos cruel. Trauma não transforma automaticamente violência em cuidado, e Slow Horses não nos pede que absolvamos Lamb de tudo porque sofreu. Parte de sua agressividade é método, parte é defesa e parte é simplesmente crueldade. Ele perdeu a capacidade de distinguir completamente proteção de agressão.
Também há uma diferença entre ajudar Catherine e permitir que ela o transforme em seu salvador. Partner já ocupou esse lugar em sua vida. Ela acreditava que devia sua recuperação ao homem que, secretamente, a usava. Se Lamb se apresentasse como gentil, acolhedor e abertamente protetor, poderia se transformar em outro objeto de idealização.
Ele a ajuda, mas sabota qualquer possibilidade de ser visto como herói. Quer que Catherine sustente a própria sobriedade, sem atribuí-la a ele. É uma forma perversa de cuidado, mas coerente com um homem que parece determinado a impedir que qualquer pessoa dependa emocionalmente dele.
Quanto mais Lamb se importa, mais precisa esconder o sentimento sob o insulto. A grosseria impede intimidade, gratidão e qualquer conversa sobre os motivos pelos quais ele sempre aparece pessoalmente quando Catherine está em perigo.

A mulher que Lamb não conseguiu salvar
É aqui que surge a teoria que a série ainda não confirmou, mas que faz cada vez mais sentido. A mulher torturada pela Stasi estava grávida e morreu diante de Lamb enquanto ele permanecia imobilizado. Racionalmente, ele não podia salvá-la e não possuía o nome exigido pelos torturadores. Psicologicamente, porém, pode ter passado o resto da vida carregando a culpa do sobrevivente e a fantasia impossível de que deveria ter feito alguma coisa.
Catherine também é uma mulher destruída pelo mundo da espionagem e usada por um homem em quem confiava. Ela não substitui o amor perdido de Lamb, e a ligação entre os dois não precisa ser transformada em paixão romântica. A projeção pode estar justamente na possibilidade de uma reparação.
Lamb não conseguiu salvar a mulher do passado, mas pode impedir que Catherine seja sacrificada pela mesma instituição. Não pôde intervir enquanto a Stasi torturava a mulher diante dele, mas agora não permanece parado quando Catherine corre perigo.
Por isso, quando ela é sequestrada em Real Tigers, ele vai pessoalmente buscá-la. Lamb salva seus agentes, mesmo quando passa os dias tentando convencê-los de que são descartáveis, mas com Catherine existe algo anterior a Slough House. Ele se sente responsável por ela.
Talvez cada resgate seja uma tentativa inconsciente de reescrever a cena original. Desta vez, ele consegue chegar. Desta vez, consegue tirar a mulher da sala. Desta vez, ela sobrevive.
Isso também ajuda a explicar por que Diana usa Catherine contra ele. Diana conhece a tortura, a mulher morta, Charles Partner e a execução ordenada por David Cartwright. Sabe que Catherine é um dos raríssimos pontos pelos quais Lamb pode ser atingido.
A ameaça de contar a verdade sobre Partner não significava apenas expor uma operação secreta. Significava destruir Catherine, revelar que o homem a quem atribuía sua salvação era um traidor e que aquele em quem confiava agora tinha sido seu executor. Diana ameaçava simultaneamente Catherine, o vínculo entre os dois e a narrativa que permitiria que ela sobrevivesse.
A mentira que protege também fere
No final da terceira temporada, Lamb finalmente revela que Partner era uma toupeira e pretendia incriminar Catherine. A verdade destrói a memória que havia sustentado parte de sua recuperação, e ela deixa Slough House.
Sua saída é importante porque Lamb repete, mesmo com intenções diferentes, o comportamento de Partner. Os dois homens escondem informações e decidem por Catherine o que ela pode ou não saber. Partner mente para manipulá-la e sacrificá-la; Lamb mente acreditando que assim poderá protegê-la. A diferença moral é enorme, mas a retirada da autonomia permanece.
Na quarta temporada, Catherine volta para ajudar River e proteger David Cartwright. Na quinta, já está novamente incorporada ao círculo de Slough House, acompanhando Shirley e participando com Lamb da captura de Tara. A série não oferece uma grande reconciliação, talvez porque uma conversa sentimental entre os dois traísse os personagens. Catherine simplesmente volta.
Ela retorna depois de descobrir quem Partner realmente era e o que Lamb havia escondido. Não precisa mais idealizar nenhum dos dois. Pela primeira vez, escolhe permanecer ao lado de Lamb conhecendo também suas mentiras.
Só não conhece todas elas. Ainda não sabe oficialmente que ele foi o agente torturado pela Stasi, que uma mulher morreu diante dele e que talvez tenha perdido um filho naquela sala. Percebe a verdade, pergunta e recebe outra mentira.
É o limite de Lamb. Ele consegue salvar Catherine do mundo, mas não sabe protegê-la de si mesmo. Consegue colocar o corpo entre ela e o perigo, mas não consegue construir intimidade sem segredos. Catherine é a pessoa diante da qual ele corre o maior risco de deixar de ser indecifrável, por isso a aproxima, afasta, protege, provoca e, quando ela chega perto demais, mente.
Talvez ela nem precise da confissão. Catherine perguntou se a história era sobre Lamb porque, em algum nível, já conhecia a resposta.

Saskia Reeves, muito antes de Catherine Standish
E sim, sua lembrança de Saskia Reeves está praticamente certa, apenas deslocada por alguns anos. O filme de época provavelmente é December Bride, conhecido no Brasil como A Noiva de Dezembro ou A Noiva do Inverno. Produzido em 1990 e lançado em 1991, o drama se passa numa comunidade presbiteriana rural da Irlanda do início do século XX. Reeves interpreta Sarah Gilmartin, uma mulher independente que escandaliza a sociedade local ao se relacionar com dois irmãos, vividos por Donal McCann e Ciarán Hinds. O filme recebeu o Prêmio Especial do Júri nos European Film Awards.
Ela também marcou o cinema britânico em Close My Eyes, de 1991, ao lado de Alan Rickman e de um jovem Clive Owen. Não era um filme de época, mas um drama contemporâneo bastante provocador sobre a relação incestuosa entre dois irmãos. O longa venceu o prêmio do Evening Standard de melhor filme britânico e se tornou um de seus trabalhos mais lembrados. Reeves e Clive Owen voltaram a trabalhar juntos mais de três décadas depois.
Essa trajetória torna sua Catherine ainda mais interessante. Saskia Reeves conhece personagens femininas discretas, resistentes e emocionalmente complexas. Ao lado da explosão performática de Gary Oldman, ela trabalha quase no silêncio. Catherine observa Lamb como ninguém, percebe aquilo que ele esconde e compreende a história que existe por trás de cada mentira.
Jackson Lamb sempre chega para salvá-la porque passou a vida assombrado pela mulher que não conseguiu salvar. Catherine, por sua vez, talvez seja a única pessoa capaz de salvá-lo, não porque consiga mudar quem ele é, mas porque continua voltando mesmo depois de enxergar o que existe por trás da sujeira, da grosseria e dos segredos.
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