Em teoria, nunca foi tão difícil prever um Emmy. Nunca tivemos tantas séries, tantas plataformas, tantos atores conhecidos migrando do cinema para a televisão e uma oferta tão absurda de conteúdo disponível ao mesmo tempo. Na prática, porém, acontece quase o contrário. Olhando para os favoritos desta noite, poucas vitórias realmente parecem imprevisíveis. E isso talvez diga mais sobre a televisão de hoje do que qualquer lista de vencedores.
É uma contradição que aparece também quando analisamos semanalmente os rankings de streaming. O oceano de lançamentos não necessariamente pulverizou a atenção do público. Há estreias que chegam, fazem barulho por alguns dias e desaparecem, enquanto determinados títulos permanecem, voltam, crescem pelo boca a boca ou simplesmente se beneficiam da fidelidade, ainda que temporária, conquistada junto aos espectadores. No fim, a abundância tornou a atenção ainda mais preciosa.

O Emmy funciona de maneira diferente de um Top 10, evidentemente, mas existe uma lógica semelhante. Quando entram na equação a qualidade, a repercussão, a constância, a familiaridade dos votantes com uma série, o momento de determinado ator e, principalmente, as campanhas extremamente bem organizadas dos estúdios, o universo aparentemente infinito de candidatos vai se estreitando rapidamente. Quando chega a noite da cerimônia, em muitas categorias já estamos escolhendo entre dois nomes, às vezes praticamente um.
Por isso continuo achando complicado falar apenas em “merecimento” quando falamos de prêmios. Merecimento existe, claro, e alguns dos prováveis vencedores deste ano fizeram trabalhos extraordinários. Mas o Emmy é também uma fotografia da indústria, de suas preferências, de suas apostas e até de suas relações afetivas com determinados programas e artistas. Arte não é corrida de cavalos, embora Hollywood passe alguns meses por ano tentando transformá-la exatamente nisso.
Os números deste ano ajudam a contar essa história. The Pitt chegou à cerimônia com 25 indicações e Hacks, em sua temporada final, com 24. Logo depois aparecem duas produções da Apple TV, Widow’s Bay, com 19, e Pluribus, com 18. Antes mesmo da cerimônia principal, Widow’s Bay já havia conquistado oito Emmys nas categorias anunciadas anteriormente. Não é muito difícil entender de onde vem parte do favoritismo desta noite.


A HBO continua sendo a grande potência histórica da televisão de prestígio e liderou novamente as indicações, com 122, seguida pela Netflix, com 111. A Netflix, aliás, há muito deixou de ser a intrusa que precisava provar que streaming também era televisão. Hoje ela faz parte do establishment que um dia ajudou a derrubar. O dado mais curioso talvez seja a Apple TV: mesmo trabalhando com um volume de produções muito menor, apareceu com 87 indicações e teve uma média de indicações por programa submetido muito superior à das concorrentes. Em outras palavras, é uma plataforma pequena em quantidade e gigantesca em eficiência no circuito de prestígio.
A Amazon não desapareceu e vale fazer essa distinção. Amazon MGM Studios e Prime Video tiveram uma quantidade respeitável de indicações, impulsionadas por séries como Spider-Noir e Fallout. O que diminuiu foi sua presença no coração da conversa, especialmente nas categorias principais. Hoje, quando pensamos imediatamente em ficção de prestígio, grandes estrelas e projetos que conseguem combinar ousadia com campanhas fortíssimas de premiação, a Apple ocupa um espaço que poucos imaginariam quando entrou no streaming.
E talvez ninguém represente melhor esse momento do que Matthew Rhys. Ele concorre como Melhor Ator de Comédia por Widow’s Bay, da Apple TV, e como Melhor Ator em Minissérie ou Antologia por The Beast in Me, da Netflix. Não é “drama” como categoria oficial neste segundo caso, embora naturalmente seja uma interpretação dramática. A indicação dupla como protagonista já é raríssima. Se vencer as duas, Rhys fará algo sem precedentes: nenhum intérprete ganhou dois Emmys de atuação principal no mesmo ano. Como ele já venceu como ator dramático por The Americans, uma dobradinha ainda lhe daria vitórias nas três grandes áreas de protagonista — drama, comédia e minissérie.
E não seria um daqueles recordes criados apenas para que uma premiação possa dizer que aconteceu algo histórico. Rhys está vivendo um momento extraordinário porque consegue algo cada vez mais raro: desaparecer dentro de personagens completamente diferentes sem perder aquilo que faz com que o público queira acompanhá-lo. Em Widow’s Bay, especialmente, ele encontrou o equilíbrio dificílimo entre o absurdo, o medo e a vulnerabilidade. Sua vitória em comédia parece uma das apostas mais seguras da noite. A dobradinha seria a consagração.


Jean Smart representa outra espécie de consagração. Na despedida de Hacks, uma nova vitória como Deborah Vance teria um significado que ultrapassaria o prêmio por uma única temporada. Smart pode se tornar a primeira intérprete a ganhar o Emmy de Melhor Atriz de Comédia em todas as temporadas de uma série, com cinco vitórias consecutivas por Hacks. Aos 75 anos, seria também a confirmação de algo que a própria série sempre defendeu: talento não tem prazo de validade e uma grande personagem pode surgir quando uma indústria que costuma ser cruel com mulheres mais velhas já decidiu que elas deveriam ocupar espaços menores.
É impossível separar Jean Smart de Deborah Vance porque Hacks sempre brincou justamente com essa fronteira. Deborah é uma mulher obrigada a sobreviver às mudanças de gosto, às novas gerações, ao preconceito contra a idade e à necessidade permanente de continuar relevante. Smart, por sua vez, transformou uma personagem que poderia facilmente ser apenas uma caricatura da diva veterana em uma mulher brilhante, insegura, egoísta, generosa, cruel e profundamente humana. Se ganhar novamente, será difícil chamar isso apenas de repetição. Será despedida.
The Pitt conta outra história sobre a indústria. Depois de vencer, conquistar público e estabelecer rapidamente sua identidade, chega novamente como favorito ao prêmio de Melhor Drama, enquanto Noah Wyle tenta repetir sua vitória como ator. É o tipo de fenômeno que mostra como o Emmy também recompensa confiança. Uma vez criado o consenso em torno de determinada produção, derrubá-lo exige que outra série não seja apenas excelente, mas que consiga produzir um consenso ainda maior. É por isso que Pluribus, mesmo sendo uma das grandes séries do momento, precisa enfrentar não apenas The Pitt, mas o peso de uma narrativa já consolidada.
Há ainda histórias irresistíveis para qualquer premiação. Rhea Seehorn pode finalmente conquistar um Emmy depois de passar anos associada a uma das grandes injustiças recentes da premiação, o absoluto zero de vitórias de Better Call Saul. Harrison Ford, aos 84 anos, pode ganhar seu primeiro Emmy competitivo por Shrinking. Nessas horas, a votação deixa de avaliar apenas aquela temporada e passa inevitavelmente a carregar carreira, memória, oportunidade e a sensação de que talvez seja “a hora”. É humano, mas também confirma que nunca estamos julgando somente a obra que aparece na cédula.


Talvez seja justamente por isso que hoje o Emmy tenha se tornado uma fotografia tão interessante do entretenimento. O Oscar continua carregando um prestígio simbólico maior porque o cinema ainda ocupa um lugar quase mítico na cultura, mas a televisão e o streaming representam cada vez mais aquilo que efetivamente consumimos ao longo do ano. É nas séries que acompanhamos personagens durante meses, discutimos episódios, criamos teorias, abandonamos histórias, voltamos para elas e desenvolvemos relações de fidelidade que um filme de duas horas raramente consegue reproduzir.
A cerimônia desta noite provavelmente terá algumas surpresas. Espero que tenha, porque prêmio completamente previsível não tem muita graça. Mas as verdadeiras histórias talvez apareçam amanhã, quando pudermos olhar para quem perdeu, quem foi ignorado e quais poucas categorias contrariaram aquilo que já parecia decidido semanas antes.
Hoje, porém, antes da abertura dos envelopes, o Emmy de 2026 já conta uma história bastante clara: em uma era na qual nunca tivemos tanto para assistir, continuamos concentrando nossa atenção em muito pouco. E Hollywood, que sabe medir atenção melhor do que gosta de admitir, sabe perfeitamente como transformar essa concentração em votos.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
