Hollywood inteira parece querer trabalhar com Taylor Sheridan. Todo mundo, aparentemente, menos Kevin Costner. A brincadeira contém uma parte importante da verdade sobre o homem que transformou a Paramount+ em seu próprio território: atores premiados aceitam papéis pequenos, grandes estrelas atravessam suas séries e intérpretes menos conhecidos reaparecem de uma produção para outra, formando uma espécie de companhia de repertório. Sheridan não criou apenas programas de sucesso. Criou um universo reconhecível, com pais atormentados, famílias em guerra, instituições corruptas, paisagens deslumbrantes, discursos geopolíticos, desconfiança da imprensa e personagens que acreditam que a violência, quando exercida por eles, é apenas uma resposta pragmática a um mundo ainda pior.
Em MiscelAna, Lioness é hoje o maior sucesso depois de Silo. O interesse cresceu junto com a série, que realmente engrenou nesta terceira temporada. No início, havia algo curioso em uma produção protagonizada por mulheres, cercada de personagens femininas fortes, mas ainda narrada a partir de uma sensibilidade essencialmente masculina. Não porque Joe, Cruz, Kaitlyn ou as outras mulheres precisassem agir de maneira delicada ou corresponder a alguma ideia convencional do que seria “feminino”. Elas são militares, agentes da CIA, estrategistas e combatentes. O problema era que, por vezes, pareciam homens de Taylor Sheridan interpretados por mulheres.

A terceira temporada encontrou um equilíbrio muito melhor. A brutalidade permanece, assim como as operações arriscadas, as explicações políticas e as decisões moralmente indefensáveis tomadas em nome da segurança nacional. Agora, porém, existe um peso emocional mais profundo nas consequências dessas escolhas. Joe não é apenas a chefe que entra em uma sala gritando ordens e dizendo que fará qualquer coisa para cumprir a missão. O corpo, a família, o casamento, a culpa e a relação com Cruz finalmente ganharam o mesmo peso dramático da ação. Sheridan não deixou de escrever soldados; apenas se lembrou de que soldados também têm vínculos, medo e contradições.
É isso que faz desta a melhor temporada de Lioness. A série continua exagerada, violenta e absolutamente convencida de sua própria leitura geopolítica, mas tornou-se mais humana. A missão deixou de ser apenas um mecanismo para levar a equipe de um país a outro e passou a atingir diretamente os personagens. Quando Joe é sequestrada e torturada, a violência não serve apenas para criar uma sequência de ação. Ela desmonta a mulher que sempre acreditou ser capaz de controlar o caos. E, quando Cruz participa do resgate, a história recupera a ligação central da série: Joe criou uma arma, mas essa arma também aprendeu a amá-la.
Sheridan conta essa história cercado por um elenco que poucas séries conseguiriam reunir. São três vencedores do Oscar: Morgan Freeman, Nicole Kidman e Zoe Saldaña, além de Michael Kelly, Martin Donovan — que interpreta Errol, o marido de Kaitlyn — e Jennifer Ehle, a eterna Elizabeth Bennet de Orgulho e Preconceito, de 1995, como Mason. É um elenco que empresta prestígio até às cenas em que os personagens simplesmente se sentam ao redor de uma mesa para explicar ao público o que está acontecendo no mundo. A própria Paramount destaca os três vencedores do Oscar em seu material oficial da temporada.
Ao redor deles está o verdadeiro Sheridanverse. James Jordan talvez seja o exemplo mais evidente: passou por Terra Selvagem, Yellowstone, 1883, Mayor of Kingstown, Lioness e Landman. Ian Bohen saiu do rancho de Yellowstone para a operação de Lioness. Dawn Olivieri também atravessou produções. Agora, Michael Kelly deixará por algum tempo os corredores da CIA para interpretar um poderoso executivo na terceira temporada de Landman. Sheridan trabalha como os antigos diretores de cinema, que gostavam de reencontrar os mesmos atores porque já conheciam seu ritmo, sua disciplina e aquilo que conseguiam extrair deles. Michael Kelly será outro personagem, mas continuará dentro do mesmo território moral.

Por isso gosto de pensar em Taylor Sheridan como o cowboy da televisão. Ele não escreve apenas faroestes, mas transporta a lógica do western para todos os gêneros. A fronteira já não é necessariamente o território do Velho Oeste. Em Sicário, é a divisa literal entre os Estados Unidos e o México; em A Qualquer Custo, é um país tomado pelos bancos, pela pobreza e pelo ressentimento; em Terra Selvagem, é uma reserva indígena abandonada pelo Estado; em Yellowstone, a terra; em Landman, o petróleo; em Mayor of Kingstown, a prisão; em Lioness, o território invisível e móvel da espionagem internacional.
Sheridan troca os cavalos por caminhonetes, aviões, helicópteros e operações clandestinas, mas preserva a pergunta essencial do western: quem estabelece a lei onde a lei já não consegue chegar? Em suas histórias, sempre há alguém tentando proteger uma família, uma propriedade, uma cidade, uma empresa ou um país, geralmente convencido de que as regras comuns não se aplicam a quem carrega esse peso.
Também existe uma cadência inconfundível. As grandes paisagens, os diálogos em que um personagem explica a outro como o mundo realmente funciona, o homem competente que despreza burocratas, a mulher duríssima que paga um preço por tentar sobreviver naquele ambiente, o respeito por quem executa o trabalho e a suspeita em relação a quem apenas observa. É muito americano e, ao mesmo tempo, consegue conversar com o mundo porque, por trás das fazendas, dos campos de petróleo e das operações da CIA, Sheridan escreve melodramas familiares quase novelescos. Antes de nos interessarmos pelo destino de uma nação, ele nos faz temer pelo destino de uma família.

Sua maneira de escrever mulheres, porém, varia bastante. Em Landman, há uma misoginia mais difícil de contornar porque várias personagens femininas são apresentadas inicialmente pelo corpo, pela beleza e pelo efeito que provocam nos homens. É um imaginário masculino bastante antigo, mesmo quando essas mulheres depois demonstram inteligência ou capacidade de manipular aquele ambiente. Sheridan parece gostar delas, mas frequentemente as olha antes de ouvi-las.
Em Sicário, Terra Selvagem e Lioness, a construção é mais complexa. Kate Macer, a agente vivida por Emily Blunt em Sicário, funciona como nossa consciência moral: ela entra acreditando nas regras e descobre que foi usada para legitimar uma operação que já havia decidido ignorá-las. Jane Banner, interpretada por Elizabeth Olsen em Terra Selvagem, também chega como uma mulher de fora, despreparada para aquele território, mas não é tratada como incapaz. Ela aprende, resiste e compreende o tamanho do abandono ao lado de Cory Lambert, vivido por Jeremy Renner. O Gavião Arqueiro e a Feiticeira Escarlate se reencontram ali longe dos efeitos dos filmes da Marvel, num thriller gelado, triste e profundamente humano.
Em Lioness, Sheridan dá um passo adiante porque as mulheres não observam mais a máquina masculina. Elas comandam a máquina, usam as mesmas armas, repetem a mesma violência e pagam o mesmo preço. Ainda percebemos que é um homem escrevendo para aquelas mulheres. Joe muitas vezes parece um protagonista masculino de Sheridan transferido para o corpo de Zoe Saldaña, e a série demorou a encontrar a dimensão emocional que existia por trás da soldado. Mas a questão não é exigir que Sheridan escreva como uma mulher, e sim observar se ele consegue enxergar suas personagens como seres humanos completos. Nesta temporada de Lioness, finalmente conseguiu.
Sheridan é um homem de sua época, formado por um imaginário masculino e americano que não procura esconder. Há coisas que envelheceram, especialmente o olhar sobre as mulheres de Landman, mas reduzir toda a sua obra a isso seria ignorar a qualidade das histórias que conta e a complexidade que consegue alcançar quando está inspirado. É possível reconhecer a limitação sem transformar cada série num tribunal ideológico. Quando a história é bem contada, os personagens têm contradições reais e o resultado funciona, não tenho dificuldade em acompanhá-lo por esse território.

A imprensa também ocupa um lugar revelador dentro dessa visão de mundo. Sheridan não desconfia apenas dos jornalistas; desconfia de praticamente todas as instituições. Seus governos mentem, suas empresas exploram, seus policiais matam, seus agentes manipulam e seus políticos tratam vidas humanas como peças sobre um tabuleiro. A contradição é que ele costuma conceder aos homens e mulheres que operam essas máquinas alguma forma de código moral, mesmo quando cometem atrocidades, enquanto raramente oferece a mesma complexidade à imprensa.
Em Yellowstone, a jornalista Sarah Nguyen investiga os Duttons, recebe informações de Jamie e se transforma numa ameaça a ser eliminada. A série não diz que seu assassinato é justo, naturalmente, mas desloca a nossa identificação: o problema dramático deixa de ser uma jornalista morta por tentar revelar a verdade e passa a ser o perigo que sua investigação representava para a família protagonista. Em Lioness, a imprensa quase nunca existe como força autônoma de apuração. Ela aparece como veículo da versão que políticos, militares ou serviços de inteligência decidiram fazer circular. A notícia não revela o poder; é apenas mais uma ferramenta usada por ele.
Talvez seja por isso que Sheridan pareça desconfiar mais da imprensa do que do próprio governo que mostra assassinando, mentindo e manipulando. O agente que mata sabe, segundo essa lógica, como o mundo funciona e aceita carregar o peso da decisão. O jornalista seria alguém de fora, incapaz de compreender a totalidade da ameaça, mas disposto a expor quem supostamente mantém o país de pé. É uma visão profundamente conservadora, não necessariamente porque defenda um partido, mas porque acredita no indivíduo competente muito mais do que na fiscalização institucional. Em seu universo, a verdade pertence a quem esteve no campo de batalha, não a quem chegou depois para fazer perguntas.
Antes de construir esse império na televisão, Sheridan foi ator e interpretou personagens secundários em séries como Veronica Mars e Sons of Anarchy. A virada aconteceu quando começou a escrever histórias sobre os Estados Unidos que Hollywood frequentemente observava de longe. Vieram o excelente Sicário: Terra de Ninguém, dirigido por Denis Villeneuve, e A Qualquer Custo, faroeste moderno estrelado por Chris Pine, Ben Foster e Jeff Bridges, pelo qual Sheridan foi indicado ao Oscar de Melhor Roteiro Original. Depois, ele próprio dirigiu Terra Selvagem, completando uma espécie de trilogia sobre fronteiras, violência, abandono e personagens vivendo à margem do sonho americano. Os três filmes foram lançados entre 2015 e 2017; não faz tanto tempo.
Em seguida, Yellowstone provou que havia um público enorme para aquela visão de mundo e abriu as portas da Paramount. Kevin Costner foi essencial para isso. Sua presença deu à série uma dimensão de cinema e ajudou a transformar John Dutton num patriarca instantaneamente icônico. Justamente por esse motivo, o rompimento entre os dois continua sendo a grande exceção à ideia de que todos querem permanecer no universo de Sheridan.
Costner afirmou que reorganizou Horizon para atender à série, mas que a produção atrasou e os roteiros não estavam prontos. Do outro lado, a narrativa foi a de que sua disponibilidade havia se tornado incompatível com o cronograma. Provavelmente há verdade e orgulho nas duas versões. Mais do que descobrir quem tinha razão, interessa perceber o que a ruptura simboliza. Costner e Sheridan eram dois cowboys, duas autoridades e duas visões de autoria dentro do mesmo rancho. O Sheridanverse, aparentemente, comportava apenas uma. Sheridan continuou, expandiu o universo e provou que sobreviveria sem seu primeiro grande astro. Costner partiu para realizar o próprio western.

Então, este é o auge de Taylor Sheridan? Talvez seja. Lioness encontrou sua melhor forma, Landman virou outro fenômeno e seu nome é capaz de atrair vencedores do Oscar, estrelas veteranas e atores que desejam voltar a trabalhar com ele. Pouquíssimos showrunners alcançaram tamanho poder de associação: não precisamos saber muito sobre uma nova série para compreender imediatamente o que significa dizer que ela é “de Taylor Sheridan”.
Há, porém, uma ironia perfeita. Seu auge na Paramount chega quando sua saída já está marcada. Sheridan fechou um acordo com a NBCUniversal, com o contrato televisivo previsto para começar em 2029, depois do encerramento de seus compromissos atuais. A Paramount ainda conservará franquias e produções em andamento, mas perderá o homem cuja assinatura ajudou a definir a plataforma.
Lioness, portanto, não comprova apenas que Taylor Sheridan conseguiu. Comprova quanto a Paramount passou a depender de que ele continuasse conseguindo. O cowboy construiu o rancho, escolheu sua companhia de atores, estabeleceu as regras, enfrentou seu maior astro e transformou sua visão de mundo em produto global. Agora, justamente quando parece ter chegado ao ponto mais alto, já se prepara para atravessar a fronteira.
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