Há algum tempo tenho a sensação de que culturalmente estamos presos em algum lugar entre os anos 1980 e 1990. Não digo isso necessariamente como crítica. Eu vivi essas décadas, gosto de boa parte do que elas produziram e não preciso de muito incentivo para voltar a determinados filmes ou músicas. Mas basta olhar ao redor para perceber que não estamos simplesmente lembrando daquele período. Estamos reconstruindo, revendendo e, de certa forma, tentando voltar para ele.
O cinema talvez seja o exemplo mais óbvio. Sequências feitas décadas depois, personagens recuperados, atores retornando aos papéis que os transformaram em estrelas. Sandra Bullock e Nicole Kidman estão novamente juntas em Practical Magic 2, quase 30 anos depois do filme de 1998, um longa que nem foi um grande sucesso quando chegou aos cinemas e só posteriormente ganhou o status de cult. É justamente aí que a nostalgia contemporânea fica interessante: não recuperamos apenas os grandes triunfos do passado, recuperamos aquilo que a memória coletiva decidiu amar depois.
Hollywood já descobriu há muito tempo que a memória afetiva é um ótimo negócio. A vantagem de ressuscitar um título conhecido é óbvia: antes mesmo do trailer, já existe uma relação emocional com o público. O espectador não precisa aprender quem são aquelas pessoas ou por que deveria se importar com elas. Ele já chega carregando lembranças. E talvez seja justamente por isso que tantos desses projetos sejam vendidos menos como novas histórias e mais como reencontros.

Na música, porém, o fenômeno me parece ainda mais revelador. Oasis voltou aos palcos em 2025, 16 anos depois da separação, em uma turnê que levou mais de dois milhões de pessoas aos shows, e agora essa volta virou documentário. O que parecia durante anos praticamente impossível — Noel e Liam Gallagher dividindo novamente o mesmo palco — tornou-se um dos maiores eventos musicais recentes.
E Oasis está longe de ser um caso isolado. New Order volta à América do Sul ainda em 2026, com dois shows marcados em São Paulo em novembro. The Cure passou o verão europeu de 2026 percorrendo festivais e arenas. Radiohead, que voltou a fazer shows em 2025 depois de anos afastado dos palcos, já anunciou uma nova série de apresentações para 2027 na Austrália e no Japão. Bandas que formaram a trilha sonora de adolescentes nos anos 1980 e 1990 não estão sobrevivendo discretamente em circuitos nostálgicos. Continuam ocupando arenas, festivais e manchetes.
Talvez porque, quando falamos de música, não estejamos falando apenas de gosto. Estamos falando de identidade. Existe inclusive um fenômeno estudado pela psicologia chamado reminiscence bump: tendemos a guardar com intensidade especial as músicas que ouvimos durante a adolescência e o início da vida adulta, justamente uma fase em que nossa identidade está sendo formada. Por isso, uma canção ouvida aos 15 ou 20 anos pode continuar provocando uma reação emocional muito mais forte décadas depois.
É aí que a frase “a música era melhor naquela época” fica mais complicada. Talvez fosse, talvez não fosse, mas certamente nós éramos diferentes quando a ouvimos. Quando alguém volta para The Cure, New Order, Radiohead ou Oasis, não está necessariamente procurando apenas Robert Smith, Bernard Sumner, Thom Yorke ou os irmãos Gallagher. Pode estar reencontrando a pessoa que era quando escutou aquelas músicas pela primeira vez.
Nostalgia é traiçoeira justamente porque parece falar do objeto, quando muitas vezes está falando de nós mesmos. Não sentimos apenas saudade de determinado filme, disco ou série. Sentimos saudade de onde morávamos, das pessoas que estavam conosco, de quem ainda estava vivo, do corpo que tínhamos, das possibilidades que pareciam abertas. Uma música de três minutos consegue recuperar tudo isso sem pedir licença.
Mas existe outro elemento que ajuda a explicar por que essa obsessão ultrapassou a geração que efetivamente viveu os anos 80 e 90. Jovens que nasceram muito depois estão descobrindo essas músicas, filmes, roupas e objetos como se fossem novidades. Para eles, não existe memória autobiográfica. Existe uma espécie de nostalgia por um tempo que nunca viveram.
E talvez essa seja a parte mais fascinante do fenômeno.
Quem cresceu sem smartphone pode lembrar perfeitamente da chatice de combinar um encontro e ficar esperando alguém que não aparecia. Quem nasceu com um celular na mão, porém, pode olhar para aquele mundo desconectado como uma fantasia de liberdade. A fita cassete, a câmera analógica, o telefone fixo, o vinil e até a ausência de redes sociais ganham uma aura romântica porque pertencem a um período em que aparentemente não éramos observados, avaliados, fotografados e localizados o tempo inteiro.

É uma fantasia, claro. Os anos 80 e 90 estavam longe de ser inocentes. Havia guerras, AIDS, recessões, violência, preconceito, crises políticas e uma quantidade enorme de problemas que a memória convenientemente reduz quando cria sua versão particular do passado. Nostalgia nunca é documentário. Ela faz edição.
Talvez por isso ela floresça especialmente bem em períodos de incerteza. Pesquisas sobre nostalgia mostram que ela pode funcionar como uma forma de reforçar continuidade, pertencimento e sentido quando o presente parece instável. Voltamos mentalmente a momentos conhecidos para reconstruir alguma sensação de conexão entre quem fomos e quem somos.
E convenhamos que o presente oferece bastante material para ansiedade. Vivemos entre inteligência artificial, guerras, crise climática, redes sociais, algoritmos, excesso de informação e uma sensação permanente de que tudo está mudando rápido demais. Diante disso, os anos 80 e 90 começam a ocupar simbolicamente o lugar de um “mundo antes”. Antes de estarmos conectados 24 horas por dia, antes de cada gosto ser transformado em dado, antes da própria nostalgia ser detectada por um algoritmo e imediatamente vendida de volta para nós.
O que é bastante irônico. Procuramos os anos 90 para fugir do algoritmo e é o algoritmo que coloca Oasis novamente na nossa frente.
Por isso não acho que a atual obsessão pelos anos 80 e 90 seja apenas preguiça criativa de Hollywood, falta de bandas novas ou incapacidade cultural de seguir em frente. Há isso também, evidentemente, e o mercado aprendeu muito bem a transformar nossas lembranças em produto. Mas existe algo emocionalmente mais profundo acontecendo.
Talvez não estejamos tentando voltar aos anos 80 ou 90. Talvez estejamos tentando voltar à sensação de que ainda tínhamos muito tempo pela frente.
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