Slow Horses: quem pode morrer na 6ª temporada? (Spoilers)

Antes de qualquer coisa, o aviso precisa ser enorme: este texto contém spoilers completos de Joe Country e Slough House, os dois livros de Mick Herron que servem de base para a sexta temporada de Slow Horses. Mas há uma ressalva igualmente importante. A série não parece estar simplesmente colocando os dois romances na tela, um depois do outro. A Apple confirma que os seis episódios adaptam os livros seis e sete da saga, mas o trailer e o material já divulgado mostram histórias reorganizadas, personagens reposicionados e uma trama que parece concentrar muito mais cedo a ameaça contra os próprios Slow Horses. Portanto, o que vem a seguir é o que acontece nos livros e, consequentemente, o mapa dos perigos que podem aparecer na temporada.

E talvez seja melhor assim, porque, se a série reproduzisse fielmente tudo o que Mick Herron escreveu nesses dois volumes, já saberíamos demais. Há mortes importantes, uma volta que esperamos desde a primeira temporada e um dos cliffhangers mais cruéis reservados a River Cartwright. O trailer, porém, já deixa claro que a sexta temporada terá sua própria engenharia: oficialmente, Diana Taverner envolve os Slow Horses num jogo mortal de retaliação e vingança, enquanto Sid Baker, interpretada novamente por Olivia Cooke, está confirmadamente de volta.

Tudo começa com o funeral de David Cartwright

Em Joe Country, River perde o homem que o criou. David Cartwright morre numa casa de repouso, depois de um longo declínio provocado pela demência, encerrando uma relação que sempre foi muito maior do que a de avô e neto. David foi pai, mentor e, principalmente, a pessoa que construiu em River a ideia quase romântica do que significava pertencer ao Serviço.

O funeral, naturalmente, não oferece paz alguma. River vê Frank Harkness observando a cerimônia e corre atrás dele. Frank escapa, mas a imagem já diz quase tudo sobre o arco de River: no mesmo momento em que ele enterra o homem que representava sua versão idealizada da espionagem, reaparece o pai biológico que representa exatamente o lado mais sombrio daquele mundo.

No livro, Harkness está ligado a outra trama que começa quando Clare, viúva de Min Harper, procura Louisa Guy porque o filho adolescente, Lucas, desapareceu. Louisa ainda guarda uma ligação profunda com a família de Min e parte atrás do garoto, chegando ao País de Gales. Aos poucos, descobre-se que Lucas havia trabalhado num evento privado de gente extremamente rica e poderosa e testemunhado uma situação grotesca envolvendo uma jovem e uma besta. Ele tenta transformar o que viu em chantagem e acaba entrando na mira de pessoas dispostas a pagar para que o assunto desapareça. Frank Harkness e seus mercenários entram nessa história.

É justamente aqui que eu teria mais cuidado ao transportar o livro para a série. O trailer não está vendendo essa trama como centro da temporada. A adaptação parece ter redistribuído bastante o material de Joe Country e fundido sua ação com a perseguição de Slough House. Portanto, Lucas, o País de Gales e as circunstâncias exatas da missão de Harkness pertencem, por enquanto, aos spoilers do livro, não a uma confirmação do que veremos na tela.

Quem morre no livro

E aqui começam as perdas.

Em Joe Country, Diana Taverner já está no comando do MI5 e tenta rebaixar Emma Flyte, chefe dos Dogs. Emma se recusa a aceitar a nova função e deixa o Serviço. Livre do Park, acaba ajudando Louisa a localizar Lucas e vai parar no País de Gales justamente quando a situação se torna perigosa.

Emma e Louisa chegam a trocar de casacos, um detalhe aparentemente banal que acaba tendo consequências fatais. Um dos homens de Harkness encontra Emma, tenta conseguir informações sobre Lucas e atira nela. Emma Flyte morre.

É uma das mortes que eu menos assumiria como certa na televisão. Ruth Bradley se tornou rapidamente uma presença excelente na série e está confirmada no elenco da sexta temporada. Como os roteiristas já estão mudando a construção dos dois romances, Emma pode morrer da mesma maneira, pode morrer em circunstâncias completamente diferentes ou pode simplesmente sobreviver.

E esse é exatamente o suspense que os leitores dos livros também terão desta vez: saber o destino original dos personagens deixou de significar saber necessariamente o destino deles na série.

Coe também não sobrevive a Joe Country

J.K. Coe é outra vítima do livro. Quando Louisa desaparece, River, Shirley e Coe vão atrás dela e acabam entrando no confronto com os mercenários de Harkness. Coe enfrenta Cyril Dupont numa luta particularmente brutal. Consegue cortar a garganta dele, mas também é esfaqueado e morre.

Portanto, Joe Country sozinho já entrega uma temporada suficientemente cruel: David Cartwright morre, Emma Flyte é assassinada e Coe também é morto. Só que então começa Slough House.

E fica pior.

Quando os Slow Horses viram os alvos

No final de Joe Country, Roddy Ho percebe que aconteceu algo estranhíssimo: todos os registros de pessoas ligadas a Slough House, atuais ou antigas, desapareceram dos sistemas do MI5. É como se eles jamais tivessem existido.

Em Slough House, descobrimos o tamanho do problema. Diana Taverner autorizou clandestinamente o assassinato de uma agente russa, numa operação que não poderia passar pelos canais oficiais. A história envolve também Peter Judd, financiamento privado e uma sucessão de decisões que termina com uma lista de nomes de Slough House chegando às mãos dos russos.

Eles interpretam aquela lista de maneira completamente errada: concluem que Slough House deve ser uma unidade secreta britânica de assassinos. E começam a matar as pessoas que aparecem nela.

É uma ótima ideia para Slow Horses justamente porque transforma toda a piada original da série. Slough House sempre foi o lugar para onde o MI5 mandava agentes que preferia esquecer. De repente, ser esquecido pelo Serviço não é apenas humilhante. É mortal.

Antigos Slow Horses começam a aparecer mortos, e Lamb percebe que alguém está caçando seus agentes. A partir daí, aquele homem que passa a vida inteira insultando, humilhando e fingindo desprezar sua equipe reage exatamente como esperamos dele: mexer com seus joes é mexer com Jackson Lamb.

Sid está viva

É também em Slough House que acontece a volta que a série já não está tentando esconder: Sid Baker sobreviveu. A Apple confirmou oficialmente Olivia Cooke na sexta temporada, e as próprias imagens promocionais mostram Sid novamente com River.

Nos livros, depois do tiro na cabeça, Sid foi tratada e teve sua existência apagada pelo Serviço. Passou a viver sob outra identidade, longe de tudo, ainda com sequelas. Quando percebe que duas pessoas suspeitas estão atrás dela, procura justamente River, porque ainda se lembra dele como alguém em quem pode confiar.

Há algo muito bonito nisso. River passou anos sem saber sequer se Sid estava viva. Quando ela finalmente volta, é justamente numa fase em que ele começa a perder tudo aquilo em que acreditava ser permanente. E o reencontro não dura muito antes que os dois precisem lutar pela própria vida.

Sid é sequestrada por dois assassinos, Jim e Jane, mas consegue matar Jim com um antigo estilete pertencente a David Cartwright. Jane continua perseguindo-a e tenta afogá-la. River chega, e ele e Sid conseguem derrotá-la. Parece que finalmente escaparam.

É claro que não.

O destino de River é o maior cliffhanger

No final de Slough House, River e Sid estão na antiga casa de David. Em algum momento, River usa a porta da frente. Depois, Sid percebe que ele desapareceu. Ela o encontra caído no chão da cozinha, vítima de um veneno colocado na maçaneta da porta. Sid chama ajuda e tenta mantê-lo consciente enquanto o livro termina sem nos dizer se River Cartwright está vivo ou morto.

Ele está vivo. Os romances posteriores confirmam que River sobrevive ao envenenamento, embora as consequências sejam graves e sua recuperação demore. Em Clown Town, ele ainda está afastado depois do ataque e esperando autorização médica para voltar ao trabalho. Mas quem terminou Slough House quando foi publicado não tinha essa segurança. Mick Herron simplesmente fechou o livro com River aparentemente morrendo nos braços de Sid. Se a série resolver usar o mesmo cliffhanger no sexto episódio, será uma maneira particularmente cruel de terminar a temporada.

E há uma ironia deliciosa agora que Jack Lowden voltou a ser citado nas conversas sobre James Bond. Em From Russia with Love, Ian Fleming também encerra o romance deixando Bond envenenado e seu destino em suspenso. River Cartwright, o anti-Bond por excelência, poderia terminar uma temporada exatamente da mesma maneira.

Então quem realmente vai morrer?

Essa é a pergunta que ficou muito mais interessante depois do trailer.

Os livros oferecem várias vítimas prontas: David Cartwright, Emma Flyte, J.K. Coe e antigos integrantes de Slough House. Também oferecem River quase morto no final. Mas a sexta temporada está comprimindo dois romances enormes em apenas seis episódios e, pelo que já foi mostrado, não está preservando a arquitetura deles intacta. A própria sinopse oficial resume tudo numa caçada provocada pelas ações de Diana, sem sequer tentar reproduzir separadamente as histórias de Joe Country e Slough House.

Portanto, saber os livros desta vez não significa necessariamente saber quem vai morrer. E acho que isso é excelente. Porque Slow Horses funciona melhor quando temos a sensação de que ninguém está totalmente protegido. Já conhecemos o material original, reconhecemos as peças no tabuleiro e sabemos que há cadáveres chegando. O que não sabemos mais é quem ficará no lugar de quem quando a série decidir mover essas peças.

E River talvez seja o personagem que mais tem a perder. Ele começa essa história enterrando David, o homem que lhe deu uma ideia de heroísmo e de serviço. Reencontra Frank, o pai que representa a versão mais brutal daquele mesmo universo. Sid volta dos mortos. Pessoas ao redor dele desaparecem. E, nos livros, é River quem termina literalmente no chão, entre a vida e a morte.

Durante anos ele tentou escapar de Slough House e voltar para Regent’s Park. Talvez esta seja finalmente a temporada em que ele descubra aquilo que nós já percebemos há muito tempo: Slough House virou sua família. David ensinou River a idealizar o Serviço. Frank mostrou até onde esse mundo pode se tornar monstruoso. Diana ensinou que a instituição sempre colocará a própria sobrevivência antes da sobrevivência de seus agentes.

Talvez Jackson Lamb, de todas as pessoas possíveis, seja quem finalmente lhe ensine o que significa ser um bom espião. E agora, mesmo sabendo tudo o que acontece nos livros, eu sinceramente não sei quem estará vivo quando chegarmos ao sexto episódio.

O que, para Slow Horses, é exatamente como deve ser.


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