Escrevo muito sobre Jane Austen, talvez porque continue encontrando nela coisas sobre as quais ainda quero falar. Já escrevi sobre suas heroínas, seus vilões, seus homens, seus casamentos, sobre dinheiro, classe, desejo, sobre Orgulho e Preconceito, Razão e Sensibilidade, Persuasão, Emma, sobre as adaptações que deram certo e as que tentaram modernizá-la tanto que acabaram perdendo justamente aquilo que pretendiam atualizar. Ainda assim, diante de uma nova onda de Austen chegando às telas, percebi que havia uma pergunta que talvez eu ainda não tivesse feito exatamente assim: por que continuamos refilmando histórias cujo final todos conhecemos?
A pergunta voltou com força em 2026. A Netflix estreia em 3 de dezembro uma nova série de seis episódios de Orgulho e Preconceito, escrita por Dolly Alderton e dirigida por Euros Lyn, com Emma Corrin como Elizabeth Bennet, Jack Lowden como Mr. Darcy e Olivia Colman como Mrs. Bennet. A própria Netflix apresentou o projeto com a ideia de que cada geração merece sua versão do romance. Quase ao mesmo tempo, Razão e Sensibilidade retorna ao cinema com Daisy Edgar-Jones e Esmé Creed-Miles como Elinor e Marianne Dashwood, sob direção de Georgia Oakley e roteiro de Diana Reid.

É tentador concluir simplesmente que cada geração quer sua Jane Austen, e isso é verdade. Mas talvez exista algo mais interessante acontecendo. Porque uma nova adaptação não necessariamente apaga a anterior. Ninguém deixou de amar Colin Firth e Jennifer Ehle quando Matthew Macfadyen e Keira Knightley chegaram ao cinema dez anos depois. A versão de Joe Wright não matou a da BBC. E agora Jack Lowden não precisa derrotar Colin Firth ou Matthew Macfadyen para justificar sua existência. Ele precisa encontrar o seu Darcy.
Com Austen, curiosamente, raramente esperamos descobrir o que acontece. Sabemos quem termina com quem. Sabemos quem engana Marianne, quem Elizabeth julga mal, quem Anne Elliot perdeu e quem Emma Woodhouse deveria ter percebido que amava muito antes. O prazer está em outra parte. Queremos descobrir como esses personagens serão entendidos desta vez.
Talvez seja por isso que 1995 continue sendo um ano tão fascinante para quem ama Austen. Em poucos meses, a BBC apresentou o Orgulho e Preconceito de Andrew Davies, com Colin Firth e Jennifer Ehle; Roger Michell dirigiu Amanda Root e Ciarán Hinds em Persuasão; Ang Lee filmou o roteiro de Emma Thompson para Razão e Sensibilidade, com Thompson, Kate Winslet, Alan Rickman e Hugh Grant; e, do outro lado do Atlântico, Amy Heckerling levou Emma para uma escola de Beverly Hills em As Patricinhas de Beverly Hills. Austen podia usar vestidos do período Regencial ou minissaias e meias três-quartos. Continuava sendo Austen.
Aliás, As Patricinhas de Beverly Hills talvez seja uma das provas mais brilhantes de que fidelidade não significa reproduzir figurinos, cenários ou diálogos. Amy Heckerling percebeu que Emma Woodhouse podia virar Cher Horowitz sem deixar de ser Emma porque a estrutura humana permanecia intacta: privilégio, vaidade, boas intenções, interferência na vida alheia, cegueira sobre os próprios sentimentos e, finalmente, algum amadurecimento. O mundo mudou completamente; a personagem, curiosamente, não tanto.
Mas existe também uma tradição particularmente britânica por trás dessa insistência. Durante décadas, a televisão no Reino Unido tratou Austen, Dickens, as Brontë, George Eliot e outros grandes autores quase como uma companhia teatral trata Shakespeare. Não havia obrigação de encontrar uma versão definitiva de um clássico para depois colocá-lo numa prateleira. Havia a possibilidade de interpretá-lo novamente.

A própria BBC descreve o Orgulho e Preconceito de 1995 como parte de uma tradição de excelência no drama de época, e Andrew Davies seguiria adaptando inúmeros clássicos para a televisão. A série tornou-se um fenômeno, mas não nasceu da ideia de que ninguém jamais havia contado aquela história antes. Nasceu justamente de uma cultura que entende que grandes textos sobrevivem porque podem ser revisitados.
No teatro isso jamais causa estranhamento. Ninguém pergunta seriamente por que outro ator resolveu interpretar Hamlet. Ninguém considera uma nova montagem de Romeu e Julieta uma demonstração automática de falta de ideias. Sabemos que o texto permanece, enquanto atores, diretores, épocas e públicos mudam. Talvez Jane Austen tenha alcançado exatamente esse lugar no cinema e na televisão.
É também por isso que a pergunta “para que outro Orgulho e Preconceito?” me interessa menos do que “quem será Elizabeth Bennet desta vez?”. Jennifer Ehle tinha uma Elizabeth; Keira Knightley, outra. Colin Firth construiu um Darcy cuja rigidez e autocontrole se tornaram praticamente uma definição cultural do personagem. Matthew Macfadyen fez algo diferente, tornando-o mais vulnerável, desajeitado, quase incapaz de lidar com a própria intensidade emocional. Jack Lowden chega agora sem precisar escolher qual dos dois imitar. Há espaço dentro de Darcy para outra leitura porque Austen nunca nos entregou um personagem reduzido a uma característica.
O mesmo vale ainda mais para Razão e Sensibilidade. O filme de Ang Lee continua extraordinariamente vivo três décadas depois, não apenas porque Emma Thompson adaptou Austen com inteligência, mas porque encontrou uma maneira própria de tornar explícita a precariedade das mulheres Dashwood sem transformar o romance numa palestra sobre sua época. O roteiro ganhou o Oscar e o filme ajudou a consolidar aquela febre Austen dos anos 1990.
Seria perfeitamente razoável perguntar por que mexer nisso.
A resposta talvez esteja justamente no fato de que ninguém precisa mexer naquilo. Georgia Oakley não está refazendo Ang Lee; está interpretando Jane Austen. E sua leitura já parece deslocar discretamente o centro da história. A diretora tem falado sobre Elinor e Marianne menos como duas forças opostas — razão de um lado, sensibilidade do outro — e mais como irmãs que precisam aprender uma com a outra. O vínculo entre elas ganha peso próprio, em vez de servir apenas como contraponto às histórias amorosas. É uma pequena mudança de perspectiva, mas é exatamente disso que vive um clássico.


Talvez o maior erro das adaptações contemporâneas de Austen aconteça justamente quando elas não confiam nisso. Existe uma tentação permanente de provar que ela continua moderna, colocando na boca de suas heroínas uma consciência do século 21 ou tentando transformar todas em variações de Elizabeth Bennet. Austen não precisa dessa ajuda. Suas mulheres nunca foram iguais entre si. Elizabeth não é Elinor, que não é Marianne, que não é Anne, que certamente não é Emma. Modernizá-las não significa fazê-las pensar como nós; significa descobrir por que ainda conseguimos reconhecê-las mesmo quando não pensam como nós.
É aí que a nova onda fica interessante. Netflix transformou aquela antiga tradição britânica do drama literário em produto global. O que antes podia ser uma minissérie da BBC exibida semanalmente para um público majoritariamente britânico agora chega simultaneamente a uma audiência gigantesca que conhece Darcy por memes, edits, TikTok, Bridgerton, pela versão de 2005 ou talvez nem tenha lido Austen ainda. O repertório continua; o palco aumentou.
E há uma diferença importante entre repetição e repertório. Repetição tenta reproduzir aquilo que já funcionou. Repertório parte do princípio de que uma obra comporta outras interpretações. Se o novo Orgulho e Preconceito tentar nos dar novamente Colin Firth saindo do lago ou Matthew Macfadyen flexionando a mão, provavelmente será apenas nostalgia. Se descobrir algo diferente sobre Darcy, Elizabeth, Mrs. Bennet, Charlotte Lucas ou mesmo Mr. Collins, então haverá motivo para voltarmos mais uma vez a Longbourn.
Talvez por isso a chegada simultânea de Orgulho e Preconceito e Razão e Sensibilidade provoque em mim muito menos cansaço do que curiosidade. Já sei como essas histórias terminam. Isso nunca foi o mais importante.

Quando uma nova adaptação de Jane Austen é anunciada, talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Não precisamos mais justificar por que Orgulho e Preconceito deve existir novamente, assim como ninguém exige que uma nova montagem de Hamlet prove que todas as anteriores perderam a validade. Austen conquistou algo muito mais raro do que permanecer popular durante dois séculos: virou repertório.
Suas histórias não são refeitas porque envelheceram. São refeitas porque nós envelhecemos, mudamos, nos apaixonamos de outras maneiras, passamos a enxergar coisas que antes não víamos e queremos voltar ao mesmo texto para saber o que ele nos dirá agora.
Jane Austen permanece ali. Nós é que nunca somos exatamente os mesmos.
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