É importante começar pelo que Reacher não é: uma série em crise. A quarta temporada termina com a quinta já garantida pelo Prime Video, e a Amazon renovou a produção antes mesmo da estreia dos episódios atuais. A temporada anterior havia alcançado 54,6 milhões de espectadores globalmente em seus primeiros 19 dias, segundo a própria plataforma, e a quarta voltou ocupando o primeiro lugar entre os programas de streaming acompanhados pela Samba TV nos Estados Unidos, posição que manteve também na semana seguinte. Portanto, qualquer discussão sobre desgaste precisa partir desse ponto: Reacher continua sendo um enorme sucesso.
Talvez seja justamente por isso que o problema tenha ficado mais interessante. Não é uma questão de audiência, nem de uma fórmula que deixou de funcionar comercialmente. É uma fórmula que funciona tão bem que começa a aprisionar a própria série.
Gostei muito da primeira temporada. A segunda, achei mediana. A terceira já me pareceu confusa, fantasiosa demais em alguns momentos, e a quarta reforçou uma sensação que venho tendo há algum tempo: Reacher funciona melhor quando a série é menor do que Reacher.

Na primeira temporada, havia algo quase de western naquela chegada a Margrave. Um estranho entra numa cidade pequena, percebe que alguma coisa está errada e começa a desmontar o sistema ao redor dele. Reacher já era gigantesco, absurdamente forte, mais inteligente do que quase todo mundo e capaz de entrar numa briga com a tranquilidade de quem já sabe como ela vai terminar, mas o mundo em torno dele ainda oferecia resistência. Havia Roscoe, Finlay, uma cidade, relações humanas, um mistério relativamente contido. A força de Reacher era um elemento dentro da história, não a história inteira.
Quanto maior ficou a série, mais exposta ficou a fantasia. Porque existe um problema inevitável quando se constrói um herói praticamente invulnerável: depois de algum tempo, precisamos acreditar que existe alguma possibilidade de ele perder. Não necessariamente morrer — ninguém espera isso —, mas errar, ser surpreendido, pagar um preço, encontrar alguém ou alguma situação que realmente o desestabilize. Quando cada nova temporada precisa criar adversários maiores, conspirações maiores, lutas maiores e ameaças aparentemente mais impossíveis apenas para acompanhar o tamanho de Reacher, acontece uma coisa curiosa: a ação aumenta, mas a tensão diminui. Sabemos que ele vai vencer. E essa certeza, que inicialmente fazia parte do prazer da série, começa a trabalhar contra ela.
A crítica continua bastante generosa com Reacher. A quarta temporada aparece neste momento com 94% de aprovação crítica no Rotten Tomatoes, enquanto a nota do público está em 68%, uma diferença que por si só não prova desgaste, mas é interessante. O consenso dos críticos praticamente celebra justamente aquilo que me incomoda: a série conhece sua fórmula e sabe executá-la. Sim, sabe. A questão é por quanto tempo conhecer perfeitamente uma fórmula é suficiente.
Também começo a sentir isso em Alan Ritchson, o que talvez seja injusto com o ator. Reacher exige dele quase sempre as mesmas ferramentas: o olhar fechado, a pausa antes da resposta, a frase econômica, o cálculo instantâneo, o movimento preciso e, finalmente, a violência devastadora. Na primeira temporada, tudo isso construía um personagem muito específico. Depois de quatro temporadas, corre o risco de parecer que o ator está no automático, quando talvez seja o personagem que tenha cada vez menos espaço para surpreendê-lo. E então, no exato dia em que Reacher encerra sua quarta temporada, o Prime Video lança os oito episódios de Neagley.

É uma decisão esperta da Amazon, mas também uma experiência narrativa interessante. Frances Neagley sempre funcionou muito bem ao lado de Reacher justamente porque não é Reacher. Maria Sten encontrou uma personagem seca, inteligente, eficiente e com características próprias, inclusive sua dificuldade com contato físico, mas Neagley sempre existiu em doses relativamente controladas. Agora ela precisa carregar uma série. E a pergunta muda completamente. Antes queríamos saber se Reacher sobreviveria à própria fórmula. Agora podemos descobrir se a fórmula sobrevive sem Reacher.
A recepção inicial de Neagley é boa. No dia da estreia, a primeira temporada aparece com 89% no Rotten Tomatoes, ainda com apenas 19 críticas contabilizadas, portanto, é uma fotografia muito inicial. O Guardian, que deu três estrelas à série, entendeu perfeitamente sua proposta: é praticamente uma hora de férias da vida real, feita de vilões, pancadas, deduções impossivelmente rápidas e aquela moralidade reconfortantemente simples na qual sabemos exatamente quem merece levar um soco. Isso pode funcionar muito bem. Mas também revela o risco.
Porque talvez Reacher nunca tenha criado exatamente um “universo”. Talvez tenha criado um personagem extraordinariamente eficiente dentro de uma estrutura que existe para servi-lo. E há uma diferença enorme entre as duas coisas.


Marvel pode retirar um herói e continuar explorando um mundo porque aquele mundo possui regras, instituições, conflitos e personagens que existem independentemente dele. Yellowstone, com todos os seus excessos, conseguiu criar uma mitologia familiar e territorial capaz de gerar outras histórias. Reacher, até agora, gira essencialmente em torno da entrada de um homem num problema, da capacidade quase sobrenatural desse homem de compreendê-lo e da satisfação de vê-lo destruir quem estava do lado errado. O que acontece quando tiramos o homem?
É por isso que Neagley me interessa mais como teste do que simplesmente como spin-off. Se funcionar apenas imitando Reacher, teremos uma versão ligeiramente diferente da mesma máquina. Se conseguir desenvolver aquilo que Reacher já quase não pode oferecer — vulnerabilidade, relações permanentes, consequências emocionais, a possibilidade genuína do erro — talvez descubra um caminho que a série original perdeu justamente porque seu protagonista ficou grande demais para o próprio mundo.
E existe uma ironia nisso tudo. O Prime Video está expandindo o universo Reacher justamente quando começa a ficar mais evidente o limite de sua fórmula. A quinta temporada já está assegurada, o público continua chegando, Alan Ritchson se tornou inseparável do personagem e ninguém precisa consertar comercialmente aquilo que continua funcionando tão bem. Criativamente, porém, a pergunta é outra. Por quanto tempo queremos assistir Reacher entrar numa sala sabendo que ele será o homem mais forte, mais inteligente e mais preparado que qualquer pessoa ali?
Talvez Neagley tenha chegado no momento perfeito para responder algo que a própria franquia ainda não sabe: se existe realmente um mundo de Reacher para explorar ou se, no fim das contas, tudo sempre dependeu de Reacher estar no meio dele.


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