O Assassinato de Roger Ackroyd faz 100 anos: o twist que elude as telas

Existe um conforto particular em abrir um livro de Agatha Christie. Sabemos, mais ou menos, o jogo que nos espera: alguém será assassinado, haverá um grupo relativamente limitado de suspeitos, todos terão alguma coisa a esconder, vários possuirão motivos perfeitamente plausíveis; e as pistas estarão diante de nós, misturadas a distrações colocadas com precisão para que olhemos na direção errada. Hercule Poirot fará perguntas que parecem irrelevantes, observará detalhes que ninguém mais percebeu e, no final, reorganizará tudo aquilo que já sabíamos até que a solução pareça, ao mesmo tempo, impossível e evidente.

Christie usou essa fórmula repetidamente durante décadas. A vítima, o círculo fechado de suspeitos, os segredos, os álibis, as falsas pistas, a investigação e a revelação final. Mudava o cenário — uma mansão, um vilarejo, um trem, um navio, um hotel — e mudavam os motivos, mas o prazer estava justamente em aceitar novamente as mesmas regras e tentar derrotá-la no próprio jogo. O extraordinário é que, mesmo depois de dezenas de assassinatos, ela ainda encontrava maneiras de nos surpreender. Sua genialidade não estava em abandonar a fórmula, mas em conhecê-la tão profundamente que podia movimentar uma única peça e transformar completamente o tabuleiro.

Poucos livros demonstram isso melhor do que O Assassinato de Roger Ackroyd, que completa 100 anos em 2026 e continua sendo uma das provas mais contundentes de como Agatha Christie era, e permanece, praticamente imbatível dentro do gênero que ajudou a definir.

Publicado em livro em junho de 1926, The Murder of Roger Ackroyd era apenas o terceiro romance protagonizado por Hercule Poirot e o primeiro de Christie lançado pela William Collins, dando início à longa relação da autora com a editora. A história já havia sido publicada em 54 partes no London Evening News, em 1925, com o título muito mais direto de Who Killed Ackroyd?. Foi o livro que mudou definitivamente o tamanho da carreira de Christie.

A trama começa da maneira mais clássica possível. Estamos em King’s Abbot, uma pequena comunidade inglesa onde todos sabem alguma coisa sobre todos. Mrs. Ferrars, uma viúva suspeita de ter envenenado o marido, morre aparentemente por suicídio. Antes disso, revela a Roger Ackroyd, homem com quem pretendia se casar, que alguém descobriu seu segredo e vinha chantageando-a. Ackroyd recebe uma carta que pode identificar o chantagista, mas não consegue terminar de lê-la. Naquela mesma noite, é encontrado morto em seu escritório.

Poirot está aposentado na região, tentando dedicar-se ao cultivo de abóboras, mas naturalmente acaba atraído pelo crime. Quem acompanha a investigação e nos conta tudo o que acontece é o médico da aldeia, Dr. James Sheppard, que ocupa uma posição extremamente familiar para qualquer leitor de romances policiais: está ao lado do detetive, presencia interrogatórios, registra pistas e funciona quase como um substituto de Hastings. E é aqui que preciso colocar o aviso inevitável: daqui em diante, este texto revela completamente o final de O Assassinato de Roger Ackroyd. Porque o assassino é James Sheppard.

Não é apenas um suspeito escondido entre os personagens. Não é alguém que aparece discretamente no início e retorna no final. O assassino é o homem que nos contou a história inteira.

Sheppard era quem chantageava Mrs. Ferrars e matou Ackroyd quando percebeu que sua identidade poderia ser revelada. O livro que acabamos de ler é, portanto, essencialmente seu próprio relato do crime e da investigação. E é justamente aí que está a genialidade de Christie: Sheppard não precisa passar centenas de páginas mentindo descaradamente para nós. Ele seleciona aquilo que conta, escolhe cuidadosamente como descreve determinados momentos e omite exatamente o necessário para construir uma versão verdadeira o bastante para parecer honesta. Quando Poirot finalmente revela o que aconteceu, Christie não está apenas expondo o assassino. Está mostrando ao leitor que ele participou da própria armadilha.

Nós confiamos em Sheppard porque conhecemos a convenção. Watson conta Sherlock Holmes. Hastings conta Poirot. O acompanhante do grande detetive existe para observar aquilo que nós também observamos e para não perceber aquilo que o gênio perceberá depois. Christie compreendeu que essa confiança era tão automática que poderia utilizá-la como o melhor álibi de todos.

É por isso que o livro provocou discussão quando apareceu. Houve críticos e leitores que acusaram Christie de não jogar limpo, porque fazer do narrador o assassino parecia violar o acordo implícito entre autora e público. Dorothy L. Sayers acabaria defendendo Christie com uma resposta que permanece perfeita: cabe ao leitor suspeitar de todos. O próprio site oficial da autora recorda a controvérsia em torno das regras do romance policial e a defesa de Sayers.

A reação da época, porém, foi mais complexa do que a lenda posterior de um escândalo crítico generalizado. O livro também foi amplamente elogiado e teve enorme sucesso. Com o passar do tempo, aquilo que alguns enxergaram como trapaça passou a ser reconhecido como uma das soluções mais brilhantes do romance policial. Hoje, Roger Ackroyd não é lembrado porque Christie quebrou o jogo, mas porque percebeu uma regra que ninguém havia pensado em questionar. O narrador não mente para nós; portanto, o narrador está do nosso lado. Será mesmo?

Há ainda uma camada que acho especialmente moderna em Roger Ackroyd. Esta não é apenas uma história sobre quem matou. É uma história sobre quem controla a narrativa. Sheppard tenta decidir o que será registrado, em que ordem, com quais palavras e quais lacunas. Ele não procura apenas esconder o crime; tenta determinar a versão do crime que sobreviverá. Um século depois, talvez essa questão seja ainda mais fascinante do que em 1926.

Curiosamente, porém, um dos livros mais famosos de Agatha Christie nunca ganhou no cinema e na televisão a sucessão de adaptações que poderíamos esperar. Assassinato no Expresso do Oriente e Morte no Nilo voltaram inúmeras vezes às telas. Roger Ackroyd, frequentemente colocado entre as maiores realizações da autora, permaneceu muito mais raro. A razão talvez esteja justamente no twist.

A primeira adaptação veio rapidamente, mas para o teatro. Michael Morton transformou o romance em Alibi, que estreou no West End em 1928, com Charles Laughton como Poirot, e permaneceu em cartaz por cerca de 250 apresentações. Christie não gostou de várias das mudanças feitas por Morton, experiência que ajudou a incentivá-la a escrever e adaptar suas próprias peças.

A peça chegou ao cinema em 1931, também como Alibi, dirigida por Leslie Hiscott e com Austin Trevor, o primeiro ator a interpretar Poirot nas telas. Era o primeiro filme sonoro baseado em uma obra de Agatha Christie. Mas a adaptação havia mudado a perspectiva da história e, com isso, retirado justamente o mecanismo que tornara o livro revolucionário.

No rádio, curiosamente, Roger Ackroyd encontrou um meio muito mais próximo de sua natureza literária. Em 1939, Orson Welles adaptou a história para uma peça radiofônica de uma hora e teve uma ideia deliciosa: interpretou tanto Hercule Poirot quanto o Dr. Sheppard. Décadas depois, a BBC Radio 4 faria nova adaptação. A voz permite preservar algo essencial do livro, porque continuamos dependentes da pessoa que escolheu como contar a história. Na televisão, a versão mais conhecida chegou apenas em 2000, dentro de Agatha Christie’s Poirot, com David Suchet como Poirot e Oliver Ford Davies como Sheppard. E é aqui que o problema fica ainda mais claro.

A adaptação mantém Sheppard como assassino, mas tira dele aquilo que torna a solução devastadora no livro: ele não é o narrador da história. Sua irmã descobre a verdade através do diário, e a revelação acontece sem que Poirot ou o próprio Sheppard estejam presentes. O crime permanece. O culpado permanece. Mas a experiência de ter confiado durante toda a história justamente no homem que a manipulava desaparece. É uma diferença enorme.

O verdadeiro twist de Roger Ackroyd não é simplesmente descobrir que “Sheppard matou”. É descobrir que passamos o romance inteiro permitindo ao assassino decidir aquilo que deveríamos saber. A literatura pode nos prender à voz dele sem que percebamos a armadilha. Uma câmera tem muito mais dificuldade para fazer isso. Se mostrar objetivamente aquilo que aconteceu, entrega demais. Se esconder artificialmente pode parecer que está trapaceando. Se elimina o ponto de vista de Sheppard, preserva o mistério sobre sua identidade, mas perde exatamente aquilo que tornou o romance extraordinário.

Talvez seja por isso que um dos livros mais famosos de Christie seja também um dos que o audiovisual nunca conseguiu reproduzir integralmente. As adaptações conseguiram contar a história. Nenhuma conseguiu nos fazer cair exatamente na mesma armadilha.

E agora existe uma coincidência interessante. Uma nova série de seis episódios sobre Poirot, Hercule, está em produção para a BBC e BritBox, com Edward Bluemel no papel do detetive e estreia prevista para 2027. A produção oficial informa que a série trabalhará com três histórias dos primeiros anos de Poirot e acompanhará sua relação inicial com Hastings e Japp. Os títulos ainda não foram anunciados.

Naturalmente, Roger Ackroyd já apareceu entre as especulações sobre quais histórias poderiam ser revisitadas, embora nada tenha sido confirmado e haja até uma dificuldade curiosa aí, porque o Poirot de Roger Ackroyd já está aposentado, enquanto a nova série aposta deliberadamente numa versão mais jovem do personagem. Ainda assim, seria quase irresistível imaginar alguém tentando novamente.

Um século depois de Christie construir uma das maiores armadilhas da literatura policial, talvez a questão já nem seja descobrir quem matou Roger Ackroyd. Nós sabemos. A verdadeira pergunta é se cinema ou televisão algum dia encontrarão uma linguagem capaz de fazer conosco aquilo que ela fez em 1926: permitir que confiemos completamente no assassino e só depois mostrar que todas as pistas estavam diante de nossos olhos.

Agatha Christie voltou inúmeras vezes aos mesmos elementos. Corpos em bibliotecas, famílias em guerra, heranças, adultérios, ressentimentos, venenos, álibis e comunidades em que todos parecem ter alguma coisa a esconder. A fórmula era simples o suficiente para ser reconhecida e sólida o suficiente para ser repetida. Mas ela nunca confundiu fórmula com automatismo. Em Roger Ackroyd, bastou deslocar uma peça. E a peça éramos nós.

Cem anos depois, conhecemos o truque, sabemos quem é o assassino e vivemos cercados por narradores não confiáveis em livros, filmes e séries que vieram depois. Ainda assim, voltar ao romance continua sendo fascinante, porque uma grande reviravolta não depende apenas de nos surpreender uma vez. Quando o choque desaparece, a construção precisa continuar de pé.

A de Agatha Christie continua. Talvez essa seja, afinal, a melhor medida de sua genialidade.


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