Quando duas versões opostas podem ser verdade?

Em Dom Casmurro, Machado de Assis constrói uma das narrativas mais fascinantes da literatura justamente porque nunca nos oferece uma verdade fora da memória de quem conta a história. Bentinho, já velho, decide reconstruir a própria vida e o casamento com Capitu, a menina de “olhos de ressaca” por quem se apaixonou ainda adolescente. No centro de tudo está a suspeita de que ela o teria traído com Escobar, seu melhor amigo, e de que Ezequiel, o filho do casal, talvez não fosse seu.

Mas a certeza de Bentinho não nasce de uma confissão, de uma carta encontrada ou de qualquer prova objetiva. Ela se organiza aos poucos e encontra um ponto de virada devastador no funeral de Escobar.

Diante do caixão do amigo, Bentinho observa Capitu. Ela olha para o morto com uma intensidade que ele considera excessiva, uma fração de tempo de tristeza que, para ele, parece revelar muito mais do que luto. É um olhar. Só isso. Mas, a partir daquele instante, tudo muda.

E não muda apenas aquilo que acontecerá depois. Muda também aquilo que aconteceu antes. Gestos antigos, conversas que até então pareciam banais, proximidades nunca questionadas e, mais tarde, até características físicas do próprio filho começam a adquirir outro significado. Bentinho volta ao passado já carregando uma suspeita e passa a reorganizar sua história a partir dela. Capitu deixa de ser apenas a mulher de quem ele se lembrava antes daquele funeral porque todas as memórias passam agora pelo homem que acredita ter descoberto alguma coisa naquele olhar.

É uma das razões pelas quais considero Dom Casmurro um dos livros mais brilhantes já escritos. Cada vez que o releio, chego a uma conclusão diferente. Há leituras em que Bentinho me convence mais; em outras, o que vejo sobretudo é o ciúme, a insegurança, a necessidade de encontrar retrospectivamente provas para aquilo de que ele já está convencido no presente. E Machado tem a genialidade de nunca aparecer para resolver o problema por nós.

Não há uma câmera escondida no funeral de Escobar. Não temos acesso à consciência de Capitu. Não existe um narrador neutro que interrompa Bentinho para avisar: aqui ele está certo, aqui está interpretando, aqui esqueceu, aqui exagerou.

Temos um homem tentando reconstruir, décadas depois, a própria vida. E talvez seja por isso que a pergunta que atravessa gerações — Capitu traiu ou não traiu Bentinho? — seja menos interessante do que outra. Bentinho está mentindo? Não necessariamente. Ele pode estar contando com absoluta sinceridade aquilo em que passou a acreditar.

Essa diferença é fundamental porque costumamos usar “verdade” e “mentira” como se fossem as únicas possibilidades disponíveis para compreender relatos contraditórios. Se duas pessoas contam versões opostas do mesmo acontecimento, nossa tendência é procurar imediatamente quem está dizendo a verdade e quem está mentindo. Mas a psicanálise introduz um problema bem mais complicado: uma lembrança pode estar errada sem ser uma mentira.

Mentir pressupõe, em princípio, intenção de enganar. Quem mente sabe, ou acredita saber, que uma coisa aconteceu de determinada maneira e deliberadamente apresenta outra versão. A memória não precisa desse mecanismo. Posso contar uma história factualmente incorreta e estar absolutamente convencida de que estou sendo fiel ao que vivi.

Isso não transforma fatos em algo relativo. Se uma frase foi pronunciada ou não, se alguém estava numa sala ou não estava, se uma agressão ocorreu ou não ocorreu, existe uma realidade material que independe de nossas interpretações. Duas proposições factuais mutuamente excludentes não se tornam simultaneamente verdadeiras só porque duas pessoas acreditam nelas.

O que a psicanálise acrescenta é que entre o acontecimento e a lembrança existe um sujeito. Sendo que o sujeito não é isento.

Freud percebeu muito cedo que recordar não significava simplesmente abrir uma espécie de arquivo interno e recuperar uma cena preservada intacta. Em seu texto sobre as lembranças encobridoras, de 1899, mostrou como certas memórias aparentemente banais podem permanecer extraordinariamente nítidas porque estão associadas a outros conteúdos emocionalmente significativos. A memória não é selecionada apenas pela importância objetiva do acontecimento; desejo, conflito e defesa também participam daquilo que permanece acessível.

Mais tarde, a distinção entre realidade material e realidade psíquica se tornaria central. Uma coisa é perguntar o que aconteceu no mundo externo. Outra é perguntar como aquilo foi vivido, interpretado e incorporado à vida interna do indivíduo. As duas perguntas não são iguais. Um pai pode recordar determinada decisão como uma tentativa de proteger o filho. O filho pode recordar exatamente a mesma cena como abandono. A intenção do pai não torna automaticamente falso o sofrimento do filho, assim como o sofrimento do filho não prova que o pai deliberadamente quis abandoná-lo. Há um acontecimento externo. Mas há dois sujeitos atribuindo sentido a ele.

Freud oferece ainda outro conceito extraordinariamente útil para entender Bentinho: Nachträglichkeit, frequentemente traduzida como posterioridade, ação diferida ou ressignificação a posteriori. Certos acontecimentos adquirem um significado novo depois que experiências posteriores oferecem ao sujeito instrumentos diferentes para compreendê-los. O passado não muda. O sentido do passado, sim.

É exatamente o que Machado faz no funeral de Escobar. O olhar de Capitu não muda as conversas que Bentinho teve com ela cinco anos antes. Mas muda a interpretação dessas conversas. Um gesto que antes significava uma coisa pode agora parecer prova de outra. O passado continua no mesmo lugar; Bentinho é que voltou até ele carregando uma informação, uma suspeita e um afeto que não possuía quando aquele passado era presente. O passado não se altera. O que pode se alterar inúmeras vezes é o lugar a partir do qual voltamos a olhá-lo.

Jung chegou a um problema semelhante por outro caminho. Seus experimentos de associação de palavras ajudaram a desenvolver sua teoria dos complexos, núcleos carregados de afeto capazes de interferir na percepção, nas associações, nas reações e na maneira como determinadas experiências são organizadas. A teoria dos complexos continua sendo um dos pilares da psicologia analítica.

Quando um complexo é ativado, não enxergamos necessariamente uma situação com a mesma disponibilidade psíquica com que observaríamos algo emocionalmente indiferente. Determinados temas ganham peso, certas palavras nos atingem mais, algumas lembranças aparecem antes de outras.

Pense em duas pessoas dentro de um relacionamento. Uma carrega uma história marcada por abandono. A outra, uma história na qual se sentiu constantemente acusada e injustiçada. Uma demora de algumas horas para responder a uma mensagem pode ativar, na primeira, a certeza de que novamente está sendo abandonada. Na segunda, qualquer cobrança pode imediatamente ser experimentada como prova de que está mais uma vez diante de alguém que não confia nela. O fato externo é minúsculo: houve uma demora na resposta. As experiências internas podem ser enormes. Nenhuma dessas experiências precisa ter sido inventada. Mas também não podemos concluir, apenas porque foram sentidas intensamente, que descrevem com precisão a intenção do outro.

É aqui que a família real britânica oferece um exemplo quase didático. Charles Spencer acaba de escrever Canto do Cisne: Diana, Minha Irmã, livro que será lançado em 22 de setembro, quase trinta anos depois da morte da princesa. Nele, o irmão de Diana reconstrói não apenas a infância dos dois e sua relação com a irmã, mas os dias que sucederam o acidente em Paris, incluindo as tensões sobre o funeral. Entre as revelações que provocaram maior repercussão está sua afirmação de que, durante uma discussão sobre William e Harry caminharem atrás do caixão da mãe, o então príncipe Charles teria dito a ele algo próximo de “fique tranquilo, nós a esqueceremos em breve”.

Buckingham Palace fez algo raro: respondeu. Mas a resposta é psicologicamente muito mais interessante do que um simples “isso é mentira”. O Palácio afirmou que o rei está consciente de que “the pain of fraternal grief can cloud reason, affect judgment and colour memory” — que a dor do luto de um irmão pode obscurecer a razão, afetar o julgamento e colorir a memória, inclusive muitos anos depois de uma perda. É uma maneira sofisticada de contestar Spencer porque não o chama exatamente de mentiroso. Questiona a confiabilidade do narrador. E não é a primeira vez que a monarquia britânica responde assim.

Quando Harry e Meghan fizeram uma série de acusações sobre a vida dentro da família real na entrevista a Oprah Winfrey, em 2021, a rainha Elizabeth II respondeu com uma frase que se tornaria histórica: “Some recollections may vary”. Algumas lembranças podem variar. As questões levantadas eram sérias, dizia o comunicado, mas havia outras recordações dos acontecimentos.

Psicanaliticamente, é uma frase extraordinária. Também pode ser uma arma. Porque se o luto de Charles Spencer pode colorir sua memória, o luto dos filhos também pode colorir a deles. O de Charles igualmente. Ressentimento interfere. Culpa interfere. Amor interfere. A necessidade de preservar uma determinada imagem da pessoa que morreu interfere. A necessidade de preservar a própria imagem interfere. E aí surge um risco importante: usar a existência da realidade psíquica para apagar a realidade material. É justamente nesse ponto que Ferenczi se torna indispensável.

Sándor Ferenczi deu uma importância decisiva à realidade do trauma e ao que chamou de desmentido: não apenas algo acontece ao sujeito, mas aquilo que ele viveu pode posteriormente ser negado ou invalidado por alguém de quem depende. Em seus trabalhos sobre trauma, especialmente Confusão de línguas entre os adultos e a criança, Ferenczi insistiu na importância de não reduzir automaticamente acontecimentos traumáticos concretos a fantasias internas. Isso estabelece um limite essencial.

Dizer que existe verdade psíquica não significa dizer que “cada um tem sua verdade” e, portanto, nada pode ser estabelecido. Uma agressão não deixa de ter acontecido porque o agressor construiu para si uma narrativa na qual estava apenas “educando”. Uma criança abusada não deixa de ter sido abusada porque o adulto apresenta outra interpretação. Uma gravação, um documento, uma mensagem ou uma testemunha pode estabelecer fatos independentemente das memórias envolvidas. A psicanálise não substitui investigação, história ou justiça. Mas também não pode ignorar que, mesmo quando o fato está estabelecido, duas pessoas podem tê-lo vivido de maneiras radicalmente diferentes.

Voltamos então à pergunta inicial: duas versões opostas podem ser verdadeiras? Materialmente, não necessariamente. Psiquicamente, sim. E existe ainda uma terceira possibilidade: podem estar ambas erradas no plano factual.

Uma família inteira pode repetir durante décadas que “sempre fomos muito unidos”, enquanto seus membros guardam lembranças de silêncios, rupturas e ressentimentos. Outra família pode construir a narrativa de que determinado pai “nunca demonstrava amor”, embora existam inúmeros gestos de cuidado que simplesmente não correspondiam à forma como os filhos desejavam recebê-lo. Famílias constroem mitos sobre si mesmas. Indivíduos também. E repetição não transforma automaticamente uma versão em fato. Pode apenas torná-la mais familiar.

O cinema talvez tenha criado sua representação definitiva disso em Rashomon, de Akira Kurosawa. O mesmo acontecimento é contado de diferentes maneiras por diferentes personagens. As versões não se limitam a discordar em pequenos detalhes; cada narrador reorganiza os fatos de uma forma que preserva alguma coisa sobre si mesmo.

O chamado “efeito Rashomon” tornou-se justamente uma maneira de descrever situações nas quais testemunhos contraditórios surgem a partir de um mesmo evento. O genial no filme é que a pergunta não permanece apenas “Qual deles está contando a verdade?”. Passamos a observar também por que cada personagem precisa contar aquela história daquela maneira.

Ridley Scott faz algo semelhante em O Último Duelo, baseado no caso histórico de Marguerite de Carrouges. O filme retorna aos mesmos acontecimentos através de perspectivas distintas, e pequenas alterações transformam completamente o significado de uma cena. Aquilo que um homem interpreta como sedução é experimentado por uma mulher como ameaça. O evento compartilhado não significa experiência compartilhada.

E a literatura talvez faça isso ainda melhor porque nos coloca diretamente dentro da cabeça de quem narra.

Kazuo Ishiguro constrói Os Vestígios do Dia ao redor de Stevens, um mordomo que reconstrói a própria vida acreditando ter dedicado tudo a um grande ideal de serviço. Aos poucos, entretanto, suas lembranças revelam também aquilo que ele precisou não enxergar sobre o homem a quem serviu, sobre seus próprios afetos e sobre Miss Kenton. Ele não precisa estar mentindo para nós. Em muitos momentos, parece estar mentindo sobretudo para si mesmo.

Em Reparação, Ian McEwan torna a própria narrativa uma tentativa de voltar ao passado e reorganizar aquilo que já não pode ser corrigido na realidade. Contar uma história se transforma numa forma de reparação justamente porque a vida não oferece a mesma possibilidade de reescrever.

E voltamos a Bentinho. Talvez ele realmente tenha visto alguma coisa naquele olhar de Capitu ou talvez tenha visto aquilo que precisava ver. Talvez Capitu tenha amado Escobar ou talvez tenha apenas chorado um amigo. Talvez as suspeitas anteriores de Bentinho tenham tornado aquele instante inevitavelmente suspeito. Talvez o olhar tenha sido apenas o detonador de algo que já existia dentro dele. Machado nunca nos permite saber.

Mas nos permite observar outra coisa muito mais preciosa: como uma lembrança se transforma em narrativa e como uma narrativa, repetida durante décadas, pode se transformar na história que contamos para explicar quem somos. É também parte do trabalho analítico.

Em Construções em análise, Freud já não trabalha com a ideia simplista de que o analista seria apenas um arqueólogo capaz de desenterrar intacto um passado soterrado. A análise constrói hipóteses a partir de fragmentos, repetições, afetos, associações e lacunas. A reconstrução pode se aproximar de uma verdade histórica, mas seu valor está também naquilo que revela sobre a organização psíquica do sujeito. A discussão posterior da psicanálise continuaria justamente em torno dessa tensão entre realidade, construção e verdade.

Por isso, diante de um paciente que conta uma lembrança, a primeira função do analista não é agir como juiz de instrução. Pode haver momentos em que seja importante saber se algo efetivamente aconteceu, especialmente quando estamos diante de violência e trauma. Mas em grande parte do trabalho clínico outra pergunta também importa: por que essa lembrança permaneceu? Por que esse detalhe e não outro? O que essa história explica sobre a pessoa que o paciente acredita ser? Quem precisa permanecer culpado dentro dela? Quem precisa continuar idealizado? O que aconteceria se outra interpretação se tornasse possível?

Há ainda uma diferença importante entre lembrar errado e narrar de forma enganosa. Podemos recordar incorretamente sem intenção alguma de enganar. Também podemos relatar apenas fatos verdadeiros e, escolhendo cuidadosamente quais fatos contar e quais omitir, construir uma narrativa profundamente enganosa. O sujeito não é apenas aquilo de que se lembra. É também aquilo que seleciona para contar.

É por isso que nenhum narrador é completamente isento, seja Bentinho, Charles Spencer, Harry, o rei Charles, um personagem de Kurosawa ou qualquer um de nós. Cada narrador escolhe um ponto de início. Decide qual detalhe merece atenção. Lembra determinadas frases e esquece outras. Conhece o final da história enquanto reconstrói o começo. E, sobretudo, conta o passado a partir da pessoa em que se transformou depois dele.

Talvez essa seja a dificuldade de transformar memória em binário. Fatos podem exigir respostas binárias. A pessoa estava ou não estava naquele local. Uma mensagem foi ou não enviada. Uma frase registrada foi ou não pronunciada. A experiência humana raramente obedece à mesma simplicidade.

Duas pessoas podem estar sinceramente convencidas de histórias incompatíveis. Uma delas pode estar factualmente mais próxima do que aconteceu. As duas podem ter modificado detalhes. Uma pode estar mentindo. Ambas podem estar erradas. E as duas ainda podem carregar verdades psíquicas importantes sobre o que aquele acontecimento representou em suas vidas.

A clínica não precisa escolher entre acreditar em tudo e acreditar em nada. Precisa suportar essa complexidade. Porque talvez a pergunta mais fértil não seja apenas “qual versão é verdadeira?”, mas também “o que faz com que esta seja a versão que você consegue contar?”

Machado compreendeu isso muito antes de termos tantos nomes para explicar o processo. Deu a palavra a Bentinho e retirou de nós o conforto da testemunha imparcial. Mais de um século depois, continuamos discutindo Capitu.

E, cada vez que voltamos ao livro e chegamos a uma conclusão diferente, talvez Machado esteja nos lembrando de uma coisa desconfortável também sobre nós: não é apenas Bentinho que muda quando olha para o passado. Nós mudamos. E quando mudamos, aquilo que encontramos nele também pode mudar.


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