Há livros que se tornam maiores do que seus autores gostariam e há aqueles que os próprios autores escrevem já convencidos de que chegaram, finalmente, ao lugar para o qual toda a obra anterior os estava levando. A Leste do Éden pertence à segunda categoria. Publicado em 19 de setembro de 1952, quando John Steinbeck tinha 50 anos, o romance que hoje conhecemos como uma de suas obras essenciais foi escrito por ele quase como um acerto de contas consigo mesmo. Não era apenas mais um livro: era, em suas palavras, “the book”, aquele que estivera esperando a vida inteira para escrever.
É uma declaração impressionante vinda de alguém que já havia escrito Ratos e Homens e As Vinhas da Ira. Steinbeck não estava tentando superar um início de carreira promissor, mas uma obra que já o colocara entre os grandes escritores americanos de seu tempo. Ainda assim, considerava tudo o que viera antes uma espécie de preparação. Quando terminou A Leste do Éden, escreveu que era o trabalho mais longo e difícil que já havia feito e que colocara nele tudo o que quisera escrever durante a vida. Se aquele livro não fosse bom, admitia, talvez tivesse se enganado sobre si mesmo o tempo todo.
Talvez seja justamente por isso que A Leste do Éden tenha tanta coisa dentro dele. É uma saga familiar, uma releitura de Caim e Abel, uma discussão sobre bem e mal, herança e escolha, mas também é memória. Steinbeck começou a desenvolver a ideia anos antes e pretendia contar aos filhos, John e Thom, quem eram seus antepassados e como era o Vale de Salinas onde ele próprio crescera. Os Hamilton do romance são inspirados em sua família materna; os Trask pertencem à ficção e carregam de maneira mais evidente a estrutura bíblica que percorre a história. Para Steinbeck, seriam quase dois livros convivendo dentro do mesmo livro: “a história do meu país e a história de mim”.
É também uma chave interessante para voltar ao romance depois de tantas adaptações, especialmente porque cinema e televisão inevitavelmente nos ensinaram a enxergar A Leste do Éden pelos Trask. Cathy Ames é uma personagem tão perturbadora que praticamente sequestra qualquer discussão sobre o livro, enquanto o filme de Elia Kazan, de 1955, transformou Cal Trask e James Dean numa das imagens definitivas do cinema americano. Só que o livro que Steinbeck queria escrever era muito maior do que qualquer um deles.
Era, inclusive, maior do que sua própria trama.

Durante a escrita, Steinbeck trabalhava em um grande caderno que recebera de seu editor e amigo Pascal Covici. Antes de começar as páginas do romance a cada dia, escrevia uma espécie de carta para Covici do lado esquerdo e, depois, avançava o livro do lado direito. Essas anotações acabariam publicadas postumamente, em 1969, como Journal of a Novel: The East of Eden Letters, e deixam claro o tamanho da expectativa que ele colocava no projeto. Não estamos vendo apenas um escritor construir personagens, mas alguém tentando entender o que queria deixar para os filhos, o que lembrava de sua família e até o que acreditava sobre a natureza humana.
Talvez por isso seja ainda mais fascinante voltar à recepção de 1952, porque a consagração que hoje parece tão natural não aconteceu exatamente daquela maneira.
Os leitores responderam imediatamente. Em novembro, apenas dois meses depois do lançamento, A Leste do Éden já havia chegado ao primeiro lugar da lista de ficção mais vendida do New York Times. Steinbeck dizia receber uma quantidade enorme de cartas e se impressionava porque as pessoas escreviam sobre a história quase como se também lhes pertencesse.
Os críticos foram bem mais complicados.
No próprio dia do lançamento, o crítico Orville Prescott, do New York Times, reconheceu a dimensão da tentativa de Steinbeck, mas atacou sua estrutura, o melodrama e aquilo que considerava sensacionalismo excessivo. Ainda assim, admitiu que se tratava de uma tentativa séria e, no conjunto, bem-sucedida de enfrentar um grande tema. Dois dias depois, no New York Times Book Review, Mark Schorer também apontava sentimentalismo, melodrama e contradições, embora enxergasse justamente na liberdade narrativa de Steinbeck uma das forças do romance.
Outros foram muito menos generosos. Anthony West, na The New Yorker, dedicou boa parte de sua resenha a ridicularizar a prosa e algumas das imagens utilizadas pelo escritor. A TIME abriu sua crítica revisitando a carreira de Steinbeck de maneira quase brutal, classificando obras anteriores com expressões nada lisonjeiras antes de acusar A Leste do Éden de se perder entre seus muitos excessos.
Mas nem toda a recepção crítica foi negativa. A Kirkus viu desde o início um romance enorme em alcance e profundidade, destacando justamente a questão que atravessa toda a obra: até que ponto somos determinados pelo que herdamos e até que ponto podemos escolher quem seremos. O Washington Post chegou a publicar uma crítica intitulada “East of Eden Steinbeck’s Best”. Portanto, talvez seja injusto repetir a versão mais simples de que os críticos rejeitaram o livro e o tempo provou que estavam errados. A reação foi dividida — e é exatamente isso que a torna interessante.
Porque muitas das características apontadas como defeitos em 1952 continuam perfeitamente visíveis. A Leste do Éden é enorme, irregular, por vezes melodramático e nada discreto em suas referências bíblicas. Steinbeck não parece particularmente preocupado em esconder o que está discutindo. Caim e Abel estão por toda parte, assim como a pergunta que realmente lhe interessa: recebemos uma história, uma família, uma herança e até uma tendência à repetição, mas isso significa que estamos condenados a cumpri-las?

É aí que entra a ideia de timshel, talvez a palavra mais importante do romance: “tu podes”. Para Steinbeck, a grande possibilidade humana está na escolha. Não importa apenas de onde viemos ou aquilo que fizeram antes de nós; existe sempre, ainda que difícil e imperfeitamente, a possibilidade de escolher outro caminho.
E talvez seja por isso que A Leste do Éden tenha sobrevivido tão bem ao próprio excesso. Steinbeck não estava interessado em escrever um romance pequeno, disciplinado ou elegante. Queria colocar ali sua família e a família inventada, Salinas e a Bíblia, infância e culpa, pais e filhos, amor e rejeição, memória e mito. Queria explicar aos filhos de onde eles vinham e, ao mesmo tempo, discutir se alguém realmente precisa permanecer preso ao lugar de onde veio.
Há uma imagem especialmente bonita para entender tudo isso. Steinbeck fez para Pascal Covici uma caixa de madeira destinada ao manuscrito. Na dedicatória, imaginou o que poderia colocar dentro dela e enumerou aquilo que tinha: dor, entusiasmo, pensamentos bons e ruins, prazer, desespero, gratidão e amor. Depois de depositar tudo, concluiu que a caixa ainda não estava cheia.
Talvez A Leste do Éden também seja isso. Um escritor tentando colocar uma vida inteira dentro de um livro e descobrindo que, mesmo depois de mais de 600 páginas, ainda sobrava espaço.
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