Jack Lowden: Slow Horses, 007 e o verdadeiro teste de Mr. Darcy

Que James Bond que nada. Enquanto boa parte da conversa em torno de Jack Lowden continua girando em torno da possibilidade de o ator de Slow Horses assumir um dia o smoking de 007, há um teste muito mais imediato — e talvez até mais cruel — à sua frente. Quando a nova adaptação de Orgulho e Preconceito chegar à Netflix, Lowden terá de convencer o público de que pode ser Mr. Darcy. E, para isso, não basta ser bom. Ele entra numa disputa contra algumas das interpretações mais queridas de um dos personagens masculinos mais famosos da literatura.

Bond, afinal, já sobreviveu a seis rostos diferentes no cinema. A própria franquia aprendeu a incorporar a troca de ator à sua mitologia: muda o homem, muda o tom, muda a época e seguimos em frente. Darcy é diferente. Cada ator que assume o papel precisa enfrentar não apenas Jane Austen, mas a memória afetiva de quem veio antes.

Laurence Olivier, em 1940, fez talvez o Darcy mais teatral e afetado, ainda marcado pela tradição de atuação daquele período. Colin Firth, na minissérie da BBC de 1995, transformou arrogância, contenção e desconforto social em sex appeal e ficou eternamente associado a uma camisa branca molhada que Jane Austen jamais escreveu. Matthew Macfadyen, no filme de 2005, encontrou outra chave: um Darcy mais vulnerável, tímido e assumidamente romântico, que acabou conquistando uma geração inteira. Lowden precisa encontrar uma quarta possibilidade sem parecer cópia de nenhuma das três.

E é justamente aí que a história começa a ficar interessante.

No diário das filmagens escrito pela roteirista Dolly Alderton para a British Vogue, Lowden aparece fazendo uma pergunta aparentemente simples: por que Elizabeth Bennet se sente atraída por Darcy? Alderton responde que ele é um homem capaz, de ações mais do que palavras, e o ator imediatamente questiona essa explicação lembrando que Darcy tem criados para fazer praticamente tudo por ele. É uma ótima pergunta porque revela que Lowden não parece partir da premissa de que Darcy é irresistível simplesmente porque todos sabemos que ele é Mr. Darcy. Ele está procurando o que existe naquele homem que justifique a atração de Elizabeth.

Poucos dias depois, Alderton registra um problema ainda mais revelador. Darcy é um papel dificílimo justamente porque passa enorme parte da história fechado, soturno, observando, pensando ou simplesmente olhando em silêncio pela janela de uma carruagem. Ela descreve boa parte do primeiro mês de Lowden como uma atuação praticamente muda, construída inteiramente sobre pensamentos que o personagem não verbaliza. Mais tarde, durante outras filmagens, o problema reaparece: o ator precisa parecer intrigado, incomodado, interessado ou encantado sem ganhar necessariamente uma fala para explicar ao público o que está acontecendo.

Darcy precisa dizer tudo sem dizer nada.

Esse talvez seja o verdadeiro teste de Jack Lowden. O espectador precisa perceber que Darcy está olhando para Elizabeth antes que Elizabeth compreenda a importância daquele olhar. Precisa enxergar atração, resistência, orgulho, desconforto e, depois da primeira proposta desastrosa, uma transformação real. Austen consegue nos conduzir por esse processo dentro da literatura. A câmera não. Na tela, tudo precisa existir no rosto e no corpo do ator, mas sem exagero, porque um Darcy excessivamente expressivo deixa rapidamente de ser Darcy.

Nesse sentido, Slow Horses pode ter sido uma excelente escola. River Cartwright está muito longe de Fitzwilliam Darcy, mas Lowden passou anos interpretando um homem que sente muito mais do que consegue organizar ou dizer. River é impulsivo, orgulhoso, emocionalmente pouco articulado e permanentemente tentando provar alguma coisa, seja para o MI5, para Jackson Lamb, para o avô ou para si mesmo. Boa parte do personagem vive justamente no intervalo entre a imagem que ele tenta projetar e aquilo que realmente sente.

Lowden aprendeu, portanto, a deixar frustração, medo, afeto, ressentimento e vulnerabilidade aparecerem por baixo da ação. Mas Slow Horses nunca exigiu dele exatamente aquilo que Darcy exige: transformar contenção em desejo.

E é por isso que a comparação com James Bond fica tão divertida.

Lowden já demonstrou em Slow Horses que sabe correr, lutar, perseguir inimigos, empunhar uma arma e permanecer convincente no meio do caos da espionagem britânica. É fácil entender por que seu nome aparece repetidamente associado a 007. River Cartwright praticamente funciona como um longo treinamento para certas exigências físicas e dramáticas de Bond, embora seja, felizmente, um espião muito menos perfeito.

Darcy apresenta outro problema. Ele precisa entrar numa sala e mudar a temperatura dela sem necessariamente fazer nada.

Há ainda uma coincidência deliciosa nessa discussão. Uma das cenas tradicionalmente usadas nos testes para James Bond é retirada de From Russia With Love, quando 007 encontra Tatiana Romanova esperando por ele na cama. Daniel Craig e outros candidatos a Bond passaram por ela porque a sequência exige exatamente uma combinação difícil de segurança, humor, ameaça e sedução. É um teste para descobrir se um ator consegue ser sexualmente convincente sem parecer que está tentando demais.

De certa maneira, Darcy exige a mesma coisa, mas retira praticamente todas as ferramentas.

A própria British Vogue brincou ao apresentar Lowden caracterizado, dizendo que seu Darcy poderia funcionar como uma espécie de audição do século 19 para Bond. Talvez seja justamente o contrário. Depois de tantos anos como River Cartwright, 007 não parece ser o personagem sobre o qual ainda temos grandes dúvidas. Darcy é.

Porque Colin Firth conseguiu transformar repressão emocional em desejo. Matthew Macfadyen fez uma flexão quase imperceptível da mão se tornar uma das imagens românticas mais lembradas do cinema recente. São interpretações construídas justamente nos pequenos gestos, nos silêncios e naquilo que nunca é dito diretamente.

Agora Jack Lowden terá de descobrir o seu gesto. James Bond pode provar que ele sabe seduzir com uma arma na mão. Mr. Darcy terá de provar que consegue fazer exatamente a mesma coisa olhando pela janela.


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