Há cancelamentos que são fáceis de entender. Uma série custa caro demais, ninguém assiste, a crítica detesta, o público abandona antes do final. E há Ride or Die, que conseguiu tornar sua não renovação pelo Prime Video muito mais interessante do que provavelmente a própria Amazon gostaria. Porque a série estrelada por Hannah Waddingham e Octavia Spencer teve audiência, teve crítica, teve público e, segundo a Deadline, ainda terminou abaixo do orçamento. Mesmo assim, acabou.
Ou talvez não tenha acabado definitivamente, porque a Paramount Television Studios está oferecendo a produção a outras plataformas. Mas a decisão do Prime Video levanta uma pergunta que vai muito além de Ride or Die: existe um limite de idade para o protagonismo no streaming?

A série estreou discretamente, com uma campanha de marketing muito menor do que aquela que a Amazon reservou para suas produções voltadas ao público jovem, e surpreendeu. Chegou ao primeiro lugar nos Estados Unidos, liderou minutos assistidos segundo a Luminate, entrou no Top 10 da Nielsen e permaneceu durante semanas entre os títulos mais vistos globalmente do Prime Video. No Rotten Tomatoes, chegou a 96% de aprovação entre os críticos e 85% entre o público.
Nada disso garantiu uma segunda temporada.
A parte realmente desconfortável da história aparece na explicação ouvida pela Deadline, que não é uma justificativa oficial da Amazon e deve ser tratada exatamente assim: como informação de fontes da publicação. Segundo elas, o problema pode ter sido justamente o público que Ride or Die conquistou. Mulheres de meia-idade já seriam, em grande número, assinantes do Amazon Prime por causa das compras e, portanto, uma série que fala especialmente com elas teria menor capacidade de trazer novos clientes para a plataforma.
É uma lógica comercial compreensível no papel e bastante perturbadora quando colocada em prática. Uma mulher de 50 ou 60 anos pode pagar sua assinatura, assistir a uma série, terminá-la, gostar dela e recomendá-la. Mas, se já é cliente, talvez valha menos na matemática de aquisição do streaming do que alguém que ainda precisa ser convencido a assinar.
É difícil não pensar em etarismo.
Principalmente porque Ride or Die não está sozinha.
Poucos meses antes, a Netflix cancelou The Boroughs, produzida pelos irmãos Matt e Ross Duffer, os criadores de Stranger Things. A série fazia quase uma provocação à própria fórmula que tornou os dois famosos: no lugar de adolescentes enfrentando monstros e fenômenos sobrenaturais, colocou um grupo de moradores de uma comunidade de aposentados diante de uma ameaça inexplicável. Alfred Molina, Alfre Woodard, Geena Davis, Clarke Peters e Denis O’Hare estavam entre os nomes do elenco.

The Boroughs atraiu quase 19 milhões de visualizações em seus primeiros 18 dias. O custo elevado de uma produção de ficção científica com efeitos especiais foi apontado como um dos fatores que pesaram contra a renovação, portanto seria simplista afirmar que a Netflix cancelou a série porque seus protagonistas eram idosos. Mas também seria ingênuo ignorar a coincidência: uma produção criada para colocar pessoas mais velhas no centro da aventura teve apenas uma temporada, embora seus roteiristas já trabalhassem numa história pensada para continuar.
E talvez a palavra mais importante aqui seja justamente centro.
Pessoas mais velhas nunca desapareceram completamente da televisão ou do cinema. Elas podem ser pais, mães, avós, chefes, mentores, políticos, vilões, vizinhos excêntricos. Podem até ganhar personagens maravilhosos. A dificuldade parece surgir quando deixam de orbitar personagens mais jovens e passam a reivindicar a história para si.
Isso se torna ainda mais evidente quando acrescentamos gênero à equação.
Homens conseguem furar essa bolha com uma facilidade que mulheres raramente encontram. Tom Cruise tem 64 anos e continua sendo apresentado sem qualquer constrangimento como astro de ação e protagonista de grandes produções. Brad Pitt tem 62 e continua podendo ser galã, herói, anti-herói ou centro de um blockbuster. Eles já têm idade para serem avôs, mas ninguém exige que seus personagens passem a existir como “homens idosos”. Continuam simplesmente sendo Tom Cruise e Brad Pitt.
Entre as mulheres, os exemplos começam a exigir explicações.


Meryl Streep, aos 77, obviamente continua trabalhando, mas não acho que possa ser usada como demonstração de igualdade. Meryl pertence há décadas a uma categoria especial, ligada ao prestígio, aos prêmios e à própria ideia de excelência artística. É quase uma instituição cultural. Sua sobrevivência profissional não prova que as regras sejam as mesmas para todas as outras mulheres.
Nicole Kidman ainda nem chegou aos 60 — tem 59 — e talvez seja um dos casos mais fascinantes justamente porque trabalha quase compulsivamente. Cinema, séries, produção, projetos grandes e pequenos: é difícil pensar em outra atriz de sua geração mantendo presença tão constante. Mas até Nicole parece precisar conquistar repetidamente o direito de permanecer no centro.
E quantas outras existem?
Esta talvez seja a pergunta mais reveladora. Não quantas atrizes acima dos 50 ou 60 continuam trabalhando, porque muitas continuam. Quantas permanecem protagonistas comerciais, românticas, engraçadas, perigosas, sexualmente ativas, contraditórias e complexas sem que a própria idade precise virar o assunto principal da história?


É justamente isso que Hannah Waddingham e Octavia Spencer faziam em Ride or Die. Elas não estavam ali para ensinar alguma coisa aos jovens nem para representar a velhice. Eram as estrelas de uma comédia de espionagem. Uma delas era uma assassina internacional. A outra descobria que talvez não conhecesse tão bem assim a melhor amiga. Havia ação, humor, conspiração e amizade feminina. A idade das personagens fazia parte delas sem precisar defini-las.
Da mesma maneira, The Boroughs ousava dar aos mais velhos aquilo que Stranger Things sempre deu aos adolescentes: aventura.
Talvez seja por isso que os dois cancelamentos incomodem tanto quando colocados lado a lado. Nenhum deles, isoladamente, prova a existência de uma política etarista nas plataformas. Produções são canceladas por dezenas de razões, de orçamento a conclusão de audiência, retenção, estratégia internacional ou capacidade de conquistar assinantes.
Mas Ride or Die acrescenta uma informação difícil de esquecer. Se as fontes ouvidas pela Deadline estiverem corretas, seu público pode ter se tornado parte do problema porque mulheres de meia-idade já estavam dentro do ecossistema Amazon. Em outras palavras, elas assistiram, mas talvez não fossem comercialmente novas o suficiente.

O streaming passou anos falando sobre diversidade e conseguiu avanços importantes naquilo que entendemos como representação. Ainda assim, existe uma diversidade sobre a qual falamos muito menos: idade.
Talvez porque envelhecer seja universal e, justamente por isso, desconfortável.
Ou talvez porque a indústria ainda aceite melhor personagens mais velhos quando eles permanecem nas margens. Pais. Avós. Mentores. Participações especiais. Grandes atores celebrados pela carreira que construíram.
O verdadeiro teste começa quando eles querem continuar onde sempre estiveram.
No centro da tela.
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