Atenção: este texto contém spoilers de O Aniversário.
O Aniversário é um daqueles filmes que incomodam até quando não convencem inteiramente. Talvez porque sua distopia política misture elementos diferentes, simplifique a ascensão de um regime autoritário e, na reta final, leve sua alegoria a um extremo que parece quase didático. Ou talvez porque, por baixo de tudo isso, exista uma verdade muito mais próxima e difícil de descartar: quantas famílias já não foram divididas, algumas definitivamente, por diferenças políticas?
É dentro de uma única casa que o diretor polonês Jan Komasa conta a transformação de um país. A escolha poderia soar artificial, mas é uma das melhores ideias do filme. A política deixa de ser uma discussão abstrata, travada em campanhas, parlamentos ou redes sociais, e passa a reorganizar afeto, lealdade e pertencimento. Os Taylor continuam se reunindo, comemorando aniversários e ocupando os mesmos espaços, mas já não conseguem reconhecer uns aos outros. A casa permanece. A família, não.
Diane Lane e Kyle Chandler são fundamentais para que essa ruptura tenha peso. Como Ellen e Paul Taylor, eles criam imediatamente a sensação de um casamento longo, amoroso e imperfeito, daqueles em que duas pessoas já aprenderam a rir das próprias diferenças. Ellen é professora de Ciências Políticas em Georgetown; Paul, dono de um restaurante bem-sucedido. No aniversário de 25 anos do casal, recebem os quatro filhos na confortável casa da família: Anna, comediante; Cynthia, advogada ambiental; Birdie, a caçula interessada em ciência; e Josh, um escritor que jamais conseguiu transformar suas ambições em carreira.

Josh chega acompanhado de Liz Nettles, interpretada por Phoebe Dynevor. Ellen demora pouco a reconhecê-la como uma antiga aluna cuja tese defendia ideias antidemocráticas e um sistema de partido único. Liz reaparece não apenas como namorada de seu filho, mas como autora de The Change, livro que promete superar a polarização política e devolver unidade aos Estados Unidos. É uma proposta sedutora exatamente porque evita se apresentar como autoritária. Ninguém anuncia que pretende eliminar a democracia. Fala-se em união, segurança, estabilidade e no fim das divisões.
O filme avança no tempo por meio de novos encontros familiares. A cada aniversário, a doutrina de Liz ocupa mais espaço no país, enquanto os Taylor perdem alguma coisa: trabalho, segurança, confiança ou simplesmente a capacidade de permanecer juntos à mesa. The Change conquista apoio empresarial, altera a bandeira americana e transforma a ideia de centro político em justificativa para um único projeto de poder. Ellen perde o cargo depois de ser filmada destruindo a bandeira de um vizinho. Anna é agredida por fazer piadas contra o movimento e passa a viver escondida. Cynthia se recusa a ter um filho em um país que já não reconhece, decisão que destrói seu casamento. Birdie, inicialmente atraída por uma oportunidade científica oferecida por Liz, termina radicalizada no sentido oposto.
Tudo é concentrado dentro da mesma família, como se cada personagem precisasse representar uma reação possível à ascensão autoritária. É aí que O Aniversário se torna mais esquemático, mas também estranhamente eficiente. Quantos de nós não conhecemos irmãos que deixaram de se falar, pais e filhos que romperam relações e encontros que se transformaram em campos minados porque qualquer comentário pode provocar uma guerra? O filme leva essa experiência ao limite, porém parte de uma tristeza perfeitamente reconhecível: a política deixou de ser uma opinião e passou a decidir quem ainda pertence à família.
O ressentimento de um homem fraco
O arco mais didático é justamente o de Josh, vivido por Dylan O’Brien. Ele é apresentado como um homem fraco, ressentido e vulnerável, um escritor fracassado que percebe o estímulo da mãe quase como uma forma de condescendência. Não tem o sucesso das irmãs, não parece possuir talento suficiente para alcançar aquilo que deseja e ocupa um lugar secundário dentro de uma família de personalidades fortes. Liz oferece tudo o que ele acredita que lhe foi negado: importância, respeito, dinheiro, visibilidade e, sobretudo, poder.
Josh não precisa ser convencido por uma grande teoria política. Ele adere porque a nova ordem o aumenta. Muda a aparência, ganha confiança e passa a falar como alguém que finalmente conhece seu valor, sem perceber que esse valor nunca foi realmente seu. É emprestado por Liz e pelo movimento enquanto ele continuar sendo útil. A transformação pode parecer óbvia demais, mas talvez seja também uma das mais verdadeiras do filme. Regimes autoritários sempre souberam recrutar ressentidos, pessoas que interpretam a própria frustração como prova de que o mundo lhes deve alguma coisa.
O mais perturbador é que O Aniversário preserva uma ambiguidade: Josh realmente não percebe que está destruindo a família ou sente um prazer perverso ao puni-la? Ele denuncia Anna quando a irmã reaparece disfarçada na festa dos pais, mas ainda tenta convencer a si mesmo de que está agindo dentro de uma ordem legítima. Aceita a perseguição, a violência e o desaparecimento dos outros porque continua acreditando que será protegido pelo poder que ajudou a construir.
Descobre tarde demais que nunca pertenceu a ele. Quando a polícia invade a casa, Josh pede que os pais sejam mantidos juntos e tenta exercer a autoridade que imagina possuir. Ninguém o escuta. Liz, diante dos agentes, o inclui entre os Taylor e permite que seja levado com eles. Josh destruiu tudo para ocupar um lugar ao lado dela e termina descartado como mais uma peça sem utilidade.

O que Liz realmente queria?
Phoebe Dynevor tem o papel mais difícil porque Liz precisa permanecer parcialmente indecifrável. Sua ambição política está clara desde a tese defendendo o fim da democracia e um sistema de partido único, mas existe também uma motivação íntima. Ellen não apenas rejeitou suas ideias quando ela era aluna. Liz sentiu-se humilhada por aquela professora e volta anos depois ligada justamente ao filho mais vulnerável da família. É difícil acreditar que esse encontro tenha sido casual.
Liz quer realizar o projeto de The Change, mas também quer derrotar Ellen. Entra em sua casa, transforma Josh em aliado, ocupa progressivamente o centro da família e, na festa dos 30 anos de casamento, surge vestida de vermelho como Ellen estava na primeira celebração. Não basta conquistar o país. Ela precisa mostrar à antiga professora que estava errada, retirar dela o trabalho, a autoridade e, por fim, a própria família.
Por isso é tão importante a estranha conversa em que Liz procura Ellen e pede ajuda porque Josh não está bem. Pode haver ali um raro instante de sinceridade. Ela inflou um homem ressentido, deu a ele uma projeção que jamais havia conquistado e talvez tenha percebido que já não consegue controlar aquilo que despertou. Josh deixou de ser apenas arrogante: tornou-se paranoico, cruel e perigoso.
Mas o pedido também pode ser uma preparação para abandoná-lo. Liz não estaria exatamente dizendo “salve meu marido”, e sim pedindo que Ellen a ajude a resolver o problema que ele se tornou. O tapa que recebe ainda lhe oferece a imagem perfeita da antiga professora intolerante e agressiva. O filme não explica qual das duas interpretações é correta, porém o final torna a segunda mais forte.
Depois que Birdie realiza o atentado contra a sede da Cumberland, Josh denuncia Anna, Cynthia o esfaqueia e a polícia invade a casa. Mesmo ferido, ele ainda acredita que possui alguma autoridade e pede aos agentes que mantenham Ellen e Paul juntos. Quando um policial pergunta a Liz o que deve fazer com ele, ela responde que Josh está com os pais. A frase parece quase protetora, mas funciona como sentença: Liz o devolve à família que ele destruiu e o inclui entre os inimigos da nova ordem.
Só então ela observa uma fotografia dos Taylor em tempos felizes. Por alguns segundos parece perturbada, como se ainda fosse capaz de compreender o tamanho da destruição. O pequeno sorriso final, porém, confirma sua vitória. Ellen foi silenciada, Josh já não tem utilidade e a família que um dia a fez sentir-se inferior deixou de existir. Liz pode até experimentar um instante de culpa, mas não de arrependimento.
Uma distopia exagerada, mas para quem?
É na passagem da divisão familiar para a distopia nacional que o filme mais me incomoda. O Aniversário mistura autoritarismo, poder empresarial, vigilância, censura, perseguição a artistas, controle ideológico e violência policial numa realidade cada vez mais explícita. Há recenseadores que entram na casa fazendo perguntas destinadas a localizar Anna, ameaças contra Birdie, monitoramento constante e, finalmente, uma invasão policial que transforma o aniversário de 30 anos de Ellen e Paul em massacre.
Minha primeira reação seria dizer que essa vigilância ostensiva e essa facilidade para invadir uma casa pertencem à ficção. Mas isso seria falar de um lugar social específico. Para quem sempre pôde acreditar na inviolabilidade da própria casa, a cena parece uma distopia futura. Moradores de comunidades submetidas a incursões policiais, famílias que convivem com buscas arbitrárias e pessoas para quem a presença do Estado sempre chegou armada provavelmente discordariam. O que o filme apresenta como o fim excepcional da democracia já existe, em diferentes graus, na vida de parcelas mais pobres da população.
Ainda assim, talvez apenas quem tenha vivido sob um regime autoritário reconheça que o medo cotidiano costuma ser mais sutil. As pessoas continuam trabalhando, encontrando amigos, escolhendo roupas, celebrando aniversários e circulando pela cidade. A repressão aparece nas palavras que deixamos de dizer, nos assuntos que evitamos, nas pessoas diante das quais aprendemos a permanecer em silêncio e nos desaparecimentos que ninguém sabe como perguntar. A patrulha mais eficiente nem sempre está na rua. Muitas vezes, já foi instalada dentro de cada um.
Nesse sentido, O Aniversário acerta mais quando permanece junto aos Taylor do que quando tenta explicar todo o país. A transformação da família mostra como o intolerável se torna normal por meio de pequenas concessões. Paul tenta preservar a paz. Ellen acredita que a inteligência e a argumentação serão suficientes. Cynthia procura sobreviver. Birdie aceita uma oportunidade antes de compreender seu preço. Josh confunde proximidade com poder. Quando todos percebem o tamanho da mudança, já não existe um lugar seguro para onde voltar.
Diane Lane e Kyle Chandler sustentam a história
Diane Lane carrega o filme sem transformar Ellen em uma heroína impecável. Ela é inteligente, arrogante, afetuosa, impaciente e incapaz de esconder o desprezo por Liz. Sua certeza de que consegue identificar o perigo antes dos outros não significa que saiba detê-lo. Lane deixa a raiva aparecer antes do medo e, depois, permite que a personagem seja lentamente esvaziada pela perda do trabalho, dos filhos e da confiança na própria capacidade de compreender o mundo.
Kyle Chandler trabalha no registro oposto. Paul tenta manter a família unida, reduzir conflitos e encontrar uma saída prática para ameaças que não compreende inteiramente. Sua contenção poderia fazer o personagem desaparecer ao lado de Ellen, mas produz o contrário. Chandler representa o homem decente que acredita que o amor familiar conseguirá sobreviver à política até descobrir que a política já ocupou todos os espaços da família.
Lane descreveu Chandler nos bastidores como uma presença especialmente calorosa, importante durante as filmagens de uma história de tensão emocional tão alta. A parceria aparece na tela. Ellen e Paul não precisam explicar que se amam; isso está na intimidade dos gestos, no humor e na maneira como continuam procurando um ao outro quando tudo desmorona.
A imagem final dos dois é cruel e bonita. Com sacos colocados sobre suas cabeças pela polícia, Paul tenta acalmar Ellen lembrando o primeiro encontro do casal diante de Os Amantes, de René Magritte, pintura na qual duas pessoas se beijam com os rostos cobertos por tecidos. O filme transforma uma lembrança romântica em imagem de repressão, mas preserva aquilo que o regime ainda não conseguiu retirar deles: a história que construíram juntos.
Komasa, diretor de Corpus Christi e The Hater, queria acompanhar a evolução de uma família ao longo de cinco ou seis anos. Desenvolveu a história com Lori Rosene-Gambino, responsável pelo roteiro, e realizou seu primeiro longa em inglês com um elenco extraordinário. Diane Lane também assumiu a função de produtora executiva. As filmagens começaram em Dublin em 2023, durante a greve dos atores, e a produção recebeu autorização para continuar por ser independente.
O lançamento americano foi pequeno para um filme desse elenco. Pessoas ligadas à produção chegaram a dizer que a obra havia sido escondida por ser politicamente incendiária, enquanto o produtor Nick Wechsler reconheceu a dificuldade de vender um thriller político num ambiente em que o público parece fugir desse tipo de confronto. A ironia é evidente: um filme sobre a incapacidade de conversar atravessou uma distribuição igualmente receosa de iniciar uma conversa.

Um filme que incomoda todos os lados
O Aniversário provavelmente incomodará espectadores de diferentes posições políticas, e essa talvez seja uma de suas qualidades. A distopia é excessiva, os símbolos são evidentes e determinados personagens existem mais como posições ideológicas do que como pessoas. No entanto, o filme não precisa prever exatamente como um regime autoritário surgiria nos Estados Unidos para formular um alerta válido. Ficção política não é profecia; é ampliação.
O que torna a história possível não são a nova bandeira, os recenseadores ou o sistema de partido único. É o ressentimento de Josh, o oportunismo empresarial, o desejo coletivo de acabar com o conflito sem enfrentar suas causas e a facilidade com que palavras como união e segurança podem esconder projetos de controle. Sobretudo, é a disposição de pessoas comuns para tolerar o intolerável quando acreditam que serão beneficiadas por ele.
A invasão da casa pode parecer extrema. A família dividida por política, não. Essa família já existe em muitos lugares, talvez até perto demais de nós. O Aniversário acerta na intimidade aquilo que simplifica na política: regimes podem prometer unidade, mas começam ensinando pessoas a olhar para parentes, amigos e vizinhos como inimigos.
No fim, Ellen e Paul perdem a casa, a família e a vida que conheciam, mas Josh também perde a ilusão de que seria poupado. Era fraco antes de conhecer Liz e continua fraco quando ela já não precisa dele. Durante alguns anos, apenas confundiu a força do movimento com a própria força.
Talvez seja essa a conclusão mais perturbadora de O Aniversário. O autoritarismo não precisa que todos acreditem. Precisa apenas de pessoas ressentidas o suficiente para servi-lo, assustadas o suficiente para se calar e confiantes o suficiente para imaginar que a violência sempre será dirigida a outra família.
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