Slow Horses: Diana Taverner, Peter Judd e a culpa dos pangarés

Contém spoilers até o segundo episódio da sexta temporada de Slow Horses.

Em Slow Horses, os pangarés são os agentes que todos adoram chamar de incompetentes, mas que aparecem quando os poderosos precisam de alguém para fazer o trabalho sujo. Também são os primeiros candidatos a levar a culpa quando esse trabalho dá errado. Peter Judd e Diana Taverner conhecem muito bem essa regra. Ele atravessou a política, o governo e depois o mundo dos negócios vendendo influência; ela passou anos tentando conquistar o comando do MI5. A relação dos dois não nasceu de confiança nem de amizade. Começou com segredos comprometedores e sobreviveu porque cada um reconheceu no outro alguém disposto a fazer o necessário para sair por cima.

Tudo começa na primeira temporada, com o sequestro de Hassan Ahmed. Diana planeja uma operação clandestina: infiltra Alan Black entre os extremistas que vão sequestrar o rapaz e espera que o MI5 possa resgatá-lo, derrotar a extrema direita e ficar com os méritos. Só que Black é descoberto e morto, Hassan corre perigo de verdade e o plano que deveria aumentar o prestígio da agência ameaça destruí-la. Robert Hobden, o jornalista que percebe o que está acontecendo, procura Judd. O político tem relações com figuras daquele meio, e Diana vai atrás dele quando precisa alcançar os sequestradores. Ela sabe o suficiente sobre suas amizades e sua vida privada para pressioná-lo. Judd, por sua vez, sabe que a respeitável chefe do MI5 não pode admitir publicamente que ajudou a pôr Hassan naquela situação.

É aí que se estabelece o tom de todas as conversas seguintes. Eles podem discordar, ameaçar um ao outro e até colaborar, mas nunca deixam de calcular quanto o outro tem a perder. Enquanto isso, Diana tenta impedir que a operação recaia sobre ela e olha para Slough House como uma saída conveniente. Jackson Lamb e seus agentes são tratados como descartáveis até o momento em que se tornam indispensáveis para encontrar Hassan. O padrão da série já estava inteiro ali: a decisão parte de cima; o risco desce a escada.

Na segunda temporada, Judd mira o cargo de primeiro-ministro e procura o apoio de Diana, que deseja tomar o lugar de Ingrid Tearney na direção do MI5. A aproximação parece útil aos dois, mas está longe de ser uma aliança leal. Judd precisa do peso dos serviços de inteligência na disputa política; Diana precisa de alguém com poder para ajudá-la a subir. A ambição de um alimenta a do outro, mesmo quando os interesses deixam de coincidir.

A terceira temporada deixa isso ainda mais evidente. Como ministro do Interior, Judd autoriza a chamada Tiger Team, uma equipe privada contratada para testar a segurança do MI5. Catherine Standish é sequestrada, River Cartwright é usado para expor as falhas da agência e o exercício vira uma crise real. Judd quer constranger Ingrid e abrir espaço para a empresa de segurança envolvida na operação. Diana enxerga na confusão uma oportunidade em sua própria disputa com a chefe, mas não controla todos os jogadores nem as consequências. Mais uma vez, os agentes de Slough House arriscam a vida numa guerra de prestígio travada por pessoas que dificilmente serão encontradas na linha de fogo.

Na quarta temporada, Judd não ocupa o centro da história, e Diana tampouco consegue o posto que tanto cobiça: Claude Whelan é escolhido para comandar o MI5. A quinta, porém, devolve Judd à trama em sua nova profissão de intermediário. Ele aparece na casa de Diana para defender os interesses de clientes, entre eles um grupo líbio que reivindica compensação pelo petróleo perdido após a queda de Kadafi. Quando terroristas líbios exigem £100 milhões para interromper os ataques, Diana descobre que a conta indicada para receber o dinheiro está ligada a Judd. Ele admite que vinha recebendo pagamentos desse grupo havia anos e que ficaria com uma comissão sobre a quantia transferida.

O mais revelador acontece depois. Whelan, cuja incompetência ajudou a agravar a crise, acerta com Judd uma versão dos fatos em que Slough House aparece como responsável pelo desastre. Judd preservaria seus ganhos; Whelan, seu cargo. River acabara de salvar a vida do diretor, e Lamb havia ajudado a capturar Tara, mas nada disso impediria que a casa dos pangarés fosse fechada. É Lamb quem derruba o acordo ao apresentar uma gravação capaz de destruir Whelan. Diana finalmente chega ao comando do MI5, enquanto Judd sai da temporada comprometido pela ligação com os líbios.

É esse episódio que explica o dinheiro mencionado na sexta temporada. Diana usa o que sabe sobre os pagamentos estrangeiros recebidos por Judd para obrigá-lo a entregar uma grande quantia ao MI5. Ela acredita ter arrancado dinheiro dele para financiar operações da agência. No funeral de David Cartwright, Judd revela a armadilha: o dinheiro que entregou não saiu de seu bolso. Um amigo rico pagou a conta. No episódio seguinte, esse amigo ganha nome e rosto: Damien Cantor, dono de um canal de televisão de direita, que usa a origem do dinheiro para pressionar Diana a conceder uma entrevista. Até aqui, a série não explicou em que operação ela empregou a quantia nem estabeleceu com clareza toda a extensão da participação de Cantor na perseguição aos antigos agentes de Slough House. Os £100 milhões pagos aos líbios eram o resgate exigido pelos terroristas; a quantia que Diana extraiu de Judd depois é outro pagamento.

A ironia é que Diana julgava conhecer as regras desse jogo melhor do que Judd. Ela havia encontrado uma vulnerabilidade, cobrado seu preço e transformado o dinheiro em vantagem para o MI5. Judd fez o que sempre faz: procurou alguém disposto a pagar pela proximidade com o poder e guardou a informação para usar depois. Agora Diana ocupa o cargo que queria, mas também está exposta à chantagem que ajudou a criar. E, enquanto os dois medem forças, é a lista de agentes de Slough House que circula, são os antigos pangarés que morrem e é Lamb quem precisa manter os sobreviventes vivos. Em Slow Horses, a conta sempre chega. A diferença é quem tem poder para colocá-la no nome de outra pessoa.


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