Talvez a coisa mais fascinante de Unabomber, novo filme da Netflix sobre Ted Kaczynski, seja descobrir que quase tudo o que parece absurdo demais para ter acontecido realmente aconteceu. Sim, Kaczynski entrou em Harvard aos 16 anos. Sim, participou durante a universidade dos controversos experimentos psicológicos conduzidos pelo professor Henry Murray. Sim, Murray havia trabalhado para a OSS, antecessora da CIA. E sim, décadas depois, foram as próprias palavras de Kaczynski que ajudaram a identificá-lo como o homem que durante 17 anos enviou bombas pelo correio, matou três pessoas e feriu outras 24.
O que o filme inventa é justamente aquilo que parece dar sentido a tudo isso. Dirigido por Janus Metz, Unabomber pega acontecimentos reais extraordinários e cria entre eles uma linha causal muito mais clara do que aquela que a História permite estabelecer. O resultado funciona muito bem como cinema. Como biografia, exige algumas ressalvas.

Ted Kaczynski realmente entrou em Harvard aos 16 anos
Isso é verdade. Kaczynski era excepcionalmente inteligente e entrou em Harvard em 1958, aos apenas 16 anos. O detalhe importante é que ele não começou imediatamente os experimentos mostrados no filme. Sua participação no estudo de Henry Murray começou no ano seguinte.
Ou seja: a precocidade, o isolamento e a inteligência extraordinária daquele adolescente não são invenções criadas para tornar o personagem mais fascinante. Elas fazem parte da história real.
Os experimentos de Henry Murray também aconteceram
Essa talvez seja a parte que mais parece ficção e, no entanto, é real.
Entre 1959 e 1962, Kaczynski participou de um estudo conduzido pelo psicólogo Henry Murray em Harvard. Ele recebeu o codinome “Lawful” e, como os outros participantes, passou por extensas avaliações psicológicas.
Em uma das etapas mais controversas, os estudantes apresentavam suas crenças, valores e convicções e depois eram colocados diante de um interlocutor preparado para atacá-los agressivamente. Reações emocionais e fisiológicas eram registradas.
A experiência existiu e Kaczynski participou dela. O problema começa quando o filme tenta explicar o que aquilo significou para ele.
Murray e Ted tiveram aquela relação pessoal? Não há evidência
Aqui está provavelmente a maior licença dramática de Unabomber. No filme, Henry Murray, interpretado por Russell Crowe, reconhece rapidamente a inteligência de Ted, aproxima-se dele, estimula seu ego e praticamente se transforma em mentor. Depois, Ted descobre que aquela intimidade fazia parte de uma experiência e sente-se traído pelo homem em quem confiava. É uma excelente relação dramática, mas não há evidência de que tenha existido dessa maneira.
Os próprios roteiristas reconheceram que a relação entre Murray e Kaczynski, com aproximações, conflitos, traições e confrontos pessoais, foi construída para o filme. Sabemos que Kaczynski participou do estudo de Murray. Não sabemos que os dois tenham desenvolvido aquela relação quase de mestre e discípulo mostrada na tela.
E isso muda bastante a interpretação da história.

Os experimentos de Harvard criaram o Unabomber?
Essa é exatamente a pergunta que o filme parece querer responder. E a resposta histórica é: não sabemos.
É muito tentador encontrar ali uma origem. Um adolescente brilhante e socialmente deslocado entra em Harvard, participa de experiências psicológicas agressivas, abandona depois uma carreira acadêmica promissora, isola-se em uma cabana em Montana e inicia uma campanha terrorista contra aquilo que considera a destruição da liberdade individual pela sociedade industrial e tecnológica. A sequência parece perfeita demais, mas sequência não é necessariamente causa.
Há autores que defendem que os experimentos podem ter reforçado a desconfiança de Kaczynski em relação à ciência, às instituições e à manipulação psicológica. Outros consideram essa influência muito exagerada. Não existe uma prova capaz de estabelecer que aquilo que aconteceu em Harvard transformou Ted Kaczynski no Unabomber.
O filme transforma essa possibilidade em sua grande explicação dramática.
Christiana Morgan existiu, mas sua relação com Ted é dramatizada
Christiana Morgan também não é uma invenção do roteiro. Ela trabalhou com Henry Murray, colaborou com ele intelectualmente e manteve durante décadas uma relação profissional e pessoal bastante complexa. Os dois participaram, entre outras coisas, do desenvolvimento do Teste de Apercepção Temática, o famoso TAT. Mas o papel que Morgan ganha na história de Ted pertence muito mais ao filme do que aos registros históricos.
O triângulo psicológico entre Murray, Christiana e Ted ajuda a tornar aquele período de Harvard mais íntimo, mais emocional e dramaticamente mais compreensível. Não existe, porém, documentação que permita tratar essa proximidade com Kaczynski como fato.
Mais uma vez, as pessoas são reais. A relação entre elas foi construída pelo roteiro.

E a CIA? Kaczynski participou do MKUltra?
Aqui é preciso bastante cuidado.
Henry Murray realmente havia trabalhado para a OSS, a agência de inteligência americana que antecedeu a CIA. E o MKUltra, programa secreto da CIA envolvendo experiências de manipulação psicológica e drogas, realmente existiu. A proximidade entre esses fatos tornou quase inevitável a teoria de que Kaczynski teria sido uma espécie de cobaia do MKUltra. Só que não há documentação suficiente para afirmar que o estudo de Harvard do qual Kaczynski participou fosse parte do programa.
Murray, OSS, CIA, experiências psicológicas e Kaczynski são elementos reais. Colocá-los todos dentro da mesma operação secreta é outra coisa. É também muito mais cinematográfico.
Moby-Dick não aparece por acaso
A ligação de Murray com Moby-Dick também tem uma base real. Henry Murray era profundamente interessado na obra de Herman Melville e estudou extensamente o romance. O filme transforma essa paixão intelectual em um elemento simbólico da relação entre Murray e Ted.
O fato biográfico é verdadeiro, mas o uso dele dentro daquela relação pessoal, inclusive como parte dos jogos psicológicos entre os dois personagens, pertence à dramatização. É quase uma síntese do método do filme: encontra um detalhe verdadeiro e o coloca exatamente onde ele funciona melhor dramaticamente.
O manifesto realmente ajudou a encontrar Kaczynski
Curiosamente, uma das partes que mais parecem roteiro de thriller aconteceu essencialmente daquela maneira. Durante anos, o FBI tinha bombas, fragmentos, padrões de fabricação e poucas pistas capazes de levar a um suspeito. Em 1995, o Unabomber exigiu a publicação de seu manifesto, Industrial Society and Its Future. A decisão de permitir sua publicação também tinha uma esperança investigativa: talvez alguém reconhecesse aquelas ideias ou aquela maneira peculiar de escrever. Foi exatamente o que aconteceu.
Linda Patrik, mulher de David Kaczynski, começou a perceber semelhanças entre o manifesto e aquilo que conhecia das ideias de Ted. David acabou entregando textos escritos pelo irmão às autoridades. A comparação revelou paralelos de vocabulário, expressão e construção que ajudaram a fortalecer o caso contra Kaczynski.
No fim, depois de tantos anos procurando bombas, foi a linguagem que aproximou o FBI do homem que as fabricava.


A agente Joanne Miller existiu?
Não. Joanne Miller, personagem de Shailene Woodley, é uma criação do filme. Ela funciona como representação de diferentes pessoas envolvidas na investigação e principalmente como contraponto narrativo à história do jovem Ted. O trabalho de analisar a linguagem e o perfil do Unabomber aconteceu, mas não pode ser atribuído àquela agente específica da maneira como vemos na tela.
É uma compressão bastante comum em filmes baseados em histórias reais: vários investigadores e funções acabam reunidos em um único personagem para que a narrativa tenha alguém que possamos acompanhar.
O que encontraram na cabana é real
Aqui a realidade novamente praticamente dispensa roteiristas. Ted Kaczynski foi preso em sua cabana em Montana em 3 de abril de 1996. No local, agentes encontraram componentes para fabricação de bombas, milhares de páginas de escritos e registros relacionados aos ataques. Havia também uma bomba pronta para ser enviada.
Depois de uma investigação que havia atravessado quase duas décadas, a cabana continha não apenas evidências físicas, mas uma espécie de arquivo da própria campanha do Unabomber. O homem que havia tentado desaparecer da sociedade havia documentado obsessivamente sua guerra contra ela.

Então, afinal, quanto do filme Unabomber é verdade?
Muito. Talvez seja justamente isso que torne as invenções do filme tão difíceis de perceber. Ted Kaczynski entrou em Harvard extremamente jovem. Henry Murray estava lá. Os experimentos psicológicos aconteceram. Kaczynski participou deles. Murray realmente tinha trabalhado para a OSS. Christiana Morgan existiu. O manifesto foi publicado. A família reconheceu a linguagem de Ted. O FBI comparou seus textos. A cabana continha as provas. O filme não precisa inventar essas peças. O que ele inventa é uma maneira de fazê-las caber perfeitamente umas nas outras.
Ao transformar Murray no homem que identifica, estimula, manipula e finalmente trai Kaczynski, Unabomber nos oferece aquilo que a vida real quase nunca oferece: um momento de origem. Um ponto preciso a partir do qual podemos olhar para trás e dizer: foi aqui. É dramaticamente irresistível. Historicamente, continua sendo uma hipótese.
Sabemos o que aconteceu com Ted Kaczynski em Harvard. Sabemos também aquilo que ele faria muitos anos depois. O que não podemos afirmar é que uma coisa tenha criado a outra. Entre esses dois fatos existe um espaço vazio. E é exatamente ali que Unabomber coloca seu filme.
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