Para quem viveu os anos 1980 e 1990, Ted Kaczynski nunca foi apenas o homem barbudo de uma fotografia policial ou um caso famoso de true crime. Antes de ganhar nome, rosto e biografia, ele era o Unabomber, uma palavra que durante quase duas décadas significou medo. Abrir uma correspondência podia ser perigoso. Universidades, companhias aéreas, cientistas e pessoas ligadas à tecnologia estavam entre seus alvos. Entre 1978 e 1995, suas bombas mataram três pessoas, feriram outras 23 e provocaram uma das maiores caçadas da história do FBI. Quando finalmente foi preso, em abril de 1996, na pequena cabana onde vivia em Montana, o mundo descobriu quem estava por trás daquele nome.
Trinta anos depois, é inevitável que Unabomber, novo filme da Netflix, chegue a um público muito diferente daquele que acompanhou essa história acontecendo. Para a Geração X, “Unabomber” já era quase um código para radicalismo, terrorismo e isolamento extremo. Para gerações que cresceram conectadas, porém, talvez exista algo ainda mais inquietante na figura de Kaczynski: um homem que decidiu desaparecer deliberadamente do sistema, viver fora do controle tecnológico, fugir do radar e transformar justamente a rejeição à sociedade industrial em ideologia.

O problema é que as ideias de Kaczynski não morreram com sua prisão, nem com sua morte, em 2023. Sua rejeição radical à tecnologia, à organização social moderna e às estruturas que considerava responsáveis por retirar a autonomia humana continua encontrando ecos, especialmente em ambientes onde frustração, isolamento e ressentimento são facilmente convertidos em discurso político ou filosófico. É exatamente por isso que conhecê-lo continua sendo importante. E é também por isso que contar sua história exige cuidado.
Todo filme baseado em fatos reais esbarra em simplificação, liberdade poética e, muitas vezes, invenção. Em Unabomber, dirigido por Janus Metz e escrito por Sam Chalsen e Nelson Greaves, essa tensão não está apenas nos detalhes. Está no centro da proposta.
A narrativa se divide em dois tempos. Em 1958, encontramos Ted Kaczynski aos 16 anos, prodígio da matemática entrando em Harvard e tentando encontrar seu lugar em um universo de homens muito mais velhos, competitivos e intelectualmente arrogantes. É ali que ele se aproxima do professor Henry Murray, interpretado por Russell Crowe, e participa dos controversos experimentos psicológicos conduzidos pelo acadêmico. Décadas depois, a agente do FBI Joanne Miller, vivida por Shailene Woodley, tenta desmontar o perfil estabelecido para o Unabomber e insiste que suas próprias palavras podem revelar mais sobre ele do que anos de investigação convencional.
Joanne, porém, é uma criação dramática. Não existiu uma agente com aquele nome conduzindo sozinha aquela virada da investigação. O personagem reúne funções e descobertas de diferentes pessoas envolvidas no caso, inclusive o trabalho de análise linguística que ajudou a relacionar o manifesto de Kaczynski às cartas fornecidas por seu irmão David. É uma das várias compressões feitas pelo filme para transformar uma investigação de quase duas décadas em pouco mais de uma hora e meia. Para quem quiser separar exatamente o que Unabomber acerta, o que simplifica e o que inventa, vale depois conferir nosso levantamento de fato × ficção.
O projeto começou ainda em 2020, quando Sam Chalsen e Nelson Greaves foram contratados para escrever um longa sobre Kaczynski. Os dois, curiosamente ex-alunos de Harvard, encontraram o ponto de partida não em uma biografia específica, mas numa pequena história ouvida por Greaves na NPR sobre a participação de Kaczynski nos experimentos de Murray. A partir dali, pesquisaram o episódio e construíram as duas linhas temporais que estruturam o filme. Portanto, Unabomber não é oficialmente a adaptação de um único livro, embora exista vasta bibliografia sobre o caso — entre ela Harvard and the Unabomber, de Alston Chase, um dos trabalhos que mais investigaram a passagem de Kaczynski pela universidade e o ambiente intelectual que encontrou ali.
O filme foi rodado em Montreal, produzido pela 2.0 Entertainment em associação com a MRC e chegou à Netflix em 25 de setembro de 2026. Metz, que já passou por projetos como Borg vs. McEnroe e Andor, escolhe deliberadamente não fazer uma biografia convencional. Seu interesse está na pergunta que também moveu os roteiristas: o que acontece entre o adolescente brilhante, isolado e socialmente deslocado que chega a Harvard e o homem que décadas depois passa a enviar bombas pelo correio? É aí que o filme encontra seu melhor material e também seu maior perigo.

A participação de Kaczynski nos experimentos de Henry Murray aconteceu. Ele estava entre os estudantes submetidos a sessões nas quais convicções pessoais eram confrontadas agressivamente enquanto suas reações eram observadas e registradas. A relação íntima entre Murray e Ted que o filme constrói, porém, é em grande parte dramatização. Os próprios roteiristas reconhecem que não existem evidências de que os dois tenham vivido aquela dinâmica pessoal específica.
Isso importa porque Unabomber se aproxima perigosamente de uma relação de causa e efeito: havia um jovem extremamente inteligente, inseguro e isolado; Harvard o colocou nas mãos de um pesquisador disposto a explorar essas fragilidades; alguma coisa se rompeu; surgiu o terrorista. É uma narrativa cinematograficamente irresistível. Historicamente, é muito mais complicada.
Kaczynski já apresentava dificuldades sociais e comportamentais antes dos experimentos. O próprio Greaves reconhece isso. Murray certamente não “criou” o Unabomber. Ainda assim, ignorar o que aconteceu em Harvard seria igualmente simplista. Um adolescente de 16 anos, intelectualmente excepcional e emocionalmente vulnerável, foi submetido a experiências que hoje seriam consideradas eticamente indefensáveis. Saber disso não absolve o adulto que anos depois decidiu fabricar bombas e matar pessoas. Ajuda apenas a compreender uma parte de sua formação.
E aqui está a dificuldade que Unabomber nunca resolve completamente: compreender não é justificar, mas o cinema frequentemente faz as duas coisas parecerem próximas demais. Humanizar um personagem real é quase inevitável quando ele passa a ocupar o centro de uma narrativa. Precisamos vê-lo jovem, humilhado, rejeitado, inseguro e manipulado para que exista um filme. O risco é que a soma dessas experiências comece a funcionar como explicação emocional para crimes que foram decisões tomadas durante muitos anos por um homem adulto.
Nos anos 2020, esse risco me parece ainda maior do que seria há duas ou três décadas. Vivemos um período em que ideias extremas encontram rapidamente comunidades dispostas a validá-las, em que isolamento pode virar identidade e ressentimento pode ser convertido em ideologia com assustadora velocidade. Nesse contexto, transformar Kaczynski em vítima brilhante de um sistema cruel não seria apenas historicamente discutível. Poderia ser irresponsável. Unabomber parece consciente disso e tenta permanentemente impedir que Ted seja convertido em herói incompreendido. Nem sempre consegue.
Grande parte do mérito está em Jacob Tremblay. O ator canadense começou ainda criança e chamou atenção mundial em Room, ao lado de Brie Larson. Depois vieram Extraordinário, Good Boys, Luca, The Life of Chuck e, mais recentemente, Sovereign. Aos 19 anos, ele já deixou para trás aquela fase em que era tratado apenas como uma revelação infantil e começou a ocupar um espaço muito mais interessante como ator adulto. O filme é dele.
Tremblay consegue colocar ao mesmo tempo arrogância e insegurança em Kaczynski. Seu Ted sabe que é mais inteligente do que quase todos ao redor e, justamente por isso, parece incapaz de compreender por que não domina aquele ambiente. Há nele uma mistura desconfortável de superioridade, necessidade de aprovação e ressentimento. O mais interessante é que Tremblay não precisa antecipar o terrorista em cada cena. A semente está lá sem precisar ser anunciada.
Quando o filme coloca Ted diante de Murray, essa tensão funciona especialmente bem porque entendemos por que aquele professor poderia fasciná-lo. Murray reconhece sua inteligência, alimenta sua vaidade e, ao mesmo tempo, sabe exatamente onde feri-lo.

É também onde Russell Crowe deveria encontrar um de seus melhores papéis recentes. O problema é que já vimos demais essa versão de Russell Crowe. O homem carismático, fisicamente imponente, intelectualmente dominante e levemente ameaçador tornou-se quase uma especialidade do ator. Houve um tempo em que Crowe, vencedor do Oscar por Gladiador e extraordinário em filmes como O Informante e Uma Mente Brilhante, parecia capaz de tornar imprevisível praticamente qualquer personagem. Aqui, assim como em trabalhos recentes como Nuremberg, a presença continua enorme, mas o desenho da atuação é familiar demais. Não é ruim. É apenas algo que já vimos.
O mesmo acontece com Shailene Woodley. Joanne Miller é útil como ferramenta narrativa porque nos leva pela investigação, questiona o perfil existente e percebe a importância da linguagem usada no manifesto. Mas o filme lhe entrega uma personagem construída quase inteiramente sobre características que Woodley já explorou antes: inteligência intuitiva, obstinação, resistência a figuras de autoridade e a sensação permanente de ser a pessoa que enxerga o que os outros não querem ver. Nenhum dos dois compromete o filme. Nenhum dos dois o transforma. Tremblay transforma.
Talvez por isso eu tenha terminado Unabomber com uma sensação inesperada de alívio por ele ter sido feito como filme e não como série. Em tempos de true crime esticado artificialmente por seis, oito ou dez episódios, certamente haveria material suficiente para desenvolver melhor Murray, Harvard, a investigação, David Kaczynski, as vítimas e a evolução intelectual de Ted. Também haveria muito mais tempo para fazer justamente aquilo que mais me preocupa: fascinar-se pelo criminoso.
Em 97 minutos, Unabomber precisa escolher. Simplifica demais em alguns momentos, inventa em outros e aproxima acontecimentos que historicamente são bem mais difíceis de conectar. Mas mantém a história andando e, sobretudo, devolve peso a um nome que o tempo começou a transformar em verbete.
Para quem viveu aquele período, uma das imagens mais impactantes dos anos 1990 continua sendo a de um homem magro, de barba e aparência quase banal, sendo retirado de uma cabana em Montana em abril de 1996. Depois de quase duas décadas de medo, o Unabomber finalmente tinha um rosto e um nome: Ted Kaczynski.
Talvez essa seja a maior utilidade do filme agora. Não explicar como alguém “vira” um terrorista, porque nenhuma experiência em Harvard, nenhum professor e nenhuma humilhação oferecem uma resposta tão simples, mas lembrar que por trás das ideias, manifestos, teorias e mitologias havia escolhas. Houve bombas. Houve mortos. Houve feridos. Houve famílias cuja vida mudou para sempre. Conhecer Kaczynski continua sendo importante. Compreendê-lo, talvez também. O que não podemos fazer é confundir compreensão com absolvição.
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