Madonna não precisa de mais um VMA. Mas o VMA ainda precisa de Madonna

Há artistas para quem uma nova indicação ainda pode significar confirmação, consagração ou a entrada definitiva em determinado clube. Madonna passou dessa etapa há muitas décadas. Aos 68 anos, com uma carreira que já atravessou gerações, mudanças radicais na indústria da música e o próprio desaparecimento da MTV como centro absoluto da cultura pop, ganhar mais um VMA não vai alterar sua posição na história. Talvez seja justamente por isso que suas 13 indicações em 2026 sejam tão interessantes, porque elas não funcionam como uma validação tardia, mas como prova de permanência.

Madonna chega à cerimônia deste domingo, 27 de setembro, como a artista mais indicada da noite, depois que novas categorias elevaram seu total inicial de 11 para 13 nomeações. Concorre, entre outras, a Video of the Year, Artist of the Year, Best Album, Best Long Form Video e Best Dance, e não estará ali apenas esperando o resultado. Ela abre a cerimônia pela quinta vez em sua carreira, em sua primeira apresentação no palco do VMA em 23 anos, com a promessa de músicas de Confessions II e a possibilidade de convidados especiais ligados ao atual ciclo do álbum.

Não faltariam nomes para esse encontro. Sabrina Carpenter, Kylie Minogue, Charli XCX, Stromae, Feid e Martin Garrix estão entre os artistas que colaboraram com Madonna nesta fase, e Charli já está confirmada como apresentadora da cerimônia. Isso naturalmente alimenta especulações sobre alguma participação surpresa, embora nada além da apresentação de Madonna tenha sido oficialmente anunciado. Ainda assim, a notícia mais interessante não é quem poderá subir ao palco com ela, mas o fato de Madonna continuar ocupando o centro do VMA depois de mais de quatro décadas.

Sua relação com a premiação começou em 1984, na primeira edição, quando cantou Like a Virgin usando vestido de noiva e surgiu de dentro de um enorme bolo. A música sequer havia sido lançada quando ela subiu naquele palco. Madonna perdeu um dos sapatos durante a apresentação, improvisou, acabou no chão e ofereceu à televisão americana uma imagem que parecia escandalosa naquele momento e inevitável depois. Aquilo ajudou a definir não apenas Madonna, mas aquilo que o próprio VMA viria a ser.

Até então, uma premiação musical podia ser sobretudo uma sequência de troféus e apresentações. Madonna percebeu que aquele palco permitia outra coisa, porque uma música poderia virar personagem, figurino, provocação, coreografia e narrativa, e uma performance poderia ser lembrada muito depois de ninguém saber mais quem venceu naquela noite. Essa percepção se transformou em método e ajudou a criar uma linguagem que hoje parece natural, mas que naquele momento ainda estava sendo inventada.

Dois anos depois, em 1986, Madonna tornou-se a primeira artista solo feminina a receber o Video Vanguard Award, quando estava há apenas quatro anos no mainstream. Em 1989, voltou para cantar Express Yourself, numa performance que reuniu confiança, coreografia, voz ao vivo e aquela combinação de sexualidade e controle que já havia se tornado sua assinatura. Na mesma noite, venceu o Viewer’s Choice por Like a Prayer e entregou o Video Vanguard Award a George Michael, outra conexão especialmente curiosa em 2026, quando a cerimônia prepara uma homenagem ao cantor morto há dez anos.

Foi em 1990, porém, que Madonna talvez tenha demonstrado de maneira mais clara o que entendia por performance televisiva. Para Vogue, abandonou completamente a necessidade de reproduzir o videoclipe e criou uma nova encenação inspirada na França do século XVIII, com perucas empoadas, vestidos, leques e os bailarinos da Blond Ambition Tour. A roupa usada por ela havia aparecido antes em Ligações Perigosas, com Glenn Close, e toda a apresentação parecia uma pequena produção teatral criada especificamente para televisão.

Madonna nem fingia que o objetivo principal fosse mostrar virtuosismo vocal, porque o espetáculo estava na construção visual, no movimento e na capacidade de produzir uma imagem que existisse de maneira independente da própria música. Hoje isso parece natural porque se tornou parte da linguagem do pop. Beyoncé, Lady Gaga, Britney Spears, Taylor Swift e tantas outras artistas passaram a trabalhar dentro de uma cultura em que uma performance de premiação pode ganhar vida própria, separada da canção que lhe deu origem, e Madonna foi uma das responsáveis por estabelecer essa gramática.

Nem todos os seus grandes momentos no VMA, aliás, aconteceram enquanto ela cantava. Em 1995, durante o período de Bedtime Stories, Madonna parecia empenhada em suavizar a imagem depois da reação americana a Erotica e ao livro Sex. Chegou à cerimônia elegantemente vestida de Tom Ford, venceu Best Female Video por Take a Bow e concedia uma entrevista tranquila a Kurt Loder quando Courtney Love resolveu participar da conversa da maneira mais Courtney Love possível, atirando sua bolsa de maquiagem na direção dos dois e invadindo a entrevista.

Madonna tentou impedir sua aproximação, não conseguiu e respondeu ao caos com a frieza que tornou a cena inesquecível. Foi um momento viral muitos anos antes da expressão “viral” fazer parte do vocabulário da cultura pop e também mostrou como, naquele período, Madonna não precisava estar no palco para transformar alguns minutos de MTV em notícia. Sua presença por si só já era suficiente para produzir tensão, humor, escândalo e repercussão.

Em 2003, quando o VMA completava 20 anos, a cerimônia decidiu voltar justamente à imagem que ajudara a definir sua primeira edição. Britney Spears e Christina Aguilera apareceram vestidas de noiva, recriando Like a Virgin, antes da entrada de Madonna, agora de preto. Em seguida vieram os beijos, especialmente aquele com Britney que seria repetido incontáveis vezes pela própria MTV e se tornaria uma das imagens mais reconhecíveis da história da premiação.

Hoje é fácil lembrar apenas do choque provocado pelo beijo, mas havia algo mais interessante acontecendo ali. Madonna estava encenando a sucessão do próprio pop, porque quase vinte anos depois de ocupar o lugar da jovem noiva que perturbava a televisão americana, ela colocava Britney e Christina exatamente naquela posição. As duas eram então vistas como herdeiras naturais daquela linhagem de estrelas pop femininas que Madonna ajudara a criar, e ela surgia não como alguém tentando competir com a própria juventude, mas como a referência diante da qual aquela nova geração inevitavelmente seria medida.

Foi sua última apresentação no VMA até agora. Durante esses 23 anos, Madonna voltou à premiação em outras ocasiões, apresentou prêmios, fez homenagens e apareceu em momentos especiais, mas não retornou para uma performance completa. Ao todo, já participou do VMA 15 vezes, atravessando cinco décadas de história da música e da televisão, e é justamente essa continuidade que torna 2026 diferente de uma simples volta nostálgica.

Madonna não está chegando para receber flores por aquilo que fez em 1984, 1990 ou 2003. Ela chega como a artista com mais indicações da edição, impulsionada por Confessions II e por Confessions II – The Film, que disputa algumas das principais categorias da noite. Suas 13 indicações incluem tanto prêmios decididos pelo público quanto categorias técnicas e de formato longo, o que mostra que sua presença nesta edição não está restrita à dimensão histórica da carreira.

Em números, Madonna já tem 19 vitórias competitivas no VMA. Ganhar a vigésima seria uma marca elegante, vencer Video of the Year acrescentaria outro troféu importante a uma coleção enorme e uma vitória em Best Long Form Video teria ainda um significado curioso, porque ela pode se tornar a primeira artista a vencer duas vezes essa categoria. Nenhuma dessas possibilidades, porém, mudaria sua biografia de maneira decisiva.

O mais interessante é ela continuar concorrendo porque existe uma diferença enorme entre ser celebrada pelo conjunto da obra e continuar sendo tratada como participante do presente. Madonna poderia perfeitamente estar nesta edição apenas para receber uma homenagem, introduzir alguém mais jovem ou revisitar um antigo sucesso. Em vez disso, disputa algumas das principais categorias contra artistas que cresceram em um mundo que ela ajudou a criar.

Isso não significa que seja favorita em todas elas, já que muitas das categorias centrais do VMA dependem de voto popular e Madonna enfrenta artistas com fandoms jovens, gigantescos e extremamente organizados nas redes sociais. Seu peso histórico não se converte automaticamente em votos, e justamente por isso sua presença entre as mais indicadas se torna ainda mais significativa.

Durante uma parte da carreira, Madonna foi comparada às artistas que vieram antes. Depois passou décadas vendo praticamente toda nova estrela pop feminina ser comparada a ela. Agora aparece novamente na mesma lista de indicadas das artistas que poderiam ser suas filhas em termos geracionais, disputando o mesmo Video of the Year e o mesmo Artist of the Year, sem precisar derrotá-las para provar nada. A própria coexistência já conta uma história.

Madonna deve muito ao VMA porque foi naquele palco que alguns dos capítulos fundamentais de sua mitologia foram criados diante de milhões de pessoas. A MTV forneceu a plataforma perfeita para uma artista que percebeu, talvez antes de qualquer outra de sua geração, que música pop também era imagem, narrativa e provocação, mas o caminho contrário também é verdadeiro.

O VMA deve muito a Madonna porque ela ajudou a ensinar à premiação que seus grandes momentos não seriam necessariamente os envelopes abertos e os nomes anunciados, mas aquilo que acontecesse entre um prêmio e outro, quando alguma coisa inesperada pudesse se transformar instantaneamente em cultura pop. A noiva rolando pelo chão, Maria Antonieta fazendo Vogue, Courtney Love invadindo uma entrevista e Britney beijando Madonna são imagens que sobreviveram a vencedores que quase ninguém lembra mais.

Por isso, talvez a pergunta mais interessante deste domingo não seja quantos prêmios Madonna vai ganhar. Depois de 42 anos de relação com o VMA e 23 anos desde sua última performance, a cerimônia mais uma vez começa com ela, e para uma artista que já não precisa de mais nenhum troféu para provar seu lugar na história, essa permanência talvez diga muito mais do que qualquer vitória.


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