Madonna no VMA 2026: o retorno após 23 anos e sete prêmios

Vinte e três anos depois de sua última apresentação no VMA, Madonna voltou ao palco da premiação que ajudou a transformar em um acontecimento da cultura pop. Aos 68 anos, ela abriu uma noite em que sua trajetória seria celebrada, cercada por artistas de uma geração que cresceu assistindo a videoclipes influenciados por ela. Foi nesse encontro entre a história da festa e seu presente que Madonna encontrou espaço para brincar: muitos dos que estavam ali ainda nem tinham nascido quando ela já fazia história no VMA.

A piada dizia muito sobre aquela noite. Madonna entendeu cedo que um videoclipe podia fazer mais do que divulgar uma música: podia construir uma imagem, contar uma história e provocar uma conversa que continuaria muito depois de a canção terminar. O VMA lhe devia parte de sua identidade, e vê-la de volta àquele palco tornou essa relação especialmente visível.

Basta percorrer suas apresentações para entender isso. Em 1984, na primeira edição do VMA, ela cantou “Like a Virgin” vestida de noiva e transformou uma encenação aparentemente simples em um dos momentos mais lembrados da história da televisão musical. Em 1990, levou “Vogue” a um cenário inspirado na corte francesa, como se Maria Antonieta tivesse descoberto os clubes de dança. Em 2003, dividiu o palco com Britney Spears e Christina Aguilera em uma apresentação que ainda hoje é lembrada pelo beijo. São épocas e ideias diferentes, unidas pela capacidade de Madonna de perceber o que uma imagem pode fazer com uma música.

Essa inteligência nunca se limitou às apresentações ao vivo. Madonna levou diretores, referências artísticas, moda, religião, sexualidade e narrativas inteiras para seus videoclipes. Entendeu o poder daquele meio quando ele ainda estava sendo inventado e ajudou a estabelecer uma linguagem que continua essencial para lançar e sustentar a música pop. As plataformas mudaram, mas a necessidade de criar uma imagem capaz de circular pelo mundo permanece. Ver artistas de outra geração reunidos em torno dela, portanto, tinha algo de bonito: muitos cresceram dentro de um universo visual que Madonna ajudou a criar.

Mas seria estranho escrever sobre sua volta sem falar do que também estava diante dos nossos olhos. Madonna sempre cantou com o corpo inteiro. Sua dança fazia parte da maneira como interpretava uma música, e ela ajudou a estabelecer a expectativa de que uma estrela pop deveria cantar, dançar, dominar o palco e produzir um acontecimento ao mesmo tempo. Ontem, seus movimentos estavam mais contidos. A dificuldade para se deslocar, inclusive ao subir as escadas do palco, era visível. Ela própria falou sobre o joelho, então não há motivo para fingir que ninguém percebeu.

Confesso que isso me emocionou. Há uma tristeza particular em ver o tempo impor limites justamente ao corpo de alguém que sempre fez do movimento uma forma de expressão. Não porque a criatividade de Madonna tenha acabado, nem porque ela deva alguma demonstração de vigor ao público. É porque quem a acompanhou dançando durante décadas reconhece o esforço por trás de cada gesto. Ela continuou tentando, comandando a apresentação e sendo brava como sempre. Talvez por isso a mudança seja tão difícil de ignorar.

E, ainda assim, Madonna conseguiu fazer a transmissão recorrer a bleeps e desviar a câmera em alguns momentos. Aos 68 anos, mesmo sem a liberdade física de antes, continua capaz de deixar a televisão americana desconfortável. A brincadeira ao reconhecer antigos namorados também tinha o humor de quem sabe muito bem a própria história e não precisa escondê-la em pistas. Madonna nunca dependeu de códigos para dizer o que queria. Sua provocação costuma ser explícita, mesmo quando a embalagem é elaborada.

Das 11 indicações, ela saiu com sete prêmios, três deles anunciados durante a transmissão, em um ano de retorno impulsionado por um álbum de que gostei muito. A parceria com Sabrina Carpenter não está entre minhas favoritas — prefiro, por exemplo, o encontro com Kylie Minogue —, mas há algo interessante nessa aproximação com artistas mais jovens. A noite não precisava convencê-las de que Madonna foi importante: a influência dela já estava por toda parte.

O VMA de ontem mostrou uma artista diante dos limites do próprio corpo, mas ainda decidida a ocupar o espaço que construiu. Foi uma apresentação emocionante por isso. Madonna já não dança como dançava, e admitir essa perda é também reconhecer tudo o que aquela dança significou. Quando a música termina e ela ainda consegue provocar, divertir e fazer a câmera hesitar, fica claro que sua presença nunca dependeu apenas dos passos.


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