Susana Vieira estreia em reality com Herança em Jogo: “Eu ainda estou muito viva”

Como publicado em CLAUDIA

Eu devia ser muito pequena quando vi Susana Vieira pessoalmente pela primeira vez. Morava em Brasília e vinha passar as férias no Rio quando, um dia, há cerca de cinco décadas, ela se sentou perto da minha família na praia, acompanhada do filho, Rodrigo, e de amigos. Susana havia estrelado Anjo Mau e, para mim, era provavelmente a maior estrela que eu já tinha visto de perto. Fiquei eletrizada. Não queria brincar, não queria fazer mais nada: queria apenas olhar para ela.

Insisti tanto que meus pais, tímidos e absolutamente avessos a incomodar qualquer pessoa, acabaram pedindo um autógrafo. Durante anos, ouvi deles a história de que Susana, muito bem humorada e divertida, teria brincado que escreveria o próprio nome para que eu não esquecesse quem ela era. O que ficou foi aquele autógrafo, guardado por quase cinco décadas. E, claro, eu o levei comigo quando fui entrevistá-la para CLAUDIA.

Ela riu, levou um susto ao vê-lo e brincou: “Nossa, como marquei a sua vida!”. Marcou mesmo. É também uma boa maneira de entender por que tantas gerações continuam chegando até ela. Algumas conheceram Susana nas novelas; outras, muito depois, pelos memes e pelas redes sociais. Agora, ela encontra mais uma forma de conversar com esse público, e, ao mesmo tempo, mais uma primeira vez.

Depois de uma carreira atravessada por novelas, teatro, cinema e programas de televisão, Susana Vieira estreia em um reality show, mas até nisso encontrou uma maneira de não abandonar a atriz. Em Herança em Jogo, novo original do Globoplay, ela não é exatamente apresentadora nem participante. Interpreta A Falecida, milionária que deixa para trás uma fortuna e uma série de instruções capazes de movimentar a vida dos candidatos à herança.

São 13 participantes disputando até R$ 1 milhão em barras de ouro, enquanto Rodrigo Faro assume o papel de O Testamenteiro, responsável por conduzir o jogo. Susana, por sua vez, permanece presente por meio de vídeos gravados previamente, lançando missões e interferindo na disputa. A brincadeira entre reality e dramaturgia foi justamente o que a atraiu.

“Era um evento novo, um projeto novo e um formato novo de reality. Como todas as palavras eram essas, eu fiquei muito feliz, muito agraciada”, conta. Inicialmente, ela imaginou que fosse apresentar o programa. “Só que, na verdade, eu achei que eu ia apresentar, mas faço uma personagem muito interessante. Faço parte do projeto.”

A personagem chegou a ser chamada de A Falecida, nome que Susana não recebeu exatamente de braços abertos. “Eu não queria ser A Falecida, porque eu ainda estou viva. Muito viva e feliz da vida”, diz, rindo da ironia de protagonizar um programa sobre uma mulher que continua interferindo em tudo mesmo depois da própria morte.

A ideia de poder, porém, é uma palavra que Susana prefere tratar com cuidado. Quando pergunto se ela se divertiu interpretando uma mulher que, mesmo morta, continua comandando dinheiro e herdeiros, ela imediatamente faz uma ressalva. “Eu acho que essa palavra, ‘poder’, é muito perigosa.” Para ela, a motivação da personagem é mais simples: é uma mulher muito rica que, em vez de dividir o patrimônio entre todos os parentes, resolve escolher apenas um deles.

“Ela quer escolher um que agrade a ela, ou por ser mais inteligente, ou por ser melhor, ou por ser mais bonito”, explica. Susana não participou diretamente da convivência dos competidores, concentrada nas mãos de Faro, mas enviou seus recados e determinações para dentro do jogo.

O dinheiro muda as pessoas?

Se Susana evita transformar a personagem em uma discussão abstrata sobre poder, sua resposta é muito mais definitiva quando o assunto passa a ser dinheiro. Herança em Jogo depende justamente da pergunta sobre até onde alguém pode ir diante da possibilidade de colocar as mãos em uma fortuna.

“Eu acredito que dinheiro muda as pessoas”, afirma. Ela recorre ao velho ditado de que “a ocasião faz o ladrão” e ressalva que valores trazidos de casa fazem diferença, mas considera a combinação entre competição, dinheiro e poder perigosa. “Isso assusta um pouco, porque afasta as pessoas de sentimentos de empatia, de solidariedade, de compaixão, que são coisas que todos nós devemos ter e deveríamos ter.”

Para construir A Falecida, Susana recorreu a uma de suas personagens mais lembradas, Branca Letícia de Barros Mota, de Por Amor. A associação é imediata, embora ela diga que a nova personagem seja também uma mistura de outras mulheres que interpretou e dela própria.

“Ela é arrogante, mas é bonita, é chique, é riquíssima e bola um plano que até hoje eu nunca tinha feito: uma mulher que vai deixar herança para a família, mas não vai deixar para todo mundo, só para um”, diz. O prazer, no entanto, não está apenas naquela personagem. Está no trabalho. “Qualquer coisa de trabalho me deixa sempre feliz e alegre. Divertido é estar entre colegas de trabalho e entre projetos novos.”

É justamente Branca Letícia que conduz a conversa para outra espécie de herança, aquela que não se mede em barras de ouro. Quase três décadas depois de Por Amor, frases, cenas e expressões da personagem continuam circulando, agora muitas vezes fora até do contexto original da novela.

Para Susana, Branca já deixou de ser sua. “A Branca Letícia pertence ao público, já não pertence a mim”, afirma. E faz questão de dividir os créditos. “Eu não criei a Branca. Eu dei vida à Branca. A Branca é uma criação de Manoel Carlos.”

Ela reconhece, claro, o quanto a permanência da personagem também representa o reconhecimento de seu trabalho como atriz. “Isso é a consagração de uma pessoa que passou pelo planeta Terra e a viagem não foi em vão.”

“Eu não ia perder esse bonde”

Essa permanência ganhou uma dimensão inesperada com a internet. Susana percebe que parte dos jovens que hoje se aproxima dela cresceu vendo suas novelas ao lado das mães e avós. Outros talvez tenham chegado primeiro pelos memes. Para ela, uma coisa não exclui a outra.

“Quando encontro um jovem, de 25, 30 anos, ele conta que assistia às minhas novelas com a avó, com a mãe, que desde pequeno convivia com as revistas dentro de casa”, conta. Quando finalmente a encontram, dizem, descobrem alguém disposto a participar da conversa.

Susana atribui essa proximidade também à maneira como vive. “Tenho uma postura de vida de liberdade, sem ultrapassar qualquer limite de caráter ou de ética, mas sou meio dona de mim. Tanto que o meu livro chama-se Senhora do Meu Destino.”

A internet, naturalmente, acelerou esse encontro. E ela nunca pensou em ficar olhando de longe. “Eu não ia perder esse bonde. O bonde estava passando, eu não ia entrar no bonde? É claro que eu ia entrar.” Hoje, diverte-se ao perceber que virou meme, lê comentários e sente vontade de responder. “A graça da internet, de memes e de comentários, é essa: você volta a falar com a pessoa do outro lado.”

Talvez por isso seu próximo projeto pareça uma extensão quase perfeita dessa relação. Em 16 de outubro, ela estreia no GloboPop com Escola Susana Vieira de Atuação, primeira série original da plataforma. Com redação final e direção de Caíto Mainier, a produção terá 12 episódios curtos e colocará Susana no papel de uma professora de teatro encarregada de ensinar aspirantes a atores interpretados por integrantes do Grupo Errado.

A ideia imediatamente a conquistou. Susana conta que chegou a imaginar o título Escolinha da Professora Susana, numa referência à clássica Escolinha do Professor Raimundo, de Chico Anysio. Na série, entretanto, a professora é uma versão deliberadamente exagerada da própria imagem de Susana Vieira. “Eles ficam achando que, se eu fosse professora para ensinar a arte de representar, eu seria ela. Mentira. Eu não seria ela, não”, avisa. “Mas ela é muito engraçada.”

O encontro com criadores que dominam uma linguagem diferente da sua também parece diverti-la. Alguns têm mais seguidores que ela; todos fazem parte de um ambiente moldado pelo celular e pelas redes sociais. Susana observa que saber se comunicar na internet não significa necessariamente saber atuar, justamente a graça da premissa.

“O texto é muito bom. A escolinha tem todos os personagens que você já encontrou na vida dentro de um estúdio, pessoas que estão começando”, diz. “Eu fiz com muito amor, com muito carinho, e espero que esses meninos todos continuem meus amigos.”

No fim, é inevitável voltar à palavra que dá nome ao reality: herança. Não a fictícia, mas a dela. Susana diz acreditar que construiu dentro da Globo uma obra que permanecerá, mesmo sem saber como será acessada no futuro. O mais importante é outra coisa. “Tenho a impressão de que eu não passei em vão”, diz.

E quando pergunto o que gostaria que permanecesse de Susana Vieira, ela rejeita, de certa maneira, a própria premissa da pergunta. Ainda é cedo para falar de uma obra encerrada. “O meu legado ainda não foi concluído”, responde. “Porque eu ainda estou viva.” E, como ela mesma faz questão de completar, muito viva e feliz da vida. Quase 50 anos depois daquele encontro na praia, olho para o autógrafo que continua comigo. Susana Vieira também continua ali: nas personagens, na memória de quem as assistiu e mais ainda, na disposição de encontrar mais uma primeira vez. Ela tinha razão sobre uma coisa: marcou a


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