Ainda me surpreendo quando Taylor Swift sobe a um palco e lembra que está há mais de 20 anos fazendo música. Eu ainda vejo, em algum lugar, aquela menina que começou a aparecer nas premiações country antes de conquistar o mundo. Ontem, no VMA, estava diante de nós uma mulher de 36 anos, casada, dona de uma carreira tão grande que cada novo prêmio vem acompanhado de uma contagem de recordes. Mais do que isso, estava uma artista absolutamente segura do que quer dizer e de como quer ser ouvida.
Taylor chegou à cerimônia com 11 indicações. Ganhou melhor direção por “Opalite” e vídeo do ano por “The Fate of Ophelia”, prêmio que dedicou a Dolly Parton. Recebeu também o primeiro Artist Director Honors, homenagem à sua trajetória atrás das câmeras que já havia sido anunciada antes da festa. Ela agradeceu e, em seguida, apresentou “Patient Zero”. A ordem dos acontecimentos acabou servindo como argumento: depois de ouvir por que Taylor é importante para o videoclipe, pudemos ver o trabalho mais recente dela.

Pensei inevitavelmente na jovem interrompida por Kanye West no palco do VMA de 2009. O episódio parecia dizer ao mundo que ela precisava ser apresentada, e da maneira mais constrangedora possível. Hoje é difícil imaginar alguém tomando a palavra de Taylor Swift. Ela faz discursos claros, eloquentes, sabe agradecer sem perder o fio do que deseja comunicar e entende perfeitamente a atenção que recebe. Essa segurança foi construída ao longo de uma carreira em que ela aprendeu a transformar experiências públicas, inclusive as piores, em material para sua própria narrativa.
Há artistas com fãs apaixonados e fiéis em uma escala imensa; Michael Jackson é um exemplo impossível de ignorar. O que me parece singular em Taylor é a conversa permanente que ela mantém com os seus. Eles procuram pistas, recuperam uma frase antiga, reconhecem um objeto, discutem uma cor, voltam a uma música para reinterpretar outra. Taylor conhece esse hábito, participa dele e o alimenta. Às vezes tenho a impressão de estar diante de uma Agatha Christie que conhece tão bem sua fórmula que sabe exatamente quando deixar uma pista à vista e quando fazer todo mundo procurar na direção errada.
É por isso que seus vídeos são aguardados como acontecimentos. A fotografia, a coreografia, o humor e os recursos de câmera têm valor em si, mas o público também espera descobrir o que ela decidiu contar sobre a própria vida. Taylor parece guardar cada recibo. Uma frase dita anos antes pode reaparecer como verso; uma imagem pode sugerir outra história depois que o espectador volta ao começo. O trabalho de direção está também nessa escolha cuidadosa do que mostrar, do que sugerir e do que deixar sem resposta.
“Patient Zero” amplia esse jogo. Dakota Johnson interpreta uma mulher envolvida com um homem vivido por Colin Farrell; Taylor surge como alguém que já esteve naquele lugar e reconhece os sinais. O clipe transforma a advertência da canção em uma história mais sombria, com cenas do relacionamento, um túmulo e a sensação de que a experiência anterior continua assombrando o presente. Há precisão na construção das imagens, e a fotografia de Emmanuel Lubezki ajuda a dar a essa história uma atmosfera que vai muito além da ilustração da letra.

Antes da estreia, havia fãs relacionando a canção a Sophie Turner e Joe Jonas. Depois do vídeo, muitos passaram a enxergar Joe Alwyn no personagem masculino. Outros apontam para Matty Healy. São interpretações, não confirmações. Taylor contou que a ideia para a música veio da história de uma amiga procurada pela atual namorada de um ex. Isso não impede que ela use sentimentos ou lembranças próprios na composição, mas também não nos dá uma chave definitiva para identificar o homem do clipe. O interessante é observar como ela constrói uma história capaz de sustentar todas essas leituras.
Confesso que, depois de seis anos de relacionamento com Joe Alwyn, ainda me chama a atenção a vontade de encontrar uma resposta final para o que aconteceu entre eles. The Tortured Poets Department parecia apontar muito mais diretamente para Matty Healy em vários momentos, embora também houvesse canções associadas ao fim da relação com Joe, sobretudo quando Londres entrava em cena. Agora, com “Patient Zero”, a investigação recomeça. Talvez Taylor saiba exatamente quem os fãs procurarão em cada cena. Talvez também saiba que nunca precisarão chegar à mesma conclusão.
É uma habilidade admirável e, para quem passa pela vida dela, talvez um pouco assustadora. Jake Gyllenhaal continua ligado a “All Too Well” mais de uma década depois de um namoro breve. Joe Jonas também conhece a persistência dessas histórias. Taylor escreve com uma memória afiada, e seus fãs têm uma memória coletiva ainda maior. Eu detestaria viver com a possibilidade de me tornar um detalhe reconhecível em uma de suas músicas. Como espectadora, porém, entendo por que é tão difícil desviar o olhar.
Ontem, “Patient Zero” estreou depois de Taylor receber um prêmio por sua direção; os outros troféus reconheciam vídeos anteriores. Ainda assim, a estreia explicou a homenagem melhor do que qualquer retrospectiva. Taylor compreende que um videoclipe pode ter beleza, ritmo e narrativa própria, mas também uma segunda vida nas conversas de quem o vê. Quando os créditos terminam, os fãs voltam ao primeiro plano e começam outra vez. Ela sabe que voltarão.

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