50 anos de A Mulher Biônica: Jaime Sommers ainda é muito mais do que seus poderes

Há 50 anos, uma mulher corria em câmera lenta, saltava alturas impossíveis, ouvia conversas a distâncias absurdas e podia dobrar aço com a mão direita. Para uma geração, bastavam alguns segundos daquele inesquecível “ts-ts-ts-ts” para saber que a parte boa estava começando. A Mulher Biônica estreou nos Estados Unidos em 14 de janeiro de 1976 e, meio século depois, é tentador olhar primeiro para o charme vintage dos efeitos especiais, mas reduzir Jaime Sommers aos poderes seria perder justamente aquilo que fez a personagem sobreviver tão bem ao tempo. Nossa cyborg querida tinha drama, classe e muita força.

Jaime nem sequer nasceu para ter sua própria série. Lindsay Wagner apareceu em 1975 em um arco de dois episódios de O Homem de Seis Milhões de Dólares como a antiga namorada de Steve Austin, uma das melhores tenistas dos Estados Unidos. Os dois retomam o romance até que um acidente de paraquedas destrói suas pernas, seu braço direito e provoca graves ferimentos na cabeça. Desesperado, Steve convence Oscar Goldman a submetê-la ao mesmo processo que o havia transformado em um homem biônico.

Jaime recebe duas pernas biônicas, um braço direito de força extraordinária e, em vez do olho biônico de Steve, um ouvido capaz de captar frequências e sons a enormes distâncias. Podia correr a mais de 60 milhas por hora, saltar grandes alturas e dobrar aço. Era, literalmente, uma supermulher criada pela tecnologia.

Só que sua primeira história terminava em tragédia. O corpo de Jaime começa a rejeitar os implantes, ela sofre dores violentas, perde o controle e acaba morrendo na mesa de cirurgia. Aquilo deveria encerrar sua trajetória, mas a reação do público mudou os planos. A personagem havia causado um impacto tão grande que a ABC pediu aos roteiristas que encontrassem uma maneira de trazê-la de volta. Encontraram: criogenia, cirurgia e uma amnésia retrógrada que preservava quase toda sua memória, menos justamente seu amor por Steve Austin.

Talvez tenha sido a melhor coisa que poderia ter acontecido com Jaime Sommers, porque, ao apagar aquele romance, a série também ganhou a possibilidade de reconstruí-la como algo além da namorada do herói. Quando A Mulher Biônica estreou, Jaime já não era simplesmente “a mulher de Steve Austin”. Era professora em Ojai, levava uma vida aparentemente normal e ocasionalmente trabalhava como agente da Office of Scientific Intelligence, a OSI, participando de missões perigosas para Oscar Goldman. A série teria três temporadas e 58 episódios, passando da ABC para a NBC em seu último ano.

O sucesso foi imediato. Exibidos apenas 14 episódios entre janeiro e maio de 1976, ainda assim A Mulher Biônica terminou a temporada como o quinto programa mais assistido da televisão americana e ficou, inclusive, ligeiramente à frente de O Homem de Seis Milhões de Dólares. Não era mais um spin-off tentando sobreviver à sombra do original. Jaime Sommers havia se tornado um fenômeno próprio.

1976 seria um ano particularmente interessante para as mulheres na cultura pop. Charlie’s Angels estrearia meses depois; Lynda Carter consolidava sua Mulher-Maravilha e, no ano seguinte, Star Wars nos apresentaria à princesa Leia. Há outro texto inteiro aí, especialmente para quem cresceu descobrindo que brincar de casinha não tinha metade da graça de brincar de detetive, correr em câmera lenta ou imaginar-se uma princesa capaz de pegar a própria arma. Mas Jaime merece que fiquemos com ela, porque havia uma diferença importante em sua força.

Jaime não era invulnerável. Kenneth Johnson, criador da série, estabeleceu regras muito precisas para os poderes biônicos. Ela podia saltar dois andares, mas não três; podia virar um carro, mas não um caminhão. Quando ultrapassava esses limites, o corpo pagava o preço. Em “Kill Oscar”, por exemplo, uma queda maior do que suas pernas biônicas suportavam praticamente as destrói. Isso fazia diferença porque impedia que os poderes eliminassem o risco. O corpo reconstruído ainda podia quebrar, a tecnologia podia falhar e Jaime continuava vulnerável.

Lindsay Wagner entendeu algo ainda mais importante: ser forte não significava interpretar Jaime como uma versão feminina de Steve Austin. A abordagem da personagem era inclusive menos violenta. Enquanto Steve frequentemente recorria à força para cumprir suas missões, Jaime evitava usá-la diretamente contra outras pessoas e praticamente nunca de maneira letal. Ela investigava, infiltrava-se, assumia identidades. Durante a série foi freira, policial, universitária, aeromoça, cantora, lutadora profissional e até showgirl em Las Vegas.

É claro que também enfrentou algumas das coisas mais deliciosamente absurdas que a televisão dos anos 1970 podia produzir, entre elas as Fembots, robôs femininos praticamente indestrutíveis que se tornaram algumas das adversárias mais famosas da série. Jaime enfrentou ainda cientistas ameaçando destruir o planeta, impostoras e até Lisa Galloway, também interpretada por Lindsay Wagner, que recebe cirurgia plástica para ficar idêntica a ela e pouco a pouco passa a acreditar que é a verdadeira Jaime Sommers.

Pode parecer puro camp quando contado assim, e em alguns momentos é, mas havia curiosamente uma pergunta recorrente por trás dessas histórias: quanto de Jaime continuava sendo Jaime depois que parte de seu corpo havia sido substituída por máquinas? Essa questão aparece de maneira quase explícita no último episódio da série, “On the Run”. Uma menina chama Jaime de “Robot Lady” e, depois de anos cumprindo missões, ela decide que quer sua vida de volta e tenta abandonar a OSI. O governo, porém, considera que alguém carregando tantos segredos e tanta tecnologia simplesmente não pode sair por aí livremente.

Jaime foge e precisa enfrentar a pergunta que estava presente desde seu primeiro episódio: ainda era uma mulher ou havia se tornado alguma outra coisa? A resposta da série é simples e bonita. As peças mecânicas não haviam mudado quem ela era. Jaime decide continuar trabalhando para a OSI, mas em seus próprios termos, com menos missões e mais espaço para sua vida.

É aí que A Mulher Biônica fica mais interessante 50 anos depois. A tecnologia imaginada como futurista nos anos 1970 não parece hoje tão impossível. Próteses sofisticadas, implantes auditivos e interfaces entre corpo humano e máquina tornaram parte daquela fantasia curiosamente familiar. O que continua especial é a maneira como Jaime Sommers foi construída dentro dela, porque Lindsay Wagner nunca deixou que a máquina engolisse a mulher.

Jaime podia sofrer, se apaixonar, ter medo, duvidar, se divertir. Podia ser delicada sem parecer fraca e extremamente poderosa sem precisar se comportar como um homem. Havia uma elegância na interpretação de Wagner que fazia com que até as situações mais improváveis parecessem pertencer à mesma mulher. Em 1977, isso lhe rendeu o Emmy de Melhor Atriz em Série Dramática pelo episódio “Deadly Ringer”. Não era exatamente o reconhecimento habitual para uma atriz correndo em câmera lenta e lutando contra robôs. Era o reconhecimento de que havia uma personagem ali.

A série terminou em 1978, mas Jaime ainda retornaria em três telefilmes, entre 1987 e 1994. No último deles, finalmente se casaria com Steve Austin. Décadas depois, em 2007, a NBC tentou ressuscitar Bionic Woman com Michelle Ryan numa versão muito mais sombria da história. Durou apenas alguns episódios, e Lindsay Wagner não gostou. Sua crítica ao remake talvez explique melhor do que qualquer análise por que a original continua tão querida: para ela, a nova série era tecnicamente competente, mas excessivamente “angry and dark”. Em outras palavras, confundia escuridão com profundidade.

Jaime Sommers nunca precisou disso. Ela podia derrubar uma porta, correr mais rápido do que qualquer pessoa, ouvir o que ninguém mais escutava e enfrentar Fembots sem precisar perder humor, compaixão ou feminilidade para convencer alguém de sua força. Talvez seja por isso que, 50 anos depois, o efeito sonoro pareça deliciosamente vintage, enquanto Jaime Sommers não.


Descubra mais sobre

Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.

Deixe um comentário