Contém spoilers.
Há histórias que atravessam décadas porque reconhecemos nelas aquilo que ainda não conseguimos resolver. A disputa pelo amor dos pais, o ressentimento entre irmãos, a dificuldade de enxergar quem amamos e o medo de repetir aquilo que mais nos feriu continuam encontrando novas formas de aparecer. Em East of Eden, adaptação de Zoë Kazan para a Netflix, essas questões ganham uma produção lindíssima e um elenco extraordinário. Comecei a assistir com receio de algumas escolhas e terminei admirando um trabalho que entende a riqueza de John Steinbeck e encontra espaço para suas contradições.
Publicado em 1952, A Leste do Éden (ou, na época, Vidas Amargas) é um romance de mais de seiscentas páginas que conquistou o público desde o lançamento, embora sua recepção crítica tenha sido dividida. Steinbeck já era o autor de Ratos e Homens e As Vinhas da Ira, pelo qual recebeu o Pulitzer em 1940. O Nobel de Literatura viria em 1962, pelo conjunto da obra. Há uma dureza muito particular em seu olhar para a experiência americana, uma atenção às derrotas, à pobreza e à distância entre a promessa de prosperidade e a vida de quem precisa sobreviver a ela. Mas também existe uma compaixão profunda, que impede que o sofrimento se torne apenas espetáculo.


Em East of Eden, essa preocupação se aproxima da intimidade familiar. A história de Caim e Abel atravessa duas gerações dos Trask, numa repetição de rivalidade, preferência paterna e ressentimento. O que acontece entre Adam e Charles reaparece, sob outras condições, entre Cal e Aron. A referência bíblica pode ser antiga, mas basta observar o estrago que a distribuição desigual de afeto provoca para perceber como o romance permanece próximo de nós. O filho que se sente menos amado não está disputando apenas um lugar dentro de casa. Está tentando descobrir o que há de errado nele.
Zoë Kazan, neta de Elia Kazan, que dirigiu Vidas Amargas em 1955, tinha um desafio que ultrapassava a comparação familiar. Era preciso escolher dentro de um livro extenso, cheio de histórias, reflexões e personagens que não caberiam integralmente em sete episódios. O grande núcleo reduzido foi o dos Hamilton, a família inspirada nos parentes maternos de Steinbeck. Samuel permanece, mas a trajetória de seus filhos e o espaço que ocupam no romance encolhem bastante. Há também uma condensação da infância de Cathy, acompanhada de uma releitura importante que já discuti em outro texto.
Ainda assim, considero a adaptação muito fiel à força dos conflitos do livro. Fidelidade também se manifesta na capacidade de preservar aquilo que torna uma história incômoda, complexa e emocionalmente reconhecível. Zoë assume intervenções, mas mantém a crueldade, as ambiguidades do amor e o peso das escolhas. Seu olhar contemporâneo permite identificar violências que durante muito tempo foram naturalizadas, sem exigir que os personagens deixem de pertencer à época em que vivem. Essa sensibilidade foi uma das coisas que mais me surpreenderam e me aliviaram enquanto assistia.

A construção visual é outro prazer. Garth Davis dirige os quatro primeiros episódios, enquanto Laure de Clermont-Tonnerre assume os três finais, e há uma unidade que sustenta a passagem entre gerações. A fotografia de Stuart Dryburgh e Sam Chiplin e o desenho de produção de Grant Major ajudam a dar dimensão a esse mundo. A reconstituição de época é lindíssima, mas seu efeito ultrapassa o encanto dos cenários e figurinos: torna palpável a distância entre a beleza de um lugar e a dureza das relações que se estabelecem nele. Uma história tão pesada encontra uma forma visual que nos convida a permanecer.
E que elenco. Florence Pugh está maravilhosa como Cathy Ames, com uma presença que justifica a importância que a personagem recebe nesta versão. Ela sustenta a inteligência, a ameaça e as contradições de uma mulher que obriga todos ao redor a revelar algo sobre si mesmos. Já examinei mais demoradamente os riscos e os méritos dessa releitura; aqui, o que merece destaque é como sua atuação participa de um conjunto igualmente forte. A série tem vários centros de interesse, e isso faz uma diferença enorme.
Christopher Abbott e Mike Faist estão espetaculares como Adam e Charles. A relação dos dois estabelece a ferida que continuará atravessando a família, e os atores dão densidade à mistura de afeto, competição e ressentimento. Abbott permite perceber como a bondade de Adam convive com sua incapacidade de escutar e enxergar o outro. Ele se agarra ao que deseja acreditar, e essa idealização cobra um preço. Faist, por sua vez, dá presença ao irmão que vive à sombra de uma preferência paterna e não sabe o que fazer com a dor que ela produz. A dinâmica entre eles prepara emocionalmente aquilo que veremos se repetir nos filhos.
Ciarán Hinds está espetacular como Samuel Hamilton, mesmo com a redução da história de sua família. Samuel traz uma experiência de vida e uma humanidade que ampliam o espaço da série. Sua presença oferece outra maneira de olhar para os Trask, uma possibilidade de conversa e reflexão num mundo em que os personagens frequentemente estão presos ao próprio sofrimento. É um papel que precisa transmitir muito sem depender de grandes demonstrações, e Hinds tem essa capacidade de dar peso a uma presença.


Mas preciso destacar Hoon Lee, de quem já era fã em Your Friends and Neighbors. Como Lee, ele é extraordinário e ocupa um dos lugares mais importantes da adaptação. O personagem reúne cuidado, inteligência e uma percepção dos outros que nem sempre encontra correspondência dentro da família. É uma figura materna e paterna para Cal e Aron, alguém que sustenta a vida cotidiana e oferece continuidade afetiva enquanto os adultos responsáveis pelos meninos estão ausentes ou emocionalmente distantes. Esse lugar já está no romance, e a série lhe dá o espaço que merece.
Lee também impede que a história fique inteiramente entregue à violência dos vínculos de sangue. Há algo muito bonito na presença de quem cuida sem precisar possuir e de quem reconhece uma criança para além do papel que os pais lhe reservaram. Ele observa, acolhe e pensa. Sua importância intelectual está ligada à discussão central do livro, mas é o trabalho cotidiano de cuidado que dá corpo àquilo que diz. Hoon Lee torna essa combinação de afeto e inteligência profundamente comovente.
Quando os meninos crescem, Joseph Zada e Joe Anders mantêm a qualidade do conjunto como Cal e Aron. Gostei muito dos dois, e Zada enfrenta uma comparação particularmente difícil: Cal é o personagem que James Dean interpretou no filme de 1955. Ele está muito bem, e a série permite que chegue a esse ponto carregando uma história familiar que acompanhamos desde a geração anterior. Seu conflito tem um passado visível para o espectador, o que aumenta o peso de sua necessidade de amor e de seu medo de ser irremediavelmente mau.
É nos episódios finais que a comparação com o trabalho do avô se torna mais direta. Elia Kazan concentrou o filme na parte final do romance; Zoë dispõe de tempo para mostrar como aquela família chegou até ali. Vidas Amargas tem uma intensidade emocional enorme, mas a série constrói seu próprio caminho antes de alcançar o território mais conhecido. Quando Cal e Aron assumem o centro, já vimos o que Adam recebeu de seu pai e como aquilo que o machucou reaparece na relação com os filhos. A repetição deixa de ser apenas uma ideia e se torna algo que reconhecemos em ação.


Foi isso que mais me chamou a atenção numa frase usada para apresentar a história: as relações se repetem até que alguém as interrompa. É uma formulação bonita, mas assistir à família Trask provoca uma reação menos confortável. Por boa parte da trajetória, ninguém consegue interromper coisa alguma. A dor muda de destinatário, a rejeição reaparece e o desejo de ser amado continua organizando decisões destrutivas. Conhecer o sofrimento não garante que deixaremos de produzi-lo. Às vezes, nem conseguimos perceber como o estamos transmitindo.
É nesse terreno que a discussão sobre timshel ganha sua força. No romance, Lee apresenta a leitura de “tu podes”, a possibilidade de escolher como agir diante do mal. A ideia não promete uma vitória nem apaga o que já aconteceu. Ela abre uma possibilidade para alguém que teme estar condenado pela origem, pela herança familiar ou pelas próprias escolhas anteriores. Depois de acompanhar tanto sofrimento, essa abertura tem um peso que uma mensagem genérica de superação jamais teria.
East of Eden é uma história muito rica para ser esgotada numa única leitura. Há religião, psicanálise, história americana, relações de poder e uma investigação profunda sobre o amor e sua ausência. O mérito de Zoë Kazan está em permitir que essas camadas convivam, apoiadas por uma produção belíssima e atuações que nos mantêm próximos dos personagens mesmo quando suas decisões são insuportáveis. Terminei admirando a adaptação porque ela preserva o desconforto de Steinbeck e nos deixa diante de uma possibilidade exigente: podemos escolher outro caminho, mas ninguém conseguirá fazer essa escolha por nós.
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