Desde que a Warner confirmou Game of Thrones: Aegon’s Conquest para os cinemas, com estreia prevista para 2029, uma das primeiras reações foi inevitável: começar a imaginar quem poderia interpretar Aegon Targaryen. O fancast já circula com força, com nomes óbvios e outros mais interessantes, mas talvez exista uma pergunta anterior e muito mais importante do que escolher o rosto do Conquistador: como exatamente essa história caberá em apenas um filme?
Por enquanto, é isso que temos oficialmente. Um longa dirigido por Owen Harris, com roteiro de Beau Willimon, e nenhuma confirmação de que Aegon’s Conquest será a primeira parte de uma trilogia ou mesmo de uma sequência de filmes. A Warner ainda não explicou até onde pretende avançar na cronologia, tampouco se a ideia é acompanhar apenas a campanha militar que levou Aegon ao trono ou também as guerras e crises posteriores. O problema é que resumir tudo isso como “Aegon conquista Westeros” faz a história parecer muito mais simples do que realmente é.

Aegon não atravessa o mar com Balerion, derrota meia dúzia de reis e termina o filme sentado tranquilamente no Trono de Ferro. A Conquista envolve três Targaryens, três dragões e uma sequência de decisões políticas e militares que mudam completamente a estrutura de Westeros. Aegon chega acompanhado das irmãs e esposas Visenya e Rhaenys, cada uma com personalidade, poder e participação próprios, e precisa lidar com territórios que reagem de maneiras muito diferentes à ameaça. Há reis que resistem, reis que são destruídos, casas que mudam de lado, famílias que ascendem justamente porque outras deixam de existir e uma nova ordem política sendo construída enquanto as batalhas ainda acontecem.
Só Harrenhal já pede espaço. A destruição de Harren, o Negro, e de sua fortaleza estabelece imediatamente o que Balerion significa e o tipo de guerra que Westeros está prestes a enfrentar. Depois vêm as alianças, a queda dos antigos reis das Terras Fluviais, o Campo de Fogo, provavelmente uma das sequências mais espetaculares que a Warner poderia levar ao cinema, e a marcha de Torrhen Stark para o sul, seguida por uma decisão que marcará para sempre a memória dos Stark. Tudo isso ainda precisa desembocar na construção de um reino que, até então, não existia como unidade e na própria criação simbólica do poder Targaryen. Quando chegamos a esse ponto, o filme já tem material suficiente para duas horas e meia. E ainda nem entramos em Dorne.
Talvez por isso a pergunta sobre uma eventual trilogia não seja tão gratuita quanto parece. Nos últimos vinte anos, Hollywood se acostumou a transformar grandes sagas em narrativas divididas. O Senhor dos Anéis consolidou a trilogia como formato de prestígio e espetáculo; O Hobbit levou essa lógica ao extremo ao transformar um único livro em três longas; Harry Potter, Jogos Vorazes e Crepúsculo dividiram seus capítulos finais; e Duna mostrou mais recentemente que uma história densa pode ganhar muito quando o cinema aceita que não precisa resolver tudo em uma única sessão. Em outras palavras, não seria exatamente um desvio da lógica contemporânea imaginar que a Warner esteja anunciando primeiro um filme, mas deixando a porta aberta para algo maior.
Nada disso significa que exista uma trilogia secreta já planejada. Não há confirmação disso. Mas, narrativamente, a história praticamente oferece essa estrutura sem muito esforço. Um primeiro filme poderia se concentrar na Conquista propriamente dita, começando com a decisão de Aegon de avançar sobre Westeros e terminando com sua coroação depois da submissão de seis reinos. A jornada teria começo, desenvolvimento e um clímax claro, além de permitir que Harrenhal, o Campo de Fogo e a rendição do Norte recebessem o peso dramático que merecem.

O problema é que terminar ali criaria uma sensação de vitória que a história imediatamente desmonta, porque Dorne não se rende. E esse é justamente o ponto em que Aegon’s Conquest muda de natureza.
A guerra contra Dorne não é apenas mais uma etapa da mesma campanha. Até então, Aegon enfrenta adversários que, de uma forma ou de outra, aceitam lutar segundo uma lógica conhecida: exércitos, fortalezas, reis, campos de batalha. Dorne simplesmente se recusa a oferecer esse tipo de guerra. Seus líderes abandonam castelos, desaparecem diante dos dragões, atacam quando podem e fazem da geografia e da resistência prolongada uma arma. Pela primeira vez, os dragões continuam sendo terríveis, mas deixam de significar vitória automática.
É também em Dorne que o mito de invencibilidade dos Targaryen sofre sua primeira grande rachadura. Meraxes cai, Rhaenys desaparece e Aegon responde com uma violência devastadora que, mesmo assim, não resolve o conflito. Depois de anos de guerra, quem consegue interromper tudo não é um exército nem outro dragão, mas uma carta enviada pelo príncipe Nymor Martell. Aegon lê, reage de maneira claramente emocional, voa para Pedra do Dragão e, no dia seguinte, aceita a paz. Nunca soubemos exatamente o que estava escrito ali.
Isso não parece material para ser comprimido nos minutos finais de um filme já abarrotado de batalhas. Parece, na verdade, o centro de outro filme, porque muda completamente o personagem. Aegon deixa de ser apenas o homem que conquista e passa a ser confrontado com um limite que não consegue destruir pela força. Dorne introduz perda, fracasso e uma dúvida pessoal que talvez seja mais interessante do que qualquer vitória militar.
E ainda haveria uma terceira história possível: o que acontece depois que Westeros está, ao menos em grande parte, conquistado. Vencer reis e queimar exércitos é uma coisa; governar territórios historicamente independentes, com culturas, leis, religiões e rivalidades próprias, é outra. Aegon e suas irmãs precisam transformar uma vitória militar em dinastia, construir uma estrutura de poder e criar uma ideia de unidade que sobreviva à presença dos três dragões que tornaram aquela conquista possível. É aí também que começam a aparecer os problemas de sucessão que explodirão depois da morte de Aegon e determinarão o futuro da Casa Targaryen.

Por isso, uma trilogia não seria apenas uma maneira conveniente de estender uma franquia. A própria história comporta esse desenho: a Conquista, a guerra contra Dorne e, depois, a construção do reino e da dinastia. Seria até uma evolução interessante do personagem, começando com o homem que acredita poder dominar Westeros, passando pelo momento em que descobre que existe um território que seus dragões não conseguem subjugar e terminando com algo talvez ainda mais difícil, que é garantir que aquilo que ele construiu sobreviva a ele.
Pode ser que a Warner não queira nada disso e que Aegon’s Conquest seja realmente um grande épico autossuficiente, comprimindo anos de história em um único longa. Cinema já fez isso muitas vezes e pode funcionar. Mas, nesse caso, a escolha mais importante talvez nem seja quem viverá Aegon ou qual será o tamanho de Balerion na tela. Será decidir qual parte dessa história merece ser chamada de Conquista e onde colocar o ponto final.
Porque Aegon cabe perfeitamente em um filme. O problema é que tudo o que ele conquistou, perdeu, construiu e deixou para trás talvez não caiba.
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