Little Dancer: a bailarina de Degas ganha musical em Londres

Em 2021, contei aqui a história de Marie van Goethem, a pequena bailarina que Edgar Degas imortalizou, mas cujo destino permanece um mistério. Sua imagem atravessou gerações, espalhou-se por museus e tornou-se uma das mais reconhecidas da história da arte, enquanto a menina por trás dela teve uma carreira curta nos palcos e desapareceu dos registros conhecidos. Agora, essa distância entre a fama da escultura e o anonimato de sua modelo chega ao teatro com Little Dancer, musical que terá uma temporada em Londres em 2027, com Tiler Peck no papel principal.

A estreia no Theatre Royal Haymarket está marcada para 15 de fevereiro, com apresentações até 27 de março. Para quem acompanha dança, há um atrativo especial: Tiler, primeira bailarina do New York City Ballet, participa da história desse espetáculo desde sua montagem inicial. Ela interpreta a Marie jovem, enquanto Laura Pitt-Pulford assume a personagem adulta. Julian Ovenden será Degas, e Josefina Gabrielle, Martine, a mãe da bailarina. A divisão de Marie entre duas intérpretes já revela uma das escolhas centrais da dramaturgia: olhar para aquela adolescência a partir de uma vida posterior imaginada.

É justamente aí que precisamos distinguir a história real da liberdade do musical. Sabemos que Marie nasceu em Paris, em 1865, filha de um casal belga de origem trabalhadora, e que ingressou na escola da Ópera de Paris em 1878. Sua passagem pela companhia terminou em 1882, quando os registros apontam seu desligamento por faltas. Depois disso, seu destino continua desconhecido. A Marie adulta que o espetáculo coloca em cena é, portanto, uma possibilidade criada pelos autores, uma maneira de preencher teatralmente o silêncio deixado pelos documentos.

O contexto, porém, era bastante concreto. Por trás das saias de tule e da aparente leveza dos movimentos, muitas jovens bailarinas tinham a responsabilidade de ajudar a sustentar suas famílias. O trabalho era exigente, as perspectivas eram limitadas, e a proximidade com homens ricos que se apresentavam como “protetores” tornava essas meninas vulneráveis à exploração. A beleza que chegava ao público escondia uma realidade que precisamos considerar quando olhamos para as bailarinas de Degas. Isso ajuda a entender o mundo de Marie, embora não permita inventar certezas sobre o que aconteceu com ela.

Também vale lembrar que a escultura que hoje parece tão familiar provocou rejeição quando foi apresentada, em 1881. A menina de queixo erguido, mãos atrás do corpo e pés em quarta posição não correspondia à bailarina idealizada que parte do público esperava encontrar. Degas utilizou cera, tecidos e cabelo humano, aproximando sua figura de uma presença real de maneira desconcertante. A obra expunha uma jovem trabalhadora e a tensão entre a disciplina da dança e o desgaste de quem a executava. O original está na National Gallery of Art, em Washington; os conhecidos exemplares em bronze foram produzidos depois da morte do artista.

Para levar esse universo ao palco, Little Dancer reúne nomes importantes do teatro musical. Lynn Ahrens assina o texto e as letras, e Stephen Flaherty, a música. É a dupla responsável por Ragtime, Anastasia e Once on This Island. A direção e a coreografia são de Susan Stroman, cujo currículo inclui The Producers, Crazy for You e Contact. Nas versões anteriores, o balé participa da construção dramática, ao lado das canções e de outras formas de dança, permitindo que o corpo de Marie expresse aquilo que a narrativa também procura compreender.

Apesar de anunciado como um novo musical, o projeto tem um percurso de mais de uma década. Sua primeira montagem aconteceu no Kennedy Center, em Washington, em 2014. Em 2019, uma versão reformulada chegou a Seattle com o título Marie, Dancing Still. Londres recebeu uma apresentação em concerto em julho de 2025, já com Tiler Peck, Julian Ovenden e Laura Pitt-Pulford. A temporada de 2027 será a montagem completa no West End, com cenários de Beowulf Boritt e figurinos de William Ivey Long. Há uma turnê mundial anunciada, ainda sem itinerário divulgado.

Para quem pensa em assistir, vale observar um detalhe: embora o espetáculo siga até 27 de março, Tiler está programada para se apresentar somente até o dia 20. Sua presença é parte importante dessa proposta, porque coloca uma artista com uma carreira consolidada na dança diante da história de uma adolescente que não teve a mesma oportunidade de permanecer nos palcos.

Ainda será preciso ver como a nova montagem trabalha a relação entre Marie e Degas e até onde consegue dar à menina uma perspectiva própria. Mas há algo comovente nessa tentativa de reencontrá-la em movimento. Mais de um século depois, reconhecemos sua postura, seu figurino e seu rosto. O musical pode nos levar a perguntar o que aquela imagem, tão conhecida, ainda não nos contou sobre quem precisou sustentá-la.


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