Para ganhar um Oscar, é melhor não parecer que você quer um

Hollywood sempre gostou de ambição, desde que ela não apareça demais. Para ganhar um Oscar, atores precisam passar meses fazendo campanha, comparecendo a sessões, conversando com eleitores, dando entrevistas, aparecendo em eventos e participando de uma engrenagem que custa milhões de dólares. O curioso é que, enquanto fazem tudo isso, precisam sustentar a aparência de que a estatueta não importa tanto assim. Existe uma linha estranhíssima entre querer ganhar e parecer querer ganhar demais, e, historicamente, atravessá-la pode ser tão perigoso quanto fazer campanha de menos.

Tom Cruise está descobrindo exatamente onde essa linha passa. Aos 64 anos, depois de mais de quatro décadas no topo de Hollywood, três indicações como ator e um Oscar honorário recebido em 2025, ele chegou a Digger cercado por uma narrativa que já não é apenas sobre o filme. É também sobre a possibilidade de finalmente conquistar o prêmio competitivo que nunca veio. Cruise fez entrevistas, apareceu em estreias pelo mundo, se associou a eventos enormes, voltou a se expor como há anos não fazia e transformou o lançamento em uma operação de visibilidade raramente vista até para seus padrões. Só que Digger chegou dividido entre críticas entusiasmadas e demolições ferozes, enquanto a bilheteria de estreia ficou abaixo do que se esperava de uma produção desse porte. De repente, a campanha pelo Oscar passou a ser mais visível do que talvez fosse conveniente.

Mas existe uma diferença importante entre Cruise e alguns dos candidatos mais recentes acusados de “querer demais”. Seria injusto tratar Digger como se fosse a primeira vez em que Tom Cruise tivesse aproximado sua carreira do Oscar. Durante os primeiros quase 30 anos, ele fez algo que hoje parece fácil esquecer: alternou sucessos comerciais gigantescos com projetos evidentemente interessados também em prestígio, diretores consagrados e reconhecimento de atuação. De certa maneira, viveu durante décadas uma versão moderna do paradoxo de Cary Grant. O Oscar acontecia ao redor dele. Com ele, quase nunca.

Paul Newman ganhou Melhor Ator por A Cor do Dinheiro, de Martin Scorsese, enquanto Cruise nem sequer foi indicado. Dustin Hoffman ganhou por Rain Man, que também levou Melhor Filme, e novamente Cruise ficou fora. Nascido em 4 de Julho finalmente lhe deu a primeira indicação como ator, mas Daniel Day-Lewis venceu por Meu Pé Esquerdo, enquanto Oliver Stone saiu daquela noite com o Oscar de direção. Anos depois, Jerry Maguire levou Cruise novamente à disputa por Melhor Ator, mas Geoffrey Rush ganhou por Shine e quem acabou saindo do próprio filme de Cruise segurando uma estatueta foi Cuba Gooding Jr., premiado como coadjuvante.

Então veio Magnólia. E talvez tenha sido ali a oportunidade mais incontestável de sua carreira até então. Paul Thomas Anderson tirou Cruise do território confortável do herói carismático e lhe deu Frank T.J. Mackey, um homem agressivo, vulgar, ferido, profundamente desagradável e, aos poucos, devastadoramente vulnerável. Era o tipo de papel que costuma servir de resposta definitiva a quem ainda confunde estrela com falta de talento. Cruise foi indicado como coadjuvante, parecia ter finalmente encontrado sua noite, mas Michael Caine venceu por Regras da Vida. Mais uma vez, nada.

É interessante que, aparentemente, algo tenha mudado depois disso. De Olhos Bem Fechados, com Stanley Kubrick, e Vanilla Sky, com Cameron Crowe, ainda pertencem claramente à fase em que Cruise parecia interessado em testar sua própria persona, procurar risco e trabalhar com cineastas que pudessem levá-lo a outros lugares como ator. Depois, porém, o eixo da carreira se deslocou. Não necessariamente para filmes menores ou menos ambiciosos, muito pelo contrário, mas para sucessos com qualidade, para a manutenção de sua condição de astro e, cada vez mais, para a construção de um legado quase único em Hollywood.

Mesmo aí, existem exceções importantes. Colateral, de Michael Mann, continua sendo uma delas. Cruise fez algo que raramente fazia: interpretou o vilão, abriu mão de boa parte do carisma habitual e construiu um assassino frio, metódico e assustador. Até hoje muita gente defende que aquela atuação merecia indicação — e alguns diriam até vitória. O Oscar, porém, olhou para outro ator do filme: Jamie Foxx foi indicado como coadjuvante por Colateral, no mesmo ano em que ganhou Melhor Ator por Ray. Para Cruise, mais uma vez, o reconhecimento passou muito perto.

Depois disso, ele parece ter aceitado — ou escolhido — outra definição de grandeza. Em vez de perseguir o papel que provaria que era um “ator sério”, começou a construir a ideia de que seria o último grande astro de cinema. Missão: Impossível, No Limite do Amanhã, Oblivion, Top Gun: Maverick: o discurso deixou de ser apenas sobre atuação e passou a ser sobre escala, espetáculo, compromisso físico, defesa da experiência cinematográfica e, em alguns casos, sobre manter viva uma forma de fazer cinema que Hollywood parecia disposta a abandonar. Cruise passou a vender não apenas personagens, mas a própria ideia de cinema na tela grande. O Oscar ficou quase secundário.

É justamente por isso que Digger chama tanto a atenção. Cruise não é um jovem ator querendo provar que pertence ao clube. Não é sequer um veterano esquecido procurando uma volta por cima. Ele já se tornou maior do que a falta de um Oscar competitivo. Sua carreira não precisa mais da estatueta para ser validada. E talvez seja exatamente por isso que, agora, quando volta a aparecer associado tão explicitamente a uma campanha de atuação, a pergunta se torna mais interessante: o que acontece quando alguém que passou anos parecendo não precisar mais do Oscar volta a demonstrar que talvez ainda o queira?

Até o Oscar honorário recebido em 2025 ganhou uma leitura diferente depois disso. Cruise escolheu Alejandro González Iñárritu, diretor de Digger, para homenageá-lo na cerimônia, apesar de o filme ainda nem ter estreado. Tradicionalmente, esse tipo de homenagem costuma envolver alguém ligado de maneira profunda à trajetória do premiado. Ao escolher o diretor de seu próximo longa, Cruise acabou criando, mesmo que involuntariamente, a impressão de que aquela noite também poderia funcionar como o primeiro ato de uma campanha que só começaria oficialmente meses depois.

Se Cruise passou grande parte da carreira aprendendo a não demonstrar ansiedade pelo Oscar, Timothée Chalamet vive neste momento quase o problema oposto. Ele chegou muito jovem ao lugar em que Hollywood começa a perguntar não se alguém ganhará, mas quando. A indicação por Me Chame Pelo Seu Nome veio quando ele ainda estava no começo da carreira, seguida por filmes de prestígio, diretores importantes, sucessos comerciais e uma construção muito rápida de imagem geracional. Chalamet não esconde que é ambicioso, nem deveria. O problema é que a temporada de Marty Supreme transformou essa ambição em parte da narrativa.

A campanha foi grande, muito visível e, em alguns momentos, deliberadamente chamativa. Chalamet subiu na Sphere de Las Vegas, acumulou aparições, virou assunto por tropeços virais ligados a balé e ópera e falou abertamente sobre querer ser um dos grandes. Nada disso seria particularmente estranho em uma indústria construída sobre desejo e competição. Mas existe uma regra tácita: você pode querer entrar para a história, só não deve dizer isso alto demais. Aos poucos, o entusiasmo de Chalamet passou a ser lido por alguns como excesso de confiança, e a campanha começou a gerar uma pergunta que nenhum candidato quer ouvir: ele está promovendo o filme ou promovendo a própria vontade de ganhar?

Ele acabou perdendo para Michael B. Jordan, por Sinners, e isso torna seu caso ainda mais interessante porque Chalamet provavelmente continuará chegando às temporadas de prêmios por muitos anos. O risco agora é carregar cedo demais a narrativa que Leonardo DiCaprio conheceu tão bem: a do grande ator que “precisa” de um Oscar. E, quanto mais essa história cresce, menos qualquer atuação consegue ser avaliada sozinha. Todo novo filme passa a ser tratado como “a nova tentativa”.

Bradley Cooper viveu uma versão ainda mais explícita desse fenômeno com Maestro. Como roteirista, diretor e protagonista, investiu anos no projeto, estudou regência, preparou-se fisicamente e transformou Leonard Bernstein em um trabalho evidentemente obsessivo. Tudo isso deveria contar a favor. O problema é que, durante a temporada de premiações, a narrativa sobre seu esforço cresceu tanto que começou a engolir o próprio filme. Quanto mais se falava dos anos de preparação, da famosa sequência regendo uma orquestra, das entrevistas emocionadas e do desejo de fazer justiça ao personagem, mais surgia outra leitura: a de que Cooper queria desesperadamente aquele Oscar. A frase “ninguém quer um Oscar tanto quanto Bradley Cooper” passou a resumir a campanha. Talvez injustamente, a ambição deixou de ser qualidade e virou motivo de ironia.

As redes sociais tornaram esse mecanismo ainda mais cruel. Antes, uma campanha exagerada podia ser comentada nos bastidores ou por jornalistas especializados. Hoje, qualquer frase, gesto ou aparição vira clipe, meme e prova de uma suposta sede por reconhecimento. O candidato precisa parecer disponível, simpático e interessado, mas nunca ansioso. Precisa fazer campanha, mas não pode parecer calculista. Precisa falar sobre o trabalho, mas não pode demonstrar que pensa no prêmio. Em outras palavras, precisa passar meses pedindo votos sem jamais parecer que está pedindo um único voto.

Leonardo DiCaprio talvez tenha levado essa situação ao seu ponto mais absurdo. Durante anos, a falta do Oscar virou praticamente um gênero próprio de meme. Depois de Gilbert Grape, O Aviador, Diamante de Sangue e tantas outras performances, cada temporada trazia novamente a pergunta: agora vai? A insistência cresceu tanto que já quase não importava qual era o filme; importava que DiCaprio continuava sem ganhar. A internet transformou sua espera em piada recorrente, com montagens, GIFs e uma coleção interminável de brincadeiras sobre tudo o que ele precisaria fazer para finalmente receber a estatueta.

No fim, precisou praticamente ser atacado por um urso.

Claro, o famoso ataque em O Regresso é parte da ficção e boa parte do sofrimento físico associado à produção virou combustível perfeito para a narrativa da campanha. Mas é impossível ignorar a ironia. Depois de anos de personagens complexos, diretores importantes e indicações, DiCaprio finalmente ganhou em 2016 por um filme cuja campanha destacava também resistência física, frio extremo, lama, neve, sobrevivência e sofrimento. A piada parecia pronta: para darem um Oscar a Leonardo DiCaprio, aparentemente não bastava atuar; era preciso quase morrer na tela.

Quando ganhou, houve menos sensação de surpresa do que de quitação de uma dívida. Hollywood não estava apenas premiando Hugh Glass. Estava encerrando uma história que já durava tempo demais. E, curiosamente, depois disso tudo mudou. DiCaprio continua fazendo campanha quando precisa, comparece a eventos, participa de Q&As e promove os filmes, mas a ansiedade desapareceu. Ele já pertence ao clube. Pode brincar, virar meme, desaparecer durante meses e reaparecer quando quiser, porque não existe mais aquela urgência pública em torno de sua validação. A própria ambição passou a parecer mais leve porque já não precisa provar nada.

Martin Scorsese é um caso ainda mais absurdo. Quando ganhou Melhor Diretor por Os Infiltrados, em 2007, já não havia qualquer discussão séria sobre sua importância para o cinema. Ele era o diretor de Taxi Driver, Touro Indomável, Os Bons Companheiros, A Última Tentação de Cristo, Gangues de Nova York e O Aviador. A demora da Academia em premiá-lo havia se tornado quase constrangedora. Por isso, quando Steven Spielberg, Francis Ford Coppola e George Lucas subiram ao palco para entregar a estatueta, a cena teve um peso que ia muito além daquela temporada. Era como se Hollywood estivesse finalmente reconhecendo uma dívida histórica.

Spielberg também conhece bem essa relação complicada entre prestígio, popularidade e Oscar. Durante anos, foi o diretor mais famoso do planeta, responsável por alguns dos maiores sucessos comerciais da história, mas seu enorme apelo popular parecia trabalhar contra ele. Havia uma espécie de preconceito silencioso contra o cineasta que sabia emocionar multidões e vender ingressos demais. Foi com A Lista de Schindler, uma obra brutal, histórica e indiscutivelmente “séria”, que a Academia finalmente lhe deu o prêmio de direção. Como se o homem de Tubarão, E.T. e Indiana Jones precisassem antes provar que também sabiam sofrer artisticamente.

Esse talvez seja o ponto mais interessante de toda essa história. A Academia gosta muito de reconhecer ambição depois que ela virou legado. Quando o discurso passa a ser “depois de tudo o que ele fez, chegou a hora”, a vitória se transforma quase numa celebração coletiva. O desconforto aparece quando conseguimos enxergar a ambição acontecendo em tempo real. Quando o ator deixa evidente que quer entrar para a história, o desejo passa a ser interpretado como arrogância, desespero ou cálculo.

Tom Cruise é particularmente fascinante porque já percorreu quase todas essas fases. Foi o jovem astro que buscou grandes diretores e personagens dramáticos. Foi o ator que viu colegas ganharem Oscars ao seu redor. Foi o indicado que perdeu quando parecia estar diante de sua melhor chance. Depois virou o homem que aparentemente decidiu que sua carreira seria medida por outra régua e construiu um legado de superstar que poucos conseguiram sustentar. E agora retorna ao ponto de partida com uma diferença fundamental: desta vez ele já não precisa provar que é grande.

Claro que nada disso significa que esteja condenado a perder. O Oscar já premiou atuações brilhantes em filmes divididos, fracassos comerciais e obras que pouco interessaram ao grande público. A corrida de atuação tem sua própria lógica, e Cruise continua sendo uma das maiores estrelas vivas do cinema. Mas seu caso, assim como os de Chalamet, Cooper e DiCaprio, revela uma regra não escrita de Hollywood que continua fascinante: todo mundo quer o Oscar, mas ninguém deveria parecer querer demais.

Talvez esse seja o verdadeiro truque da temporada de prêmios. Não convencer os eleitores de que você merece ganhar, mas convencê-los de que gostaria muito de ganhar sem jamais precisar admitir isso.


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