Lanterns: como a série da DC virou um dos grandes sucessos da HBO

Quando Lanterns foi anunciada, havia motivos suficientes para desconfiar. O Lanterna Verde continua carregando o fantasma de uma adaptação cinematográfica que ninguém parece interessado em defender, o universo da DC estava mais uma vez sendo reorganizado e, para completar, a série chegaria sem abraçar exatamente aquilo que se esperaria de uma história sobre policiais intergalácticos capazes de criar qualquer coisa com a força da vontade. Nada de começar pelo espaço, nenhuma overdose de mitologia e muito menos a urgência de provar, a cada cena, que estávamos diante de uma produção de super-heróis. O mais curioso é que foi justamente isso que fez Lanterns funcionar.

Ao longo de oito episódios, a série preferiu parecer um policial sombrio ambientado no interior dos Estados Unidos. Hal Jordan e John Stewart podiam usar anéis capazes de desafiar as leis da física, mas passavam boa parte do tempo interrogando pessoas, seguindo pistas, desconfiando uns dos outros e tentando entender uma morte. A estratégia poderia ter frustrado quem esperava batalhas cósmicas semanais. Em vez disso, criou algo que tem faltado à boa parte das produções derivadas de quadrinhos: personalidade.

Os números sugerem que o público comprou a ideia. A estreia alcançou 9,3 milhões de espectadores globais em seus primeiros três dias e colocou Lanterns entre as cinco maiores estreias de séries da HBO Max. No terceiro episódio, já eram 10 milhões no mesmo intervalo. Às vésperas do final, a temporada registrava média superior a 12 milhões de espectadores por episódio apenas nos Estados Unidos e perto de 19 milhões quando considerado o público internacional. Mais importante do que o número isolado talvez seja a curva: não foi uma estreia enorme seguida por abandono. O público permaneceu e gente nova continuou chegando.

Há uma razão bastante simples para isso. Lanterns nunca dependeu apenas da curiosidade em torno da DC. Kyle Chandler e Aaron Pierre transformaram Hal e John em personagens que funcionariam mesmo sem os anéis. E essa talvez seja a maior vitória da temporada.

Hal Jordan começou a história como a lenda que já tinha passado do próprio auge. Não o herói jovem que descobre o poder, mas alguém que conhece perfeitamente tudo aquilo que o poder cobra. Chandler encontrou um personagem cansado, irônico, frequentemente irritante e, pouco a pouco, profundamente triste. É quase o caminho inverso daquele normalmente escolhido para super-heróis: em vez de acompanharmos o nascimento da lenda, assistimos ao homem que sobra depois dela.

John Stewart estava no ponto oposto. Aaron Pierre tinha a tarefa mais difícil porque precisava construir um herói que ainda não queria sê-lo. Sua resistência ao anel nunca foi apenas uma conveniência de roteiro; estava ligada à infância, à cobrança da mãe, à ideia de destino e ao medo permanente de se tornar aquilo que outros decidiram que ele deveria ser. Por isso o final funciona tão bem quando Lanterns finalmente deixa de falar sobre quem John deveria substituir e passa a mostrar quem ele escolheu ser.

E é justamente aí que o episódio final, “Dirt and Stars”, encontra a melhor síntese da temporada.

A resposta para a pergunta que movimentou toda a investigação é mais dolorosa do que espetacular. Kerry matou Hal. Não Noah, como tudo nos levou a suspeitar, mas a própria mulher que Hal amava. Quando ele descobriu que Noah era um Manhunter e tentou proteger mãe e filho, Kerry entrou em pânico. Atirou justamente no momento em que Hal dizia que a amava. É uma morte pequena para um personagem tão grande e talvez por isso funcione tão bem. Não há batalha cósmica, sacrifício diante de milhões ou despedida heroica. Hal Jordan morre por causa de medo, amor e um impulso de segundos.

Só que Lanterns não encerra a discussão ali. Noah é de fato um Manhunter, produto da tecnologia que envolveu Zoe, e poderia perfeitamente confirmar tudo aquilo que os Guardiões dizem sobre sua espécie. A programação existe. A possibilidade de violência também. Noah sabe disso a ponto de pedir a John que o mate antes que ele eventualmente se transforme em algo que não consiga controlar. John se recusa.

É provavelmente a decisão mais importante de toda a temporada porque, de repente, uma série sobre vontade coloca no centro algo muito mais complicado: somos condenados por aquilo que herdamos? A resposta de John é não.

Noah entregou o anel. Protegeu a mãe. Confessou um assassinato que não cometeu para salvá-la. Sentiu medo daquilo que poderia se tornar. Para John, tudo isso significa que existe alguma coisa além da programação. Natureza e criação entram diretamente em conflito, e John decide apostar que alguém pode escolher não repetir aquilo para o qual foi preparado.

É impossível não perceber como esse raciocínio retorna ao próprio John. Desde criança ele também foi preparado para alguma coisa. Sua mãe tentou eliminar seu medo porque acreditava que o destino do filho era assumir um poder maior. John passou boa parte da temporada resistindo justamente porque não queria que sua história tivesse sido escrita antes que ele pudesse escolhê-la. Por isso o medo se torna tão importante no final.

Tradicionalmente, os Lanternas Verdes existem pela força da vontade e Sinestro representa o caminho oposto, o poder amarelo alimentado pelo medo. Lanterns recusam essa divisão confortável. John precisa usar uma lanterna criada a partir desse medo e percebe que coragem não significa ausência dele. Seu novo juramento deixa isso explícito: não é preciso eliminar o medo para ter vontade. Na prática, John faz com o medo aquilo que passou a temporada tentando fazer consigo mesmo: integra em vez de negar.

Há algo quase psicanalítico nessa conclusão. Aquilo que se tenta expulsar sempre encontra uma forma de retornar. O medo não desaparece porque alguém ordenou que desaparecesse; pode ser reconhecido, elaborado e usado sem necessariamente assumir o controle. John não se torna um Lanterna Verde porque finalmente deixou de ter medo. Ele se torna um porque deixou de precisar fingir que não sente. E então vem a despedida de Hal.

O holograma pergunta quais foram suas últimas palavras. John sabe. “Eu te amo.” Hal responde ao jovem que agora carrega o que ele deixou para trás e desaparece. Kyle Chandler consegue fazer da cena algo surpreendentemente íntimo para uma série sobre homens que voam usando anéis alienígenas. Depois de uma temporada inteira discutindo sucessão, legado e substituição, não existe passagem formal de bastão. Existe apenas uma despedida.

John então toma a decisão que finalmente define o personagem. Não pretende obedecer aos Guardiões, não quer integrar simplesmente uma estrutura criada por outros e avisa Guy Gardner que ficará com a Terra. Os outros podem cuidar das estrelas; ele fica com a sujeira. E, pela primeira vez, voa.

É uma imagem simples, mas encerra perfeitamente a temporada. John passou oito episódios tentando escapar de um destino que parecia ter sido decidido desde sua infância. Quando finalmente aceita ser um Lanterna Verde, ele só consegue fazê-lo depois de mudar as regras do que isso significa.

Talvez esteja aí também a explicação para o sucesso de Lanterns. Em uma época em que o desgaste das produções de super-heróis já não pode ser ignorado, a HBO não tentou convencer o público de que precisava de mais uma. Fez um policial, colocou dois excelentes atores no centro, construiu um mistério e deixou a mitologia entrar pelas laterais.

Quando os anéis finalmente foram importados, nós já estávamos interessados nos homens que os usavam. E essa diferença foi tudo.


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