Falamos tanto de Slow Horses como do anti-James Bond que às vezes esquecemos que Gary Oldman já havia desmontado essa fantasia muito antes de vestir o sobretudo imundo de Jackson Lamb. Em O Espião que Sabia Demais, de 2011, ele interpretou George Smiley, um dos personagens mais importantes da literatura de espionagem e praticamente tudo aquilo que Bond não é. Discreto, nada sedutor, meticuloso e emocionalmente ferido, Smiley não precisa entrar numa sala anunciando que é o homem mais inteligente ali. Prefere que ninguém perceba até ser tarde demais.
Lamb certamente faria alguma observação ofensiva sobre os óculos, as roupas ou a dignidade daquele homem. Smiley provavelmente suportaria o insulto em silêncio e registraria tudo o que a agressividade tentava esconder. Talvez não gostassem um do outro, mas dificilmente deixariam de reconhecer a competência do adversário. São opostos na maneira de existir e quase parentes na maneira de compreender o mundo. O detalhe maravilhoso é que possuem o mesmo rosto, embora Gary Oldman nos faça esquecer disso.

Para mim, Oldman é um dos maiores atores das últimas décadas, possivelmente o maior. Se Meryl Streep virou a medida universal da transformação, ele merece estar na mesma conversa e, em vários momentos, à frente dela. Não porque tenha mais sotaques ou personagens irreconhecíveis no currículo, mas porque consegue ser excessivo e econômico com a mesma precisão. Seu talento não está em fazer muito ou pouco. Está em saber exatamente quanto aquela pessoa precisa mostrar e quanto deve permanecer escondido.
Foi essa inteligência que tornou seu Drácula uma interpretação tão extraordinária. O monstro de Francis Ford Coppola podia ser grotesco, sensual, ridículo, assustador e profundamente romântico sem deixar de pertencer ao mesmo homem. Oldman, que estava longe de corresponder ao modelo convencional de galã, tornou aquele vampiro um objeto de desejo. Depois, com Luc Besson, ofereceu o descontrole de Stanfield em O Profissional e a extravagância de Zorg em O Quinto Elemento. Onde outros atores correriam o risco de desaparecer sob a caricatura, ele encontrava uma lógica para o exagero.
Também participou de algumas das maiores franquias do cinema, como Sirius Black em Harry Potter e Jim Gordon na trilogia do Batman de Christopher Nolan. Isso significa estar em filmes que movimentaram bilhões, não ser pessoalmente bilionário, uma diferença importante. E Gordon é justamente uma exceção à impressão de que Oldman raramente interpreta heróis: ali está um homem essencialmente decente tentando preservar alguma integridade numa cidade que tornou a corrupção uma regra. Ainda assim, sua especialidade nunca pareceu ser o herói convencional. Oldman se interessa mais pelas contradições do que pela pose.
Durante muito tempo, foi um actor’s actor: aquele que os colegas admiravam, os cinéfilos reconheciam e a indústria utilizava para elevar um filme, sem necessariamente tratá-lo como seu principal acontecimento. O público conhecia suas atuações mesmo quando não ligava imediatamente uma à outra. É possível ter visto Drácula, Sirius Black, Gordon e Stanfield sem perceber que havia acompanhado uma pequena retrospectiva do mesmo ator.

George Smiley deveria ter encerrado qualquer dúvida sobre o tamanho desse talento. E, antes de voltarmos a Lamb, vale recuperar porque O Espião que Sabia Demais continua sendo um clássico obrigatório para quem gosta de histórias de espionagem.
John le Carré publicou Tinker Tailor Soldier Spy em 1974, abrindo a chamada trilogia de Karla, que continuaria com The Honourable Schoolboy e Smiley’s People. Não era a primeira aparição de Smiley, mas foi ali que o personagem ganhou uma de suas investigações mais complexas e dolorosas: descobrir quem, dentro do alto escalão da inteligência britânica, trabalhava secretamente para Moscou. O inimigo não estava do outro lado de uma fronteira. Sentava-se à mesma mesa.
Le Carré conhecia o universo que descrevia porque havia trabalhado para os serviços de inteligência britânicos. Sua espionagem não precisava de carros espetaculares, conquistas sexuais ou vilões explicando seus planos. Dependia de informação incompleta, memória, vaidade, lealdades instáveis e da capacidade de perceber uma pequena incoerência no comportamento de alguém conhecido há décadas. O perigo não estava apenas em morrer. Estava a descobrir que a vida inteira havia sido construída sobre uma confiança mal depositada.
Em 1979, a BBC adaptou o romance numa série com Alec Guinness como Smiley, seguida por Smiley’s People, em 1982. Guinness tornou o personagem uma referência tão definitiva que interpretá-lo novamente significava enfrentar duas expectativas: a dos leitores de Le Carré e a de quem acreditava já ter visto o Smiley ideal. Oldman não precisava apenas estar à altura do livro. Precisava encontrar espaço dentro de uma interpretação que parecia não deixar nenhum.
O filme de 2011, dirigido pelo sueco Tomas Alfredson, conseguiu esse feito sem tentar reproduzir a série. Com roteiro de Bridget O’Connor e Peter Straughan, comprimiu uma narrativa intricada em pouco mais de duas horas e encontrou uma linguagem própria: salas fechadas, cores desgastadas, conversas interrompidas e rostos nos quais uma mudança quase imperceptível podia valer mais do que uma perseguição. A fotografia de Hoyte van Hoytema faz aquele mundo parecer permanentemente privado de ar.

E que elenco. John Hurt, de quem sentimos falta, como Control; Colin Firth como Bill Haydon; Benedict Cumberbatch como Peter Guillam; Tom Hardy como Ricki Tarr; Mark Strong como Jim Prideaux; Toby Jones como Percy Alleline; Ciarán Hinds como Roy Bland; Kathy Burke como Connie Sachs. É difícil reunir tantos atores extraordinários sem transformar um filme numa sucessão de aparições disputando atenção. Aqui, cada um acrescenta uma forma diferente de desgaste, ambição, medo ou ressentimento.
Firth chegava ao filme já consagrado e recém-premiado com o Oscar por O Discurso do Rei. Cumberbatch, impulsionado por Sherlock, começava a ampliar sua projeção internacional. Hurt não precisava provar absolutamente nada, assim como vários de seus colegas. E, ainda assim, Oldman coloca todos no bolso sem precisar aumentar a voz. Não porque os outros estejam abaixo dele, mas porque o centro de gravidade do filme está naquele homem aparentemente imóvel.
A história começa com uma operação desastrosa em Budapeste. Control envia Jim Prideaux para encontrar uma fonte capaz de revelar a identidade de um infiltrado soviético no Circus, nome que le Carré dá ao serviço secreto britânico. Prideaux é baleado e capturado, Control perde o comando e Smiley também é afastado. Quando novas informações sugerem que a suspeita era verdadeira, Smiley é chamado de volta para investigar os antigos colegas discretamente.
É uma trama que exige atenção porque o filme não organiza cada descoberta para garantir que o espectador permaneça confortável. Há nomes, codinomes, operações anteriores e versões conflitantes. Mas a aparente dificuldade faz parte da experiência. Smiley também está reconstruindo uma história cujos participantes esconderam, distorceram ou esqueceram aquilo que sabiam. Nós precisamos aprender a observar com ele.
Uma das melhores cenas ocorre quando Smiley conta a Guillam sobre seu antigo encontro com Karla, o estrategista soviético que se tornaria seu grande adversário. Karla não está ali. Oldman precisa criar os dois lados da conversa praticamente sozinho, deixando que o silêncio do outro sobreviva dentro da lembrança. Enquanto explica como tentou convencer o inimigo a desertar, acaba revelando mais sobre si mesmo do que gostaria. A inteligência é impressionante; a vulnerabilidade, ainda mais.
Smiley percebeu tarde demais que, ao falar de sua mulher, Ann, havia mostrado a Karla sua fraqueza. O detalhe de um isqueiro dado por ela transforma um objeto pequeno numa espécie de mapa emocional. Aquele homem capaz de avaliar os riscos de uma operação não consegue proteger o ponto mais íntimo de sua vida. Oldman deixa essa descoberta atravessar a cena sem pedir ao público que tenha pena dele.
E aqui entram os spoilers, porque o filme tem quinze anos e a revelação merece ser discutida além do simples “quem é o traidor?”. O infiltrado é Bill Haydon, personagem de Colin Firth, um homem brilhante, admirado e aparentemente indispensável ao Circus. A operação de inteligência que os dirigentes tratavam como grande triunfo servia, na verdade, para encobrir o vazamento de informações britânicas aos soviéticos. A instituição estava tão satisfeita com o próprio sucesso que não enxergava a armadilha que o produzia.
Haydon também havia se envolvido com Ann. Não era apenas uma traição conjugal paralela à investigação: o caso funcionava como instrumento para comprometer o julgamento de Smiley. Karla sabia que o vínculo entre aqueles homens se tornaria mais difícil de avaliar se fosse atravessado por humilhação, ciúme e afeto. O espião precisava separar aquilo que suspeitava como profissional daquilo que sofria como marido.
A traição alcança ainda Jim Prideaux, cuja ligação com Haydon o filme apresenta com uma intimidade amorosa dolorosa. Haydon permite que ele seja sacrificado para preservar sua posição. No desfecho, Prideaux mata o homem que o traiu. A derrota do infiltrado não restaura nenhuma inocência: permanecem o corpo ferido de Prideaux, a humilhação de Smiley e uma instituição obrigada a reconhecer que confundiu familiaridade com lealdade.
Esse é o verdadeiro tamanho do livro e do filme. Descobrir o traidor resolve a investigação, mas não resolve aquilo que a traição destruiu. Smiley pode voltar ao comando; não pode voltar a ser o homem que existia antes de compreender tudo.

Oldman recebeu sua primeira indicação ao Oscar por essa atuação e perdeu para Jean Dujardin, de O Artista, em 2012. Dujardin estava excelente, mas, para mim, aquele Oscar deveria ter sido de Oldman. Churchill lhe daria a estatueta em 2018, com uma transformação física impressionante. Smiley já havia demonstrado algo talvez ainda mais difícil: modificar completamente a presença de um ator sem precisar fazer da mudança um espetáculo.
É por isso que Jackson Lamb não deve ser compreendido apenas como o oposto de James Bond. Smiley já havia retirado da espionagem a fantasia de glamour e segurança moral. Mick Herron acrescenta a esse legado outra camada: a comédia cruel de uma instituição que, além de produzir segredos e mortes, funciona como qualquer ambiente de trabalho atravessado por disputas, incompetência e autopreservação.
Smiley controla o corpo para não revelar o pensamento. Lamb utiliza o corpo para desviar a atenção dele. O primeiro se esconde na discrição; o segundo, no excesso. A sujeira, a grosseria e os hábitos repulsivos não significam que Lamb deixou de compreender as regras sociais. Muitas vezes significam que sabe utilizá-las contra quem espera encontrá-las. O adversário enxerga um homem acabado e demora a perceber que está diante de alguém que já calculou suas próximas decisões.
O próprio Oldman estabeleceu essa ligação numa entrevista à ABC australiana. Explicou que a atividade mental silenciosa de Smiley também está presente em Lamb quando ele parece não estar fazendo nada. A aparência muda radicalmente, mas permanece o homem que observa, processa e antecipa enquanto os outros acreditam estar conduzindo a conversa. Portanto, nossa comparação não depende apenas da coincidência de um ator interpretar dois espiões: há uma continuidade consciente no trabalho dele.

A diferença mais profunda talvez esteja na maneira como cada um administra o sofrimento. Smiley ainda preserva uma forma de compostura que lhe permite servir à instituição mesmo depois de enxergar sua podridão. Lamb parece ter desistido de preservar qualquer aparência de respeito, mas continua reagindo com uma lealdade feroz quando seus agentes são ameaçados. Um mantém a dor dentro das convenções; o outro transformou a recusa das convenções numa defesa contra a dor.
Nenhum dos dois é tão simples quanto essa oposição sugere. Smiley pode ser implacável. Lamb pode ser delicado, embora faça o possível para que ninguém perceba. É aí que Oldman se torna extraordinário: a contenção de um não elimina sua violência, assim como a violência verbal do outro não elimina seu afeto. Ele não troca apenas o tom da atuação. Troca o lugar em que devemos procurar o personagem.
Hoje, Jackson Lamb está tão associado a Oldman que existe o risco inverso daquele que acompanhou boa parte de sua carreira. Antes, o público nem sempre reconhecia o ator por trás de tantas transformações. Agora, talvez tenha dificuldade de separar o ator daquele espião sujo e insuportável. Para quem só o conhece por Slow Horses, recuperar O Espião que Sabia Demais é uma maneira particularmente boa de compreender a dimensão do que ele está fazendo.
George Smiley talvez pedisse que Jackson Lamb se comportasse. Lamb certamente responderia com uma obscenidade. Mas, se precisassem descobrir quem os havia traído, os dois entenderiam muito rapidamente por que deveriam trabalhar juntos. Gary Oldman nos convence de que são homens radicalmente diferentes e, ao mesmo tempo, deixa sobreviver entre eles uma inteligência reconhecível. É o tipo de parentesco que um ator comum mostraria pela semelhança. Ele mostra pela diferença.
Descubra mais sobre
Assine para receber nossas notícias mais recentes por e-mail.
