Morre Eva Marie Saint, estrela de Hitchcock, aos 102 anos

Eva Marie Saint morreu nesta terça-feira, 6 de outubro, aos 102 anos, em sua casa em Los Angeles. Segundo seu representante, Jeff Sanderson, a atriz morreu de causas naturais, cercada pela família e por pessoas próximas. Com ela, o cinema perde uma de suas últimas grandes ligações vivas com a geração de Marlon Brando, Cary Grant e Alfred Hitchcock, mas também uma artista cujo talento não deveria ser resumido à companhia ilustre que manteve.

É difícil imaginar duas apresentações mais diferentes do mesmo rosto do que aquelas que fizeram de Saint uma estrela. Em Sindicato de Ladrões, ela era a jovem que confrontava a violência de um mundo masculino com uma insistência moral que ninguém conseguia silenciar. Cinco anos depois, em Intriga Internacional, tornava-se uma mulher sofisticada, sexualmente segura e praticamente impossível de decifrar. A delicadeza permanecia, mas seu significado mudava completamente.

Saint ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante logo na estreia no cinema, como Edie Doyle, em Sindicato de Ladrões (1954), de Elia Kazan. Era um começo extraordinário, mas seria injusto tratar sua atuação apenas como o encontro de uma estreante com o magnetismo de Brando. Edie precisava sustentar a consciência do filme sem virar uma figura abstrata de pureza. Saint encontrou uma mulher assustada, enlutada e obstinada, capaz de enxergar em Terry Malloy uma possibilidade de mudança que ele próprio já havia abandonado.

Na famosa cena da luva, quando Terry recolhe o acessório que Edie deixa cair e começa a brincar com ele, o romance nasce de uma negociação quase silenciosa. Ela quer ir embora, mas permanece; ele procura uma maneira de mantê-la perto sem saber pedir. Saint não compete com os gestos de Brando. Sua atenção dá sentido a eles. É uma atuação em que escutar importa tanto quanto falar, e na qual a fragilidade nunca significa ausência de força.

Quando recebeu a estatueta, em março de 1955, estava grávida e perto de dar à luz. Brincou no palco que poderia ter o bebê ali mesmo; seu filho Darrell nasceu dois dias depois. A história se tornou parte da memória do Oscar, mas também ajuda a explicar uma carreira que nunca foi organizada exclusivamente pelas exigências de Hollywood. Saint queria trabalhar, mas não estava disposta a entregar toda a vida à profissão.

Hitchcock reconheceu nela uma sensualidade que sua imagem inicial não havia explorado. Em Intriga Internacional (1959), Eve Kendall encontra Roger Thornhill, personagem de Cary Grant, num trem e assume o controle da aproximação com uma tranquilidade que ainda hoje parece moderna. Ela escolhe as palavras, sustenta o olhar e deixa que ele acredite estar acompanhando um flerte quando existe muito mais acontecendo.

A conversa no vagão-restaurante continua sendo uma das grandes cenas de sedução do cinema. Grant oferece charme, humor e uma segurança que o enredo já começou a desmontar. Saint responde com a serenidade de quem sabe mais do que revela. O erotismo está na espera, na voz e na distância entre aquilo que os personagens dizem e aquilo que desejam. Não é preciso tirar a roupa para que a cena seja extraordinariamente sensual.

A atriz lembrava que Hitchcock acompanhava cada elemento da construção de Eve: cabelo, maquiagem, figurino e acessórios. Mas seria um erro confundir esse controle visual com a ideia de que Saint era apenas uma imagem cuidadosamente arrumada. Sua atuação faz a elegância funcionar como disfarce. A mulher que parece dominar todas as situações também precisa administrar medo, desejo e uma posição perigosamente vulnerável.

Ela havia chegado ao cinema com experiência em rádio, televisão ao vivo e teatro. Nascida em Newark, Nova Jersey, em 4 de julho de 1924, estudou na Bowling Green State University e encontrou na atuação um caminho que inicialmente não planejava seguir. Em The Trip to Bountiful, trabalhou com Lillian Gish, que considerava sua mentora. Antes de se tornar um rosto associado ao glamour de Hollywood, Saint tinha aprendido a construir uma personagem com disciplina e atenção ao outro.

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Sua filmografia seguiria por caminhos variados: Exodus, com Paul Newman; Grand Prix, dirigido por John Frankenheimer; Os Russos Estão Chegando!, de Norman Jewison; e Adeus às Ilusões, ao lado de Elizabeth Taylor e Richard Burton. Não repetiu indefinidamente nem a inocência de Edie nem o mistério de Eve. Também não acumulou filmes apenas para permanecer visível. A seleção de trabalhos fazia parte da maneira como queria viver.

Na televisão, ganhou o Emmy em 1990 por People Like Us, como Lil Altemus, numa adaptação do romance de Dominick Dunne. Décadas depois de seu Oscar, continuava encontrando personagens e espaços diferentes para trabalhar. Para outra geração de espectadores, seria Martha Kent em Superman: O Retorno (2006), levando ao universo do super-herói uma presença acolhedora que dispensava qualquer esforço para demonstrar autoridade emocional.

Foi casada com o diretor Jeffrey Hayden de 1951 até a morte dele, em 2016, numa união de 65 anos. Tiveram dois filhos, Darrell e Laurette. Sua longevidade acabou se tornando notícia por si só, mas viver até os 102 anos não deveria eclipsar aquilo que fez quando a câmera estava ligada.

Eva Marie Saint sabia tornar-se uma personagem luminosa sem retirar dela suas sombras. Com Brando, sua delicadeza confrontava a brutalidade; com Grant, escondia uma inteligência que o sedutor demorava a alcançar. Rever esses filmes é perceber que ela nunca esteve ali apenas para acompanhar um grande ator. Muitas vezes, era justamente sua presença que revelava aquilo que ele ainda não sabia sobre si mesmo.


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