Ted Lasso: o final da 4ª temporada e a última ajuda de Mae (Recap)

Depois da despedida de Mae, seria difícil o final da quarta temporada de Ted Lasso começar de outra forma. Chove em Richmond, o pub está fechado e todos parecem perdidos sem a mulher que cuidava daquela comunidade, mesmo quando precisava colocar seus frequentadores em seus devidos lugares. Até os homens grosseiros que hostilizaram as jogadoras choram, assim como os três torcedores que praticamente faziam parte da mobília do Crown & Anchor. Mae era uma figura materna para eles, e “Being Alive” encontra nessa ausência seus momentos mais emocionantes, enquanto encaminha as mudanças que vão reorganizar o clube.

Há bastante coisa para resolver: a gravidez de Keeley, uma proposta profissional para Roy, o futuro de Alice e a ameaça de Zelda ao controle de Rebecca sobre o Richmond. Algumas soluções confirmam exatamente o que vínhamos discutindo aqui, especialmente o papel das ações de Mae. A tentativa de apresentar essa saída como grande reviravolta funciona menos do que a conversa entre Ted e Henry, que transforma o luto coletivo numa questão muito íntima.

Henry começa preocupado com o destino do pub e com a possibilidade de precisar mudar de casa. Durante a homenagem a Mae, porém, não aguenta a canção irlandesa interpretada pelas gêmeas e sai. Ted percebe o sofrimento que o filho tenta esconder e vai atrás dele. A conversa chega à morte do avô que Henry não conheceu e ao fato de Ted estar perto da idade que o pai tinha quando morreu, despertando no menino o medo de também perder o próprio pai.

Ted o tranquiliza, mas inicialmente não desfaz a versão que a avó havia contado sobre aquela morte. Depois, confessa a Beard o incômodo por não ter sido honesto com Henry. O amigo tenta confortá-lo, supondo que deve ter existido uma razão necessária para a mentira, mas Ted acaba retomando a conversa e contando ao filho a verdade sobre o suicídio do pai. É um dos momentos mais importantes do final: ele precisa encontrar uma maneira de falar de sua dor com Henry, sem continuar escondendo uma parte essencial da história da família.

Enquanto isso, Keeley continua passando mal por causa da gravidez, e Roy enfrenta uma mudança que também provoca enjoo. Seu agente, Derek, insiste nas ligações porque ele recebeu uma proposta para treinar o Chelsea. Ao reunir os Diamond Dogs, com Alice participando, Roy escolhe falar do medo de não ser um bom pai para o bebê e omite o convite profissional. Nate reaparece, agora também pai, e é recebido com tamanho carinho que os conflitos anteriores parecem completamente superados. É estranho vê-lo tão feliz e integrado, como se nada tivesse acontecido depois de tudo o que acompanhamos, mesmo que o perdão faça parte da proposta da série.

Roy acaba decidindo aceitar o Chelsea, embora permaneça no Richmond até terminar a temporada. Rebecca fica revoltada quando ele comunica sua escolha, mas a conversa encaminha a despedida. Entre a paternidade e a oportunidade de comandar um dos grandes clubes da Inglaterra, ele está diante de um futuro que exige mais do que as certezas e os palavrões com que costuma responder a tudo.

Para Lizzy, a dificuldade é mais imediata. O marido não cumpre o combinado de cuidar das crianças, e ela corre o risco de perder o jogo mais importante da temporada. A jogadora acaba chegando atrasada e com os filhos, porque essa foi a maneira de conseguir estar ali. É uma situação concreta sobre maternidade e carreira: o compromisso profissional dela fica condicionado ao apoio de alguém que promete dividir a responsabilidade, mas não aparece quando é necessário.

O jogo oferece às Lady Greyhounds a celebração que vinha faltando. O vídeo de Keeley, usando as imagens de Rebecca indignada, viraliza, e o estádio fica lotado pela primeira vez para as jogadoras. O time masculino aparece para apoiá-las, Sam está entre os rostos conhecidos que reencontramos, e Shannon recebe sua oportunidade de protagonismo em campo. Ted agradece a todas, lembra que Mae estará acompanhando do céu e pede que se divirtam. O resultado da partida acaba ficando em segundo plano: a conquista mostrada pelo episódio é aquela arquibancada cheia, com a comunidade finalmente presente para o time.

A resolução de Zelda é bem menos convincente. Na reunião dos acionistas, ela assume seu plano, e as referências anteriores à história do escorpião ganham a explicação que já esperávamos. Seu alvo era o time masculino e o poder de fazer os homens ouvi-la. Depois de fingir indignação com a venda das participações que ameaçava a maioria de Rebecca, Zelda finalmente abandona o papel de amiga solidária.

Só que Rebecca já havia percebido a manobra e também estava encenando. A solução vem de Mae, que deixa seus 2% do Richmond para ela, garantindo uma maioria pequena, mas suficiente para preservar o controle do clube. Era justamente a possibilidade que discutimos: as ações compradas por Mae não estavam naquela história por acaso, e a personagem acaba protegendo o Richmond mesmo depois de morrer. Seu outro legado é igualmente afetivo, pois o pub fica para os três torcedores de quem tanto cuidou.

O problema está no peso que o episódio dá à traição. Rebecca perdoa Zelda e responde à fábula do escorpião com outra versão, na qual a mulher continua tentando salvá-lo, apesar das ferroadas, porque ajudar faz parte de sua natureza. A generosidade combina com os valores da série, mas o conflito termina com uma facilidade que esvazia a ameaça construída. Zelda permanece como acionista, embora sem a maioria necessária para controlar o clube. Para quem acompanhava as pistas, não havia grande surpresa, e a traição acaba produzindo poucas consequências.

Rebecca também pede o namorado em casamento, e ele aceita, acrescentando mais um fechamento feliz ao episódio. Jane tem sucesso com sua peça, enquanto Beard continua lidando com a dinâmica dos dois e suas perucas cada vez mais esquisitas. São resoluções que reforçam a vontade da série de acomodar seus personagens, mesmo quando algumas dessas histórias despertam menos interesse do que outras.

A mudança decisiva fica para o encerramento. Ted pede a Rebecca que Alice Chilton assuma como treinadora do time feminino, e ele permanece como assistente dela, a princípio ao lado de Beard. A saída de Roy poderia sugerir um retorno imediato de Ted ao masculino, mas o final escolhe reconhecer a mulher que vinha fazendo o trabalho e precisava receber a posição correspondente. É um fechamento bem amarrado para essa relação, acompanhado da revelação de que Alice baixava deliberadamente a cadeira de Ted para fazê-lo cair: a brincadeira repetida ao longo dos dez episódios ganha, enfim, sua explicação.

Há um mérito na maneira como a temporada reencontra seus personagens. As participações surgem dentro do contexto, sem a necessidade de reunir todo mundo de uma vez para provar que ninguém foi esquecido. Para quem acompanha desde o início, cada reaparição oferece o prazer de reconhecer uma continuidade, e o apoio do time masculino às jogadoras faz parte desse movimento. A temporada sabe contar com o afeto que já construímos por essas pessoas.

O que faltou foi dedicar atenção semelhante às novas personagens. Encerramos os dez episódios sem conhecer profundamente a vida das jogadoras ou mesmo a de Alice. É verdade que tivemos três temporadas para acompanhar os homens, e nem todos receberam o mesmo desenvolvimento, mas ainda assim houve mais espaço para compreender quem eram para além do campo. O time feminino precisava desse investimento, especialmente numa temporada que fez de sua criação a razão para trazer Ted de volta. A familiaridade com os antigos personagens acaba compensando parte dessa lacuna para os fãs, mas não a resolve.

Também chama atenção como Ted continua triste. Há uma melancolia muito clara nele, mesmo quando as histórias ao redor encontram soluções felizes. A conversa honesta com Henry é um avanço importante, e os dois terminam mais próximos, permanecendo em Londres, mas essa aproximação não significa que Ted esteja plenamente feliz ali. Foi uma temporada para baixo em algum nível, apesar da insistência em encaminhar a vida de quase todos para uma conclusão positiva.

Rebecca preserva o Richmond e fica noiva, Roy prepara sua mudança profissional e a paternidade, o pub permanece com os três amigos que sempre fizeram parte dele, e Alice finalmente assume o time feminino. São desfechos que poderiam permitir que a história parasse aqui, se essa fosse a escolha. Ainda assim, fica a impressão de que Ted tem mais a ver com viver nessa nova configuração, especialmente porque a vaga deixada por Roy mantém em aberto o comando do masculino. Ted e Beard poderiam voltar para esse lado do clube, mas o episódio não confirma esse caminho.

O feminino já tem sua direção definida; a grande pergunta passa a ser o futuro do Richmond masculino. O final organiza bem essa continuidade e deixa espaço para uma próxima temporada, enquanto preserva uma inquietação que os reencontros e as soluções felizes não apagam: Ted conseguiu falar a verdade ao filho e reconhecer o lugar de Alice, mas ainda parece precisar encontrar o próprio lugar dentro da vida que escolheu manter em Londres.


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