Ted Lasso: onde estava o técnico que conhecemos e adoramos?

Depois de um longo hiato e da certeza de que tinha “acabado”, Ted Lasso, o sucesso da pandemia, voltou para uma quarta temporada desafiando céticos e aumentando as expectativas dos fãs. Mas, se um dia foi febre, agora mal chegou ao estágio febril mesmo entre quem mais amava a série. Ao fim dos dez episódios, meu incômodo ficou mais claro: o personagem que dava alma à história esteve ali, mas passou boa parte do tempo distante dela. Ted voltou triste e, ao contrário do que acontecia antes, quase não conseguiu transformar essa tristeza em alguma coisa que o conectasse às pessoas à sua volta.

O Ted Lasso que vimos na quarta temporada continuou gentil, educado e capaz de oferecer apoio, mas pareceu ter perdido o acesso àquilo que fazia sua sensibilidade se transformar em movimento. Antes, mesmo quando estava sofrendo, ele se envolvia, insistia, encontrava uma maneira de atravessar as resistências de quem estava à sua volta. Sua dor existia, ainda que ele a escondesse sob as piadas e o otimismo, e as crises de pânico expunham aquilo que não conseguia mais conter. Fora desses momentos, porém, havia uma disposição para participar da vida. Nesta temporada, a tristeza permaneceu mesmo nas cenas em que deveria estar feliz, acompanhada de uma apatia que tornou o técnico menos reconhecível.

Seu retorno ao Richmond recuperou o cenário, as amizades e a familiaridade, mas não devolveu a ele a disposição emocional que associávamos àquele lugar. Todos reapareceram de uma maneira ou de outra, dentro do contexto, e essa continuidade foi bem construída. Ted também esteve bem com as pessoas que reencontrou, sem grandes conflitos que justificassem seu afastamento. O problema foi justamente esse: cercado de afeto, ele pareceu pouco mobilizado por aquilo que acontecia ao redor. Faltaram a graça, a curiosidade e a iniciativa daquele homem que conseguia fazer os outros se sentirem vistos.

Isso apareceu especialmente na relação com as jogadoras e com a coach. Ted esteve presente, participou dos treinos e ofereceu apoio, mas não se envolveu com a mesma intensidade com que construiu sua relação com o time masculino. Podemos considerar que havia ali um homem aprendendo a ocupar outro espaço, sem precisar ser o centro de todas as transformações. Só que a temporada foi além dessa mudança de posição: tantos dramas aconteceram ao redor dele, e Ted pareceu saber tão pouco sobre as meninas que treinava. A dificuldade para identificar as gêmeas irlandesas serviu de piada, mas também resumiu involuntariamente o que estava faltando naquela relação.

O encanto do técnico nunca dependeu de seu conhecimento de futebol. Desde o início, sua grande habilidade foi perceber pessoas, encontrar potencial onde os outros viam problemas e criar vínculos que acabavam transformando o time. Por isso, a falta de uma estratégia esportiva convincente pesou ainda mais quando veio acompanhada dessa distância emocional. Se Ted não dominava o jogo e também não demonstrava o mesmo interesse pela vida das jogadoras, o que exatamente sustentava sua presença ali? Ele treinou o time, mas sua entrega ficou muito aquém daquela que havia feito de um treinador improvável, alguém indispensável para o Richmond.

A aproximação com Henry deveria ter permitido que ele respirasse melhor. A distância do filho havia sido um dos grandes sofrimentos de sua experiência na Inglaterra, e trazê-lo para perto foi uma decisão compreensível e boa. Gostei de vê-lo como pai, e não há nada de errado em um homem rever suas prioridades para estar mais presente na vida do filho. Mas a temporada manteve Ted dividido entre Henry, a culpa, a preocupação e Michelle, deixando pouco espaço para o trabalho que o havia levado de volta. Estar com a família fez sentido; permanecer emocionalmente ausente do restante da própria vida foi outra coisa.

E é aí que a presença física de Michelle em Londres se tornou tão difícil de compreender. Ted trouxe o filho, mas trouxe também a ex-mulher, e os dois estiveram juntos o tempo inteiro, conversando sobre tudo, mantendo uma intimidade que parecia ocupar o espaço de qualquer possível recomeço. Eles têm um filho e precisam construir uma boa convivência, evidentemente. Só que uma relação cordial entre pais separados não explica, por si só, a necessidade de conservar essa proximidade constante. Ao fim da temporada, continuei sem entender o que Michelle foi fazer ali e o que sua presença acrescentou à vida de Ted além de mantê-lo ligado ao casamento que acabou.

Já falei algumas vezes de como vejo crueldade nessa amizade que ela oferece, porque a cordialidade não elimina o efeito de manter Ted emocionalmente próximo depois de encerrar a relação. A temporada ainda tentou acomodar uma justificativa para seu envolvimento com o terapeuta que havia participado da vida do casal, uma situação atravessada por um problema ético que uma explicação conveniente não resolveu. Para mim, essa tentativa de tornar Michelle mais compreensível não produziu simpatia. Apenas reforçou a sensação de que Ted continuava fazendo o esforço de acolher tudo, inclusive aquilo que o havia ferido.

Foi preciso que ela o incentivasse a procurar alguém para que ele ensaiasse um movimento em sua vida amorosa. O primeiro interesse não deu certo, talvez possa ser retomado numa outra temporada, mas Ted parou ali. Até sua tentativa de seguir em frente pareceu depender da autorização de Michelle, enquanto ela permaneceu ao seu lado numa posição confortável de amiga e confidente. Ele continuou disponível para uma intimidade cujo significado havia mudado para ela, mas que, para ele, ainda parecia guardar alguma coisa sem resolução.

Não seria necessário brigar, romper relações ou prejudicar a convivência com Henry para estabelecer um limite. Ted precisava encontrar um espaço que não estivesse permanentemente ocupado pela ex-mulher. Sua capacidade de compreender tudo e todos pareceu dificultar esse reconhecimento, e a temporada não mostrou um avanço convincente nesse sentido. Se a terapia havia sido tão importante para ele antes, senti falta de vê-lo buscar novamente esse apoio. Havia sofrimento demais sendo administrado com silêncio, gentileza e acomodação, sem que isso o ajudasse a sair do lugar.

Ted também teve Beard, seu melhor amigo e uma presença de apoio, além dos vínculos que construiu no Richmond. Ainda assim, sofreu uma nova perda com a morte de Mae, uma figura maternal importante naquele universo. Sua despedida acrescentou uma camada de dor a um personagem que já parecia triste desde o início. O luto teve peso, mas não explicou sozinho o tom da temporada: a falta de alegria e de envolvimento já estava ali, muito antes dessa perda.

É doloroso porque a série sempre soube que seu otimismo convivia com sofrimento. Ted nunca foi simplesmente um homem feliz: sua gentileza também era uma maneira de lidar com perdas, ansiedade e abandono. O que o tornava tão bonito era justamente sua capacidade de se doar apesar de tantos problemas internos. Antes, havia uma energia de construção, uma vontade de acreditar que o próximo vínculo poderia produzir alguma coisa boa. Nesta temporada, ele conservou alguns gestos de quem acreditava, mas raramente transmitiu a convicção que os sustentava.

Rebecca seguiu sendo seu espelho, mesmo com Tedbecca praticamente enterrado e com a química entre os dois muito menos presente. Sempre a vi como sua alma gêmea pela capacidade de reconhecimento mútuo: ambos entendiam alguma coisa no outro que nem todos conseguiam alcançar. Nesta temporada, porém, essa proximidade não se transformou em um caminho compartilhado. Rebecca encontrou alguém, passou boa parte do tempo sabotando a possibilidade de ser feliz e, depois, se lançou em um casamento num gesto impulsivo. A decisão pôde representar uma abertura, mas também deixou a dúvida sobre quanto ela elaborou seus medos antes de tentar ultrapassá-los de uma vez.

Não gosto particularmente do piloto; há algo nele que me causa estranhamento e dificulta meu envolvimento com o casal. Ainda assim, a relação simbolizou uma tentativa de Rebecca seguir a própria vida. Ela não manteve Rupert ao lado, compartilhando sua rotina e aconselhando seus próximos passos amorosos, nem permaneceu emocionalmente instalada na relação com Sam. A comparação não torna essas histórias equivalentes, mas ajuda a mostrar o que me incomodou em Ted: Rebecca, com todas as suas contradições, tentou abrir espaço para alguém. Ele continuou com Michelle ocupando boa parte desse espaço.

Os dois permaneceram espelhados na dificuldade de sustentar o próprio desejo, embora tenham reagido de maneiras diferentes. Rebecca oscilou entre afastar a felicidade e tentar garanti-la com uma decisão enorme; Ted pareceu reduzir suas expectativas até quase não pedir nada. Ela acelerou depois de frear a temporada inteira, enquanto ele ficou emocionalmente parado. O casamento dela não resolveu automaticamente essa tensão, assim como a passagem dele pelo Richmond não significou que tivesse reencontrado seu lugar.

Ao fim dos dez episódios, foi essa ausência que mais pesou para mim. Houve reencontros, continuidade, novas histórias e espaço para o time feminino seguir, mas faltou a alma que Ted costumava dar a tudo isso. Uma temporada poderia perfeitamente acompanhar seu desgaste, sua mudança de prioridades e a dificuldade de continuar sendo aquele homem otimista. O que senti falta foi de uma elaboração que transformasse essa mudança em trajetória, em vez de deixar o personagem quase sempre triste, frio e distante. Ted merecia encontrar uma possibilidade de alegria para si, mas também precisava voltar a se interessar pela vida que havia escolhido viver. Sem essa entrega, reconheci seus modos e sua gentileza, mas passei a temporada procurando o técnico que conhecemos e adoramos.


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